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  |   06/03/2017   |   Marketing e Comportamento   |  

Demissões: terceirizando o carrasco!

Preocupadas com o processo de demissão de seus funcionários, empresas contratam "consultores especializados". Esta é a história de "Up in the Air".

“Amor sem Escalas” é a tradução dada no Brasil para o filme Up in the Air, (EUA, 2009). A expressão se refere a algo incerto, inseguro, “no ar”. No filme, George Clooney interpreta Ryan Bingham, consultor contratado pelas empresas para demitir funcionários. Isso mesmo, até a função de carrasco pode ser terceirizada! Ele nada mais é do que um corporate downsizing expert.

Contratar é fácil, todo mundo gosta de dar as boas-vindas a um novo funcionário, mas demitir é outra história, é preciso chamar Ryan, o super “consultor de demissões”, que de forma profissional e até empática, explica aos demitidos que é preciso repensar as estratégias para os próximos dias, porque seus serviços não serão mais necessários. Assim, com calma, olho no olho, sem rodeios, ele dá a mensagem. Isto feito, parte para sua próxima viagem – aliás, isto é o que ele faz o tempo todo – para conversar com os “escolhidos” em outra empresa.

Penso que não existe pior papel numa empresa do que ser demitido e, talvez, até o de demitir alguém. Nenhum papel é confortável, mas evidentemente o primeiro é muito mais doloroso já que para muitas pessoas, perder o emprego é perder o chão, “a família”, sua referência. Estas pessoas colocam junto ao seu nome, um sobrenome, o da empresa, é o Ricardo da ABC, a Paula da DEF, a Marta da GHI, enfim, elas acabam incorporam à sua vida, uma parte da empresa e quando esta se vai, um grande vazio se instala. É realmente traumático.

O filme, uma mistura de drama e comédia – é carregado de ironias. O Ryan de George Clooney, é um grande outsider, um ser desapegado, sem laços de afeto com nada ou ninguém, um homeless chique. Ele se sente muito mais à vontade em hotéis, cidades e aeroportos – lugares coletivos, despersonalizados, lotados e ao mesmo tempo vazios, estes sim representam seu verdadeiro lar. Sua meta na vida, além de demitir funcionários em todo o país - e dizem que os atores foram realmente demitidos poucos dias antes das filmagens -  é querer ser o cliente mais jovem da American Airlines, com dez milhões de milhas, com direito a ter cartão especial da empresa, os parabéns do comandante durante o voo e o nome gravado num avião da empresa. Sua vida acontece literalmente “no ar”.

Talvez o que o filme queira mostrar é que até para demitir é preciso ter estômago, ser um profissional frio e lógico, porque de outra forma seria impossível fazer isso e não se sentir mal. O processo é cruel e não há como não ser, ainda que muitos gestores possam alegar que a culpa é da empresa, do mercado, das políticas e não do funcionário, “ nada pessoal”. Para ele pouco importam todas as justificativas – é "pessoal" sim –  porque senão fosse, não estaria acontecendo com ele, certo?

O filme é um pouco frio, distante, tem aquele tom cinza corporativo, não existe calor humano. O próprio Ryan também passa pela insegurança de ver seu trabalho em risco quando uma jovem e ambiciosa profissional descobre um método de fazer o desligamento dos funcionários através de vídeo conferência, o que representa uma grande redução de custos para as empresas. E lá se vai o “olho no olho”, as viagens, os hotéis, a vida fora de casa. Ele viaja com ela pelo país para mostrar a importância de seu trabalho e do contato pessoal e numa destas viagens conhece a executiva Alex Goran, com quem vai ter um breve e intenso relacionamento – uma pessoa tão fria, lógica e desapegada como ele - e aí vai provar de seu próprio veneno. É, o mundo dá voltas.

O filme é uma aula sobre marcas, que aparecem o tempo todo -  de hotéis a locadoras de carro - mas principalmente é um triste relato de  como as empresas tratam as baixas corporativas em tempos de crise. É, portanto, um filme muito atual.

Gladis Costa

As informações e opiniões veiculadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a opinião do Grupo CIMM.
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Gladis Costa

Gladis Costa é profissional da área de Comunicação e Marketing, com vivência em empresas globais de TI. É fundadora do maior grupo de Mulheres de Negócios do LinkedIn Brasil, que conta com mais de 6200 profissionais. Escreve regularmente sobre gestão, consumo, comportamento e marketing. É formada em Letras, e tem pós graduação em Jornalismo, Comunicação Social e MBA pela PUC São Paulo. É autora do livro "O Homem que Entendia as Mulheres", publicado pela All Print.


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