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Ricardo Itikawa    |   29/10/2026   |   Lean na Indústria   |  

Além das “ferramentas”: quando o lean não se sustenta

Exclusiva

No cenário industrial contemporâneo, a busca pela eficiência operacional impulsionou milhares de indústrias a adotarem o sistema lean. O ponto de partida costuma ser marcado por entusiasmo, mobilização das equipes e conquistas expressivas de produtividade por meio de kaizen e implementação de ferramentas visuais. No entanto, um fenômeno recorrente intriga gestores em diversos setores: após os primeiros ganhos, os resultados tendem a regredir, o engajamento arrefece e a rotina operacional retoma velhos hábitos.

A análise aprofundada da rotina das plantas industriais revela que o sistema lean não perde força por escassez técnica ou falta de "ferramentas". Na maioria das vezes, o sistema enfraquece quando a liderança deixa de sustentar o sistema de gestão e interrompe o desenvolvimento contínuo das pessoas. A sustentabilidade da melhoria contínua não é uma obrigação que repousa apenas sobre os ombros das equipes operacionais, mas sim um reflexo direto do comportamento corporativo e do compromisso da alta e média gestão em manter viva a cultura organizacional.

Nesse contexto, é preciso entender sete principais fatores que comprometem a perpetuidade do Sistema Lean na indústria:

  • Falta de disciplina na execução das rotinas: isso acontece quando, por exemplo, reuniões de gerenciamento diário, os acompanhamentos de indicadores e os planos de ação perdem frequência ou qualidade. Sem padrões consistentes de gestão, os desvios deixam de ser tratados no momento adequado, e as melhorias não se incorporam ao trabalho cotidiano.
  • Afastamento da liderança: quando, após os primeiros resultados, a liderança reduz sua participação nos eventos kaizen, nas reuniões de acompanhamento e nas atividades como as caminhadas pelo gemba. Outras prioridades passam a ocupar sua agenda, transmitindo, mesmo que involuntariamente, a mensagem de que o sistema lean deixou de ser essencial para o negócio.
  • Liderança orientada apenas aos resultados, e não ao desenvolvimento das pessoas: cobrar metas é necessário, mas insuficiente. O papel da liderança lean inclui orientar, fazer perguntas, oferecer feedback e desenvolver a capacidade das equipes de identificar causas, testar contramedidas e aprender continuamente. Sem mentoria, os problemas continuam dependendo de especialistas ou da intervenção direta dos gestores.
  • Ir ao gemba sem padrão ou propósito claro: visitar o chão de fábrica não significa, por si só, praticar liderança lean. A caminhada pelo gemba precisa ter propósito, frequência e critérios definidos, conectando a observação do trabalho real aos padrões, indicadores, riscos, obstáculos ao fluxo e oportunidades de melhoria. O objetivo não é fiscalizar pessoas, mas compreender processos e remover barreiras.
  • Excesso de iniciativas e falta de foco: tentar resolver muitos problemas simultaneamente dispersa recursos, sobrecarrega as equipes e reduz a capacidade de execução. A liderança precisa priorizar poucos problemas vitais, alinhados aos objetivos estratégicos, garantindo responsáveis, prazos, acompanhamento e conclusão efetiva das ações.
  • GD como um “fórum” de justificativas: quando as reuniões se limitam a explicar desvios, apresentar desculpas ou cobrar resultados, perde-se uma das principais oportunidades de desenvolver solucionadores de problemas. O Gerenciamento Diário (GD) deve tornar os desvios visíveis, estimular a análise estruturada das causas, definir contramedidas e acompanhar sua eficácia.
  • Lean como um conjunto de ferramentas: a aplicação de 5S, Kaizen, trabalho padronizado, gestão visual e outras ferramentas pode gerar melhorias importantes. Entretanto, sem mudanças nos comportamentos, nas decisões e na maneira como as pessoas gerenciam o trabalho, os ganhos tendem a depender de esforços pontuais. Lean é uma jornada de transformação da cultura de gestão, sustentada pela melhoria contínua e pelo respeito às pessoas.

O caminho para a maturidade operacional

Para transitar do status de mero executor de projetos para o de um ecossistema de alta performance, a indústria precisa redefinir suas métricas de sucesso. A verdadeira maturidade do modelo não é mensurada pela quantidade de quadros instalados ou por mutirões de melhoria pontuais, mas sim pela capacidade autônoma do chão de fábrica em reagir prontamente às oscilações da produção diária sem demandar intervenções heroicas da alta administração.


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Trata-se, em última análise, de construir uma resiliência institucional sustentada pela coerência comportamental dos líderes. Quando os executivos compreendem que a liderança no ecossistema lean atua como uma ponte viva entre o planejamento estratégico e a execução no chão de fábrica, a cultura de melhoria contínua deixa de ser uma meta temporária e passa a integrar a identidade operacional definitiva da empresa.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.
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Ricardo Itikawa

Head de Manufatura e Desenvolvimento de Produtos e Processos do Lean Institute Brasil (LIB). Foi corresponsável pelo desenvolvimento do sistema lean na Embraer (Programa Excelência Empresarial Embraer - P3E), atuando como gerente. Especialista em TPM, liderou projetos 3P da nova fábrica de Portugal. Foi Black Belt na Ambev. Atuou como professor durante quatro anos no MBA de Gestão e Eng. da Qualidade da Poli-USP. É Engenheiro Mecânico pela UNESP, tem MBA em Gestão Empresarial pela FGV, Cursos de Pós-Graduação no ITA e é Black Belt em Seis Sigma pela Fundação Christiano Ottoni/UFMG.

Lean na Indústria

Conceitos, práticas e a jornada lean sob a ótica dos heads do Lean Institute Brasil especializados no setor industrial