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  |   18/11/2018   |   Desenvolvimento Humano   |  

Liderar no Mundo VUCA

O mundo de hoje é marcado por transformações cada vez mais velozes e desafiadoras. Ele traz em si as dimensões da volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, que exigem de nós uma adaptação de nossas convicções e competências. Liderar as pessoas efetivamente nesse contexto é um grande diferencial.

O mundo em que vivemos hoje se transforma a cada instante, distanciando-se das referências que aprendemos ao longo da vida e colocando à prova todas as nossas convicções.

As mudanças são velozes em todas as áreas da vida, não apenas no ambiente corporativo. Estratégias que nos eram valiosas no passado recente não surtem efeito algum no presente e também não nos servem de base para projetarmos ações que possam ser uteis no futuro.

Como nos prepararmos para o futuro se em boa parte das vezes não temos certeza nem sobre o que acontece presente?

O volume de informação cresce de maneira exponencial. A previsão dos futurologistas é a de que em 2020, o volume de informações dobre de tamanho a cada 12 horas, ou seja, duas vezes por dia. Esse cenário já exige e vai exigir ainda mais de nós a capacidade de selecionar e analisar corretamente o que nos serve e o que deve ser descartado. Aquele famoso ditado “separar o joio do trigo” nunca foi tão oportuno.

Projetos e inciativas altamente inovadoras surgem todos os dias, em resposta a esse ambiente dinâmico e mutante. Um dos que mais me chamou à atenção foi o Projeto Calico, lançado pelo Google em 2013, com o ambicioso objetivo de solucionar os desafios relacionados ao envelhecimento dos seres humanos e resolver a morte. Isso mesmo: resolver a morte. Para os cientistas altamente qualificados que respondem por esse empreendimento, a morte natural ou por degeneração do nosso corpo é apenas um problema técnico e para os problemas técnicos, sempre existe uma solução. Você já parou para pensar como será o mundo a partir do momento em que as pessoas tiverem uma expectativa de vida significativamente mais longa? Talvez não morrer seja uma escolha que poderemos fazer dentro de poucos anos.  

O tratamento de fobias sociais, como por exemplo o medo de falar em público, e o de quadros de estresse pós-traumático tem apresentado melhores resultados quando conduzidos por psicólogos avatares. Só pra relembrar, um avatar é a manifestação corporal de alguém que ocupa o espaço cibernético, isto é, uma inteligência artificial.

O robô cirurgião, conhecido como Smart Tissue Autonomous Robot (STAR, ou Robô Autônomo de Tecido Inteligente) já apresenta um corte mais preciso do que o de cirurgiões humanos altamente habilidosos e experientes.

O psiquiatra e doutor em psicanálise Augusto Cury, em sua obra Inteligência Socioemocional, traz evidências de que uma criança de 7 anos, hoje em dia, tem mais informação do que um imperador romano na época em que eles dominavam o globo terrestre. Se você tem uma criança em casa, sabe que ele tem razão.

Esse pequeno retrato nos serve de representação do que hoje é conhecido como Mundo VUCA, que nos coloca diante de um novo conceito de normalidade.

O acrônimo VUCA (em inglês) reúne as quatro características do mundo de hoje: volatilidade (volatility), incerteza (uncertainty), complexidade (complexity) e ambiguidade (ambiguity).

Esse termo foi usado pela primeira vez no contexto militar americano, nos anos 90, para a correta adoção de ferramentas e métodos frente a um ambiente extremamente imprevisível, agressivo e desafiador. O que se intensificou ainda mais depois dos atentados terroristas de 2001, que oficializaram o contexto VUCA como o novo “normal”.

Não demorou muito tempo para que o termo fosse incorporado também ao mundo dos negócios, pelo impulso da globalização e da tecnologia da informação, uma vez que traduz precisamente as condições nas quais as empresas precisam planejar, atuar e obter resultados positivos.

As teorias, estratégias e modelos tão amplamente disseminados na era industrial não servem a esse contexto.

O contexto VUCA no obriga a repensar e atualizar nossas competências diariamente, pois quando o ambiente se altera, colocam-se novas demandas frente às nossas capacidades. Michael Gerber diz que “a empresa (a vida) é um lugar onde tudo o que sabemos fazer é posto à prova pelo que não sabemos fazer”.

Desta forma, chegar a um bom entendimento destas quatro características é base para uma atuação bem-sucedida.

Atribui-se o nome volatilidade à natureza dinâmica, volúvel, veloz e efêmera do momento em que vivemos. Tudo muda o tempo todo, de forma rápida e imprevisível. Antes mesmo que possamos processar e internalizar uma mudança, outra já está batendo à nossa porta. Nada parece seguir um padrão previsível.

A experiência da volatilidade normalmente traz resistência, instabilidade e bloqueio de fluxos. Desta forma, as melhores estratégias de atuação envolvem ampliação da visão, adaptações rápidas e precisas, como uma forma de atualizar os planos e os métodos, mesmo com todas as mudanças de cenário. Ensinar as pessoas a enxergarem a mudança como contexto e não como um evento isolado, que uma hora ou outra vai passar. Ajudar as pessoas no combate à resistência, através da provocação para outros pontos de vista, fomentando a flexibilidade, a capacidade adaptativa e a ressignificação de modelos mentais fixos ou limitantes.

A incerteza se manifesta pela falta de previsibilidade sobre o presente. Viver em ambientes onde há alta conectividade entre pessoas, processos e plataformas gera uma relação de dependência e de interações não lineares, que impede o acesso a todas as informações existentes. O futuro então se mostra como um evento emergente, no qual os resultados não podem ser conhecidos antecipadamente.

A experiência da incerteza normalmente traz paralisia na ação e na tomada de decisão devido à sobrecarga de dados. Sendo assim, uma boa estratégia é a de ampliar a compreensão das pessoas, fazendo-as olhar para os eventos através de perspectivas diferentes.

É interessante alterar o modelo mental de “é preciso antever o futuro mais provável e criar boas estratégias para esse contexto” para “desenvolver uma pessoa/equipe/organização que seja capaz de funcionar com diferentes resultados devido ao aumento da incerteza e da diversidade”.

A complexidade se configura quando múltiplos fatores chave influenciam simultaneamente o ambiente e as decisões que precisam ser tomadas. O mundo em si é um sistema interconectado, onde muitas partes são interdependentes. Inúmeras variáveis afetam nosso dia-a-dia, o que por vezes deixa claro que um mundo mais complexo requer soluções mais simples. Basta observar a dificuldade que se estabelece quando decidimos trocar nosso telefone celular ou escolher um novo computador.

Viver em ambientes complexos normalmente traz improdutividade, faz as pessoas adotarem posições divididas e dificulta as ações de controle. Atuar de forma positiva na complexidade significa abandonar os conceitos tradicionais de estratégia e liderança, que atendiam a outras demandas e cenários, para assim adotar ações que aumentem a clareza e estimulem a criatividade das pessoas.

A ambiguidade nos remete à falta de clareza sobre o significado dos eventos, gerando confusão sobre o paradigma de causa e efeito, que por muito tempo nos serviu para explicar os acontecimentos. Muitas vezes, não há uma resposta certa para nossas questões devido a ausência de modelos que possam explicar os fenômenos observados. Tudo é ambíguo e exige de nós a capacidade de estarmos abertos a mais de uma interpretação.

Costumo dizer que, no passado, para se perder um cliente era preciso cometer algum tipo de falha ou descuido no atendimento, na prestação do seu serviço ou na entrega do seu produto. Hoje perde-se um cliente pelo simples fato de ele ficar interessado pelo que o seu concorrente tem a oferecer, mesmo que você esteja oferecendo o melhor dos atendimentos.

Viver em ambientes ambíguos geralmente nos induz à dúvida e à desconfiança. Pode também trazer dificuldade ou negligência na tomada de decisão. Por isso é fundamental ajudar as pessoas a entenderem melhor o contexto onde os eventos acontecem, desenvolver o pensamento sistêmico para enxergar todas as interconexões e obter perspectivas diversificadas.

Ser capaz de se adaptar ao mundo VUCA e estar preparado para as mudanças que ele exigirá são características determinantes para uma boa atuação e para a construção de um futuro mais promissor para pessoas, equipes e empresas. O grande desafio da liderança é, portanto, conseguir deixar vigentes todas as suas competências nesse contexto tão particular.

E não se esquece de esse admirável mundo novo a que chamamos de VUCA é o novo normal!

Um grande abraço e até breve...

As informações e opiniões veiculadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a opinião do Grupo CIMM.
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Samanta Luchini

Mestre em Administração com Foco em Gestão e Inovação Organizacional e Especialista em Gestão de Pessoas pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul - USCS. Psicóloga pela Universidade Metodista de São Paulo. Executive & Life Coach em nível Sênior, com formação internacional pelo ICI (Integrated Coaching Institute) em curso credenciado pela ICF (International Coach Federation). Professora convidada dos programas de pós-graduação da FGV/Strong, Universidade Metodista e Senac, dos programas de MBA da Universidade São Marcos e Unimonte, e dos cursos FGV/Cademp, para a área de Gestão de Pessoas. Professora conteudista do Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos – UNIFEOB. Atua há mais de 19 anos com Gestão de Pessoas em diversas empresas e segmentos, dentre elas Wickbold, Bridgestone, Bombril, Solar Coca-Cola, Porto Seguro, Grupo M. Dias Branco, Prensas Schuler, Arteb, Grupo Mardel, Tegma, Pertech, Sherwin-Williams, Grupo Contax, Grupo Libra, Grupo Sigla, Unilever, Engecorps, Nitro Química, Grupo Byogene, Netfarma, NTN do Brasil e Toyota. Em sua trajetória profissional e acadêmica, já desenvolveu mais de 17.500 pessoas, com uma média de avaliação superior a nota 9,0 em todos seus treinamentos. Palestrante, consultora de empresas e autora de diversos artigos acadêmicos publicados em congressos e revistas. Colunista da revista Manufatura em Foco – www.manufaturaemfoco.com.br


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