Falta de tecnologia limita indústria naval

Política industrial precisa reconhecer fragilidade dos mecanismos de financiamento a fornecedores, alerta estudo do Ipea


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Em dez anos, o número de empregos cresceu vinte e cinco vezes nos estaleiros. O cenário de poucas encomendas de navios e nenhuma plataforma produzida no País no final da década passada deu lugar a uma carteira de centenas de embarcações e unidades flutuantes para o setor naval. Mesmo após retomada, porém, o segmento ainda deixa a desejar em pesquisa e tecnologia - uma questão apontada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) como limitador de fornecimento para a exploração das enormes jazidas do pré-sal.

No estudo “O Poder de Compra da Petrobras: Impactos Econômicos nos seus Fornecedores”, o Ipea mostra que o desafio tecnológico maior está nas empresas fornecedoras dos estaleiros. Faltam, segundo o mapeamento, incentivos e financiamento para esses fabricantes de pequeno porte. “É necessário que a política industrial de exploração das reservas petrolíferas do pré-sal reconheça que há uma fragilidade especialmente relevante nos mecanismos de financiamento às atividades de pesquisa e desenvolvimento e na articulação universidade-empresa”, alerta o Ipea.

“As inovações de produto concentram-se nas navipeças que são na maioria empresas de pequeno porte com pouco esforço para realizar inovação. Os gastos em Pesquisa e Desenvolvimento, como proporção da receita líquida de vendas das empresas, são praticamente inexpressivos”, assinala.

Navio em construçãoCom exemplos de Japão e Coreia, o Ipea destaca que todos os países que se tornaram líderes na produção naval possuem centros de pesquisa e laboratórios especialmente montados para atender à produção naval. “A competitividade do Japão deve-se ao elevadíssimo padrão de tecnologia. Estes fatores tornam viável a disponibilidade dos maiores e mais modernos estaleiros do mundo na Coreia do sul. O Japão é o país com as mais altas taxas de produtividade. Alguns países europeus também apresentaram elevada produtividade, mas, na média estão aquém da Coreia do sul”.

Nas primeiras etapas da produção industrial naval, diz o Ipea, as empresas brasileiras têm forte dependência da importação de partes peças e componentes dentro dos pacotes tecnológicos vindos do exterior. “Compras de pacotes tecnológicos têm que vir associados à transferência de tecnologia e capacitação de empresas brasileiras (inclusive à formação de joint ventures). Este círculo de dependência pode ser quebrado somente evolução da dotação das firmas e criação de capacidades n engenharia local”.

Neste processo, avalia o instituto de pesquisa, “a Petrobras pode ter um papel relevante na construção destas capacitações, inclusive utilizando suas capacitações em engenharia”.

“A escala de produção e a desarticulação da rede de fornecedores sempre serão os grandes desafios da produção naval no Brasil. O custo de entrada associado ao desenvolvimento, realização de ensaios e certificação também são especialmente relevantes”.

A carteira de projetos para o setor em 2009 e 2010, segundo o Ipea, inclui a encomenda de 132 unidades navios de grande porte, 12 plataformas de produção de petróleo em construção - além da previsão de 45 plataformas para atender à demanda do pré-sal, nos próximos anos. “Considerando-se que cada plataforma necessita de dois navios de apoio, isso implicaria a construção de mais 90 navios de apoio, além dos 146 já encomendados e vinculados à cadeia produtiva do petróleo no Brasil”. Além disso, o setor conta a maior licitação da história da estatal, de 28 sondas de perfuração.

Quanto ao fornecimento de aço,  o Ipea avalia que a indústria nacional tem capacidade para acompanhar a expansão do setor naval. As importações brasileiras de produtos siderúrgicos aumentaram de Us$ 515 milhões em 2002 para Us$ 2,1 bilhões em 2007 e Us$ 4,0 bilhões em 2008, regredindo para Us$ 2,8 bilhões em 2009.

A capacidade instalada brasileira de chapas grossas está sendo ampliada dos atuais 2,0 para 3,5 milhões de toneladas em 2012. O acréscimo da capacidade (1,5 milhão de toneladas) é mais do que suficiente, segundo o Ipea, para atender a toda a demanda derivada da indústria de petróleo e gás natural (693 mil toneladas) no período 2009-2020. “As importações de chapas grossas, visando à produção de naviosencomendados pela Transpetro vêm aumentando desde 2008, por questões meramente comerciais (preços) e não em função de alguma falta de oferta doméstica (seja em termos quantitativos, seja qualitativos)”.

Em 2000, havia cerca de 2 mil trabalhadores nos estaleiros brasileiros. Em 2006, os estaleiros brasileiros já empregavam mais de 20 mil trabalhadores. Neste ano, a indústria estima um total de 50 mil trabalhadores.

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