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O avanço da inteligência artificial trouxe um desafio paradoxal às empresas: como se diferenciar quando a tecnologia digital se torna uma “commodity” acessível a todos? Para especialistas, a resposta não está nos investimentos em softwares, mas em capacitar lideranças para desenvolver pessoas como o principal motor estratégico.
“A IA tende a igualar a capacidade digital das empresas. O diferencial estará nos líderes que conseguirem criar ambientes psicologicamente seguros para que os colaboradores desenvolvam seu potencial máximo”, resume Robson Gouveia, diretor do Lean Institute Brasil (LIB).
Ricardo Oréfice, ombudsman do Itaú, complementa: “Resultados sustentáveis dependem da qualidade das conexões humanas. O diferencial do líder está hoje menos na tecnologia e mais em entender, respeitar e desenvolver liderados.”
Para aprofundar essa discussão, Gouveia e Oréfice estão lançando o livro “Gente Lean: Um romance empresarial sobre liderança, confiança e conexões humanas”, publicado pelo LIB, organização sem fins lucrativos de São Paulo que há três décadas dissemina o sistema lean no Brasil.
O livro é o primeiro “romance empresarial” – gênero literário focado em histórias ficcionais de ambientes corporativos – escrito e lançado no Brasil com base no sistema lean, modelo de gestão que, em resumo, busca desenvolver pessoas para que possam, em tudo o que fazem, eliminar desperdícios, melhorar processos, resolver problemas e aumentar a agregação de valor aos clientes.
A narrativa acompanha a jornada ficcional de Cristina, nova diretora do Grupo Marquez, um tradicional conglomerado marcado pela busca cega por metas quantitativas, falta de cooperação interna e pelo "silêncio" gerado por medo de punições. Na trama, ela inicia uma transformação cultural para desconstruir a liderança "comando e controle", criando canais de escuta ativa e revendo métricas sob as premissas da gestão lean.
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Antes mesmo do lançamento oficial, o livro já recebeu menções honrosas de grandes executivos: "A obra é um convite corajoso para repensar liderança, não como ‘autoridade’, mas como prática de aprendizado", ressaltou Claudia Zen, diretora da Universidade Corporativa Leroy Merlin.
"O livro nos lembra que dúvida é aliada; erro é aprendizado. E valorizar pessoas é o melhor caminho para construir cultura", afirmou também Candido Bracher, conselheiro de empresas e que foi executivo do setor financeiro por mais de 40 anos.
"A obra explicita algo que muitos líderes intuem, mas hesitam em assumir: não há transformação cultural possível sem evoluir os sistemas que organizam o comportamento cotidiano", complementou Flávio Battaglia, presidente do LIB.
Para os autores, um dos aspectos mais críticos abordados no livro é a dificuldade dos próprios executivos em enxergar falhas em seus comportamentos. Segundo Gouveia e Oréfice, transformações organizacionais frequentemente falham porque a alta gestão foca excessivamente em ferramentas, metas e metodologias, mas deixa em segundo plano, quando muito, a mudança de mentalidade, inclusive da própria. “O livro faz essa provocação: estimula executivos para que se concentrem menos em ‘discursos’ de transformação e mais nos comportamentos que eles praticam diariamente”, pontua Gouveia.
Segundo os autores, isso significa ter outra mentalidade e prática de gestão. Por exemplo, substituir o comando e controle, baseado em ordens e na entrega de soluções prontas, pela interação cotidiana com liderados, para apoiá-los na revelação e solução científica de problemas. Para isso, priorizar a “punição dos processos”, mas não das pessoas, visando, ao contrário, desafiá-las, apoiá-las e, assim, desenvolvê-las. Com isso, eliminar medos, fortalecendo a segurança psicológica das pessoas para que possam se expressar sobre o que de fato ocorre nas organizações.
No entanto, atestam os especialistas, não raro, líderes fazem o contrário de tudo isso. E ainda acreditam que estão promovendo a inovação enquanto mantêm e reforçam estruturas punitivas. "A liderança acha que está estimulando mudanças, mas continua alimentando o medo, a centralização, a urgência excessiva e a baixa escuta — exatamente os elementos que bloqueiam uma cultura de aprendizado e de inovação verdadeira", disse o diretor do LIB.
Para os autores, a migração desse modelo tradicional de comando e controle que só cobra e pune para a liderança mentora que desafia, apoia e desenvolve é uma necessidade reconhecida hoje nas companhias, mas que esbarra num histórico de sucesso dos próprios C-levels.
Promovidos ao longo de décadas pela autoridade técnica, capacidade de centralização e velocidade em entregar respostas prontas, muitos CEOs, presidentes e diretores forjaram egos corporativos hoje cristalizados que dificultam a adoção de posturas de humildade, vulnerabilidade, escuta e delegação.
“O desapego a esse poder formal, profundamente hierárquico e enraizado, em prol do desenvolvimento real do outro, exige uma profunda reestruturação da identidade do líder e uma readequação das dinâmicas de trabalho”, explica Oréfice.
Para o ombudsman do Itaú, a velocidade das mudanças atuais exige dos executivos uma readaptação mental sem precedentes, dificultada pela resistência em abandonar velhas fórmulas que deram certo no passado, mas que hoje são riscos à sustentabilidade dos negócios. "É preciso aprender a se reconstruir a cada momento, entendendo que princípios antigos podem não ser mais pertinentes. E isso não é fácil", disse ele.
Nesse cenário, a história ficcional de “Gente Lean” atua como um catalisador de conscientização, permitindo que o executivo se enxergue nos conflitos retratados na obra. "Ao acompanhar os dilemas dos personagens, as lideranças certamente vão se reconhecer. Isso gera uma reflexão mais honesta e menos defensiva do que um livro puramente técnico conseguiria provocar", avalia Gouveia.
Com 267 páginas ilustradas, o livro divide-se em dez capítulos. Cada um combina o enredo ficcional com um guia prático sobre como implementar conceitos como o Gerenciamento Diário (GD), umas das essências do sistema lean, capaz de transformar reuniões burocráticas em espaços ágeis de resolução de problemas, gerando ambientes psicologicamente seguros e combatendo a "cultura do silêncio".
No capítulo dedicado a entender a “cultura organizacional”, por exemplo, o leitor terá um resumo das "Lições Aprendidas", com dicas para se implementar, além de um detalhamento de 13 maneiras sobre como evitar a "cultura do silêncio” e favorecer a abertura para o diálogo.
Para os autores, todo esse conteúdo conceitual e prático pode ajudar executivos a perceberem que transformação cultural não acontece pelo que a liderança comunica, mas pelo ambiente que ela cria todos os dias. "No fundo, o livro faz uma pergunta silenciosa ao leitor: 'as pessoas realmente conseguem crescer ao seu lado?' Essa talvez seja uma das reflexões mais difíceis e mais importantes para qualquer líder", destaca Oréfice.
A própria construção do livro a quatro mãos funcionou como um laboratório prático dos conceitos defendidos pelos autores na obra, demandando mentalidade abertura, generosidade e confiança entre os autores.
Oréfice revela que a parceria com Gouveia se consolidou ao longo de dez anos, tempo em que ambos vêm compartilhando dilemas corporativos e aprofundando o debate sobre a necessidade de centralizar o fator humano. Para o diretor do LIB, a obra, fruto de dois executivos com trajetórias distintas, mas complementares, foi uma fusão real não só de trajetórias, mas de segurança psicológica e respeito mútuo.
"A gente acreditava desde o princípio que a soma das nossas visões seria melhor do que cada uma delas de forma individual", afirma Gouveia, destacando que, até por conta desse processo de criação, a obra se potencializa nessa busca da humanização profunda para impulsionar o aprendizado e a melhoria contínua.
Livro "Gente Lean: um romance empresarial sobre liderança, confiança e conexões humanas"
Autores: Robson Gouveia e Ricardo Oréfice
Editora: Lean Institute Brasil (LIB)
Ano: 2026
Formato: Impresso, 267 páginas
Preço de capa: R$ 108
Onde comprar: Lean Shop
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