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  |   11/02/2020   |   Desenvolvimento Humano   |  

O desafio de ser autêntico

Ser autêntico é algo que dá bastante trabalho. Significa travar uma batalha diária para manter vigentes seus princípios, crenças e valores mais importantes. Independente do ambiente, da situação, de quem está ao seu redor, dos ganhos ou das perdas.

A autenticidade é a característica daquilo que é real, verdadeiro, genuíno. Isso vale para obras de arte, documentos, informações e também para o ser humano. Quando aplicada às atitudes e ao comportamento, a autenticidade nos remete a uma pessoa constante, coerente e plenamente confiável.

Contudo, é provável que você já tenha ouvido alguém ostentar essa característica a partir de uma confusão conceitual. A evidência geralmente aparece em frases do tipo “Eu sou uma pessoa autêntica, falo tudo que penso.” Ainda mais nos dias atuais, em que por trás da tela de um smartphone, todo mundo é corajoso para dizer qualquer coisa para qualquer pessoa, sem analisar corretamente o contexto ou as consequências.

Isso me traz um certo desconforto, não apenas pela confusão conceitual. Mas principalmente porque soa como uma prerrogativa para a manifestação de comportamentos inadequados e por vezes até inaceitáveis.

Então, quero convidar você para uma rápida reflexão sobre essa questão.

Você fala exatamente o que pensa do seu chefe para ele? Para um funcionário? Para a sua sogra? Ou para aquele cliente/fornecedor nem sempre honra sua palavra durante a realização de um trabalho?

Tenho certeza de que você transmite sim a mensagem que deve se transmitida ao chefe, ao funcionário, à sogra ou ao cliente/fornecedor. Tenho ainda mais certeza de que você “prepara” a melhor forma para fazer isso. Escolhe as palavras mais apropriadas para expressar o que aconteceu, o que sente ou o que pensa. Escolhe o melhor momento e o melhor ambiente para ter essa conversa. Às vezes compartilha com alguém próximo, para encontrar novos insights e caminhos diferentes, especialmente quando se trata de uma conversa difícil. Talvez até ensaie a cena em casa, diante do espelho, na véspera dessa conversa, para que se sinta mais confiante.

Isso porque você sabe que, se falar tudo do jeito que pensa e sem nenhum tipo de filtro, pode agravar ainda mais uma situação conflituosa ou gerar um desgaste para a relação, o que vai demandar muito mais energia para ser resolvido.

Falar o que pensa não é, definitivamente, uma prova de autenticidade. Pelo contrário, é uma prova de falta de inteligência emocional, especificamente das dimensões do autogerenciamento – aquela que nos permite controlar e gerenciar nossos próprios impulsos - e da empatia – aquela que nos permite reconhecer e validar o estado emocional das outras pessoas.

Além disso, revela também uma falha de comunicação, pois uma das principais características de um bom comunicador é a capacidade de adaptar sua mensagem ao receptor, para que este possa decodifica-la de forma correta e chegar ao melhor entendimento possível. O que quase não se observa na postura dos “pseudo-autênticos”, que falam tudo que pensam, sem filtro, sem adaptação, sem considerar o estrago que podem vir a causar.

Pessoas autênticas não omitem sua opinião, não tem medo de expressar o que pensam ou de serem criticadas. Quando tem algo a dizer, elas dizem. Mas o fazem sempre mantendo o cuidado de ajustar a sua forma de comunicar, de modo a não ferir a outra pessoa e assegurar o melhor entendimento possível.

Percebe que não tem nada a ver com falar o que pensa?

Ser autêntico é algo que dá bastante trabalho. Significa travar uma batalha diária para manter vigentes seus princípios, crenças e valores mais importantes. Independente do ambiente, da situação, de quem está ao seu redor, dos ganhos ou das perdas.

Eu já vi pessoas recusarem propostas de emprego altamente atrativas, porque a empresa fabricava produtos que fazem mal à saúde. Já vi executivos pedirem demissão de seus altos cargos, porque a cultura da empresa invalidava seus valores. Já vi profissionais recusarem “aquele cliente que todos querem ter no portfólio” porque ele não respeitou o formato básico da parceria.

Ser autêntico significa honrar a própria história e cada passo que foi dado para chegar onde se chegou. Mesmo que a trajetória tenha sido marcada por mudança e evolução, muito do que somos no hoje, reflete aquilo que vivemos e aprendemos no passado.

Significa ter coragem e disposição para manter um canal aberto com a verdadeira essência. Ser honesto com os próprios sentimentos e, a partir disso, fazer suas escolhas e sentir-se confortável com elas.

A autenticidade está totalmente associada ao seu nível de autoconhecimento. Por isso é fundamental investir um tempo na identificação e na análise dos seus valores, do seu propósito, das suas crenças, das suas forças e das suas vulnerabilidades.

Você já fez isso? Está fazendo? Quando fará?

Penso que se a autenticidade tivesse um lema, poderia ser este: Fale de acordo com o que pensa e aja de acordo com que fala. Sempre.

Um grande abraço e até breve

As informações e opiniões veiculadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a opinião do Grupo CIMM.
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Samanta Luchini

Mestre em Administração com Foco em Gestão e Inovação Organizacional e Especialista em Gestão de Pessoas pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul - USCS.
Psicóloga pela Universidade Metodista de São Paulo.
Executive & Life Coach em nível Sênior, com formação internacional pelo ICI (Integrated Coaching Institute) em curso credenciado pela ICF (International Coach Federation).
Professora convidada dos programas de pós-graduação da FGV/Strong, Universidade Metodista e Senac, dos programas de MBA da Universidade São Marcos e Unimonte, e dos cursos FGV/Cademp, para a área de Gestão de Pessoas. Professora conteudista do Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos – UNIFEOB.
Atua há mais de 19 anos com Gestão de Pessoas em diversas empresas e segmentos, dentre elas Wickbold, Bridgestone, Bombril, Solar Coca-Cola, Porto Seguro, Grupo M. Dias Branco, Prensas Schuler, Arteb, Grupo Mardel, Tegma, Pertech, Sherwin-Williams, Grupo Contax, Grupo Libra, Grupo Sigla, Unilever, Engecorps, Nitro Química, Grupo Byogene, Netfarma, NTN do Brasil e Toyota.
Em sua trajetória profissional e acadêmica, já desenvolveu mais de 17.500 pessoas, com uma média de avaliação superior a nota 9,0 em todos seus treinamentos.
Palestrante, consultora de empresas e autora de diversos artigos acadêmicos publicados em congressos e revistas.
Colunista da revista Manufatura em Foco – www.manufaturaemfoco.com.br


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