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  |   16/03/2020   |   Desenvolvimento Humano   |  

Sou bom o bastante? Cuidado com a Síndrome do Impostor

A Síndrome do Impostor se estabelece quando a pessoa não consegue reconhecer, validar e internalizar os frutos da sua própria capacidade, quando se valoriza mais a sorte do que o próprio esforço. É um padrão de comportamento que nos aprisiona numa mentalidade de cobrança excessiva e que traz um constante sentimento de inadequação e ansiedade.

Será que eu sou bom o suficiente no que faço? Será que eu tenho, de fato, as competências necessárias para ocupar a posição que ocupo? Será que sou mesmo capaz de realizar esta atividade ou de entregar este trabalho?

Talvez essas perguntas já tenham passado pela sua cabeça alguma vez. Ou se repitam em determinados momentos da sua vida e carreira.

É possível ainda que as perguntas propriamente ditas não tenham vindo assim, tão diretas, à sua mente. Mas em contrapartida você pode já ter se identificado em situações de cobrança excessiva pelas tarefas que precisa realizar; aplicando um esforço exagerado na execução de atividades que, em tese, poderiam ser realizadas com mais leveza e simplicidade; colocando um alto nível de exigência para consigo mesmo e em tempo integral; manifestando uma tendência perfeccionista diante da vida em geral; experimentando uma necessidade constante de agradar as outras pessoas, às vezes a custos bastante elevados; fazendo uma frequente comparação de si mesmo com as outras pessoas; percebendo dificuldade para lidar com críticas e feedbacks corretivos.

Você há de convir que comportamentos como estes podem trazer um estado permanente de apreensão e vigilância, no qual o indivíduo gasta uma grande parte da sua energia emocional para administrar.

Engana-se quem acredita que esse padrão de comportamento só se manifesta naquelas pessoas que não possuem qualificação, que não protagonizam suas histórias ou que não cuidam do próprio desenvolvimento. Ele é mais comum do que você imagina e pode reunir os indícios do que se define como Síndrome do Impostor.

Esse termo foi usado pela primeira vez em 1978 pelas pesquisadoras americanas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, da Georgia State University, depois de realizarem um estudo com mulheres bem-sucedidas que apresentavam grande dificuldade em reconhecer os resultados que já haviam conquistado.

Impostor é o nome que se dá àquele que finge ser o que não é. Aquele que se diz capaz de fazer o que realmente não pode. Aquele cujo principal medo é o de ser descoberto e ter sua farsa revelada.

Neste nosso universo comportamental, a Síndrome do Impostor se estabelece quando a pessoa não consegue reconhecer, validar e internalizar os frutos da sua própria capacidade e esforço.  Ela cria na mente a sensação de que seus méritos foram alcançados por sorte, por obra do acaso, pela força destino, por ajuda divina ou por qualquer outra interferência externa, sem o estabelecimento de nenhuma conexão com seu próprio desempenho.

A Síndrome do Impostor está diretamente relacionada com o excesso de cobrança e geralmente se manifesta quando a pessoa está passando por alguma mudança ou quando está diante do desafio de agir de maneira diferente do habitual. Algo que também poderia ser chamado de “vida cotidiana”, pois se analisarmos a realidade em que vivemos atualmente, as mudanças estão em toda parte, acontecem todos os dias. A todo momento precisamos adaptar nosso comportamento mediante as demandas do trabalho, da família, da escola, dos relacionamentos em geral.

Algumas culturas corporativas também favorecem a manifestação desta síndrome, uma vez que não incentivam a prática do planejamento ou deixam de informar suas prioridades e direcionamentos, por exemplo. As pessoas passam o dia todo “apagando incêndios” e com isso não conseguem aplicar suas competências e realizar o trabalho para o qual foram contratadas. Como resultado ao final do dia, seguem para casa com uma sensação de débito, incapacidade ou até mesmo de incompetência.

Líderes mal preparados também podem favorecer esse quadro, quando sonegam feedback positivo e deixam de reconhecer as contribuições de seus liderados. Como resultado, as pessoas ficam sem saber se o seu comportamento está caminhando na direção correta e assim, podem vir a questionar suas próprias ações.

As pesquisas comprovam que a Síndrome do Impostor atinge cerca de 70% dos profissionais bem-sucedidos, principalmente as mulheres. Isso acontece porque as mulheres em geral desempenham muitos papeis e todos eles, revestidos de um alto grau de cobrança. Elas exercem uma jornada dupla, às vezes tripla, de trabalho. Precisam lidar com as pressões e regras de um ambiente de trabalho que ainda é predominantemente masculino. E para agravar um pouco mais essa situação, precisam trabalhar duas vezes mais que os homens para obter o mesmo nível de reconhecimento. Mulheres “super poderosas” como Michelle Obama, Emma Watson e Kate Winslet já se reconheceram publicamente nesta síndrome.

O ator Tom Hanks, do alto de sua competência e com uma trajetória repleta de sucessos, também já se viu na mesma situação.

A Síndrome do Impostor se insere inclusive no território das nossas crenças e como já conversamos antes, fazer mudanças neste nível é bastante desafiador. Na maioria das vezes requer a ajuda externa de um profissional devidamente habilitado para isso. A pessoa até apresenta um bom nível de autoconhecimento e acerca de seus conhecimentos, habilidades, atitudes e resultados. No entanto, ela acredita que as outras pessoas sabem mais (o que quase sempre não é verdade) e desta forma passa a desconfiar de todo o seu repertório e viver um círculo infindável de comparação, sentimento de inadequação, complexo de inferioridade, baixa autoestima, ansiedade, insegurança, medo de se expor e autossabotagem. Pode-se imaginar o tamanho do sofrimento, não é mesmo?

É natural e positivo que tenhamos as mais altas expectativas para nós mesmos. Que desejemos ser excelentes em tudo aquilo que nos propusermos a fazer e em todos os papeis que desempenhamos na vida. Que nos movimentemos sempre na direção da melhoria e do aperfeiçoamento contínuo.

O problema aparece quando isso toma uma proporção de exigência alta demais, a ponto de nos aprisionar numa mentalidade de cobrança excessiva e eventualmente nos colocar na esfera da Síndrome do Impostor.

É preciso reconhecer que, quando as expectativas não se concretizam, quando não atingimos o nível de excelência desejado ou quando as coisas não acontecem exatamente do jeito que planejamos, não é uma tragédia. Não é o fim do mundo. A gente não morre por causa disso, pode confiar.

Afinal, você está aqui bem vivo, lendo este texto e tendo vários insights, assim eu espero. Mesmo depois de já ter passado, mais de uma vez, pelos episódios que acabei de citar no parágrafo anterior.

Um grande abraço e até breve...

As informações e opiniões veiculadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a opinião do Grupo CIMM.
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Samanta Luchini

Mestre em Administração com Foco em Gestão e Inovação Organizacional e Especialista em Gestão de Pessoas pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul - USCS. Psicóloga pela Universidade Metodista de São Paulo. Executive & Life Coach em nível Sênior, com formação internacional pelo ICI (Integrated Coaching Institute) em curso credenciado pela ICF (International Coach Federation). Professora convidada dos programas de pós-graduação da FGV/Strong, Universidade Metodista e Senac, dos programas de MBA da Universidade São Marcos e Unimonte, e dos cursos FGV/Cademp, para a área de Gestão de Pessoas. Professora conteudista do Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos – UNIFEOB. Atua há mais de 19 anos com Gestão de Pessoas em diversas empresas e segmentos, dentre elas Wickbold, Bridgestone, Bombril, Solar Coca-Cola, Porto Seguro, Grupo M. Dias Branco, Prensas Schuler, Arteb, Grupo Mardel, Tegma, Pertech, Sherwin-Williams, Grupo Contax, Grupo Libra, Grupo Sigla, Unilever, Engecorps, Nitro Química, Grupo Byogene, Netfarma, NTN do Brasil e Toyota. Em sua trajetória profissional e acadêmica, já desenvolveu mais de 17.500 pessoas, com uma média de avaliação superior a nota 9,0 em todos seus treinamentos. Palestrante, consultora de empresas e autora de diversos artigos acadêmicos publicados em congressos e revistas. Colunista da revista Manufatura em Foco – www.manufaturaemfoco.com.br


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