O primeiro milhão antes dos 30


Aos 12 anos, o garoto Marcos Molina começou a trabalhar no açougue do pai, em Mogi-Guaçu, interior de São Paulo, como uma espécie de faz-tudo. Carregava carne nos ombros, atendia os clientes no balcão e, de vez em quando, ficava no caixa. Durante quatro anos, ele permaneceu ao lado do pai entendendo como os clientes se comportavam e o que eles queriam, até que pediu para ser emancipado. Aos 16, Molina abriu uma empresa para atender o comércio local e entregar carnes em churrascarias. Era jovem, mas agia como adulto ao lidar com fornecedores e clientes.

Isso foi crucial no negócio e fez com que a pequena empresa se tornasse grande antes mesmo dele completar 30 anos de idade. Com um frigorífico arrendado em Bataguassu, em Mato Grosso do Sul, Molina passou a fornecer cortes especiais para as principais churrascarias e restaurantes da capital paulista. O segredo foi padronizar os cortes e a qualidade, com a aquisição de animais jovens, com carnes macias. Daí, não parou mais e, aos poucos, foi adquirindo outros frigoríficos no Brasil e ao redor do mundo. Hoje, sua empresa, o frigorífico Marfrig, possui presença em nove países, é um dos maiores fornecedores de carne do mundo, abate mais de 21 mil cabeças de gado por dia, deverá fechar 2008 com faturamento de R$ 6,5 bilhões por ano e, até o dia 20 de novembro, possuía um valor de mercado de R$ 2,1 bilhões.

Apesar da taxa de empreendedorismo entre os jovens ser alta, são raros os casos de sucesso. “Os jovens que conseguem atingir esse patamar estão acima da curva tanto no Brasil como em qualquer outro país”, explica Simara Grego, coordenadora da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor no Brasil. A pesquisa, que é realizada no País desde 2001, avalia o nível de empreendedorismo dos brasileiros e também faz comparações com outros 42 países. O estudo revela que 20% dos novos negócios que surgem no Brasil são de jovens entre 18 anos e 24 anos de idade. “Uma das principais características que o jovem empreendedor deve ter é a capacidade de perceber oportunidades”, diz Simara. Isso foi fundamental para o sucesso do empresário Ricardo Tavares, dono da agência de eventos Mill Publicitá. Aos 19 anos, ele recebia uma mesada de R$ 100 dos pais, quando um amigo o chamou para fazer promoção de uma casa que tocava pagode. “Ganhei R$ 100 em uma noite e percebi que poderia ganhar mais”, explica.

Ao contrário dos jovens que levavam aquilo como curtição, ele encarou como um trabalho até ser chamado para ajudar na promoção da Colúmbia, uma boate nos Jardins, em São Paulo. “Fazia de tudo, ajudava na promoção, na administração e organizava festas de faculdade.” Aos poucos foi construindo uma rede de relacionamentos com os membros das atléticas (entidades das universidades que desenvolvem competições esportivas e festas entre os estudantes) e resolveu partir para a carreira solo aos 21 anos de idade. “Montei uma empresa de eventos e comecei a fazer festas para mais de oito mil pessoas”, diz. O pulo do gato, entretanto, aconteceu quando a rádio 89 FM, de São Paulo, ia fazer o aniversário de 14 anos. Tavares, que conhecia o dono da emissora, pediu para organizar a festa. “Foi um grande desafio, mas fizemos o evento com shows de 22 bandas, como Titãs e Paralamas do Sucesso.” Depois, ficou à frente do show de 1o de maio, da Força Sindical, festa para 1,5 milhão de pessoas e hoje faz apenas eventos corporativos com clientes como Vivo, Gerdau, Petrobrás. Antes dos 30 anos, sua empresa já faturava R$ 10 milhões. Atualmente, o grupo, que ainda inclui uma agência de promoção chamada Red Action, uma empresa de comunicação batizada de Essenza, participação acionária na companhia de turismo MXM, que possui mais de 100 funcionários, fatura cerca de R$ 38 milhões. “Um dos grandes segredos foi me cercar de uma excelente equipe”, diz Tavares.

A maioria dos jovens empreendedores sofre no começo, tropeça em algumas de suas decisões, mas conta com faro aguçado e se cerca de gente talentosa para dar conselhos nos momentos decisivos de suas carreiras. Para ajudar essa turma que iniciou o negócio bem cedo, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) conta com um Comitê de Jovens Empreendedores. Além de se reunirem com freqüência, eles assistem a palestras mensais com grandes nomes do capitalismo brasileiro. “Eles se abrem com a gente e contam sobre suas vitórias e derrotas”, diz Sylvio Gomide, coordenador do Comitê. “Já assistimos a palestras de empresários como Walter Torre, da WTorre, Benjamin Steinbruch, da CSN, e do André Esteves, que vendeu o Pactual e agora vai montar um banco.”

Esteves, considerado um gênio das finanças, ficou notório aos 37 anos, quando vendeu sua participação no banco Pactual para o suíço UBS por mais de US$ 1 bilhão. Há, contudo, um jovem das finanças que antes mesmo de completar 30 anos já era conhecido no mercado financeiro. Trata-se de José Carlos Reis de Magalhães, o rapaz que comanda a Tarpon, uma gestora de recursos com R$ 2,6 bilhões próprios e de terceiros. Considerado um jovem prodígio, Zeca, como é chamado, começou a trabalhar aos 17 anos, passou pela GP Investimentos, banco Patrimônio, JP Morgan Chase até chegar ao grupo Semco, em que dirigia a Semco Ventures, incubadora de novos negócios do conglomerado. Mas, aos 24 anos, enxergou uma grande oportunidade no mercado de capitais que começava a amadurecer no País. Bateu à porta de Ricardo Semler, o dono do grupo Semco, e lhe propôs montar um fundo de investimentos. Semler, que via no rapaz um grande talento, topou. Assim nasceu a Tarpon, que investe principalmente em ações de empresas que estão em baixa visando o longo prazo, assim como faz o megainvestidor americano Warren Buffett.

Zeca tem uma audácia inversamente proporcional à sua idade. Em 2005, quando ainda tinha 27 anos, entrou na disputa com a Arcelor, uma das maiores siderúrgicas do mundo, pela compra da brasileira Acesita. Na época, Zeca perdeu a batalha, mas deixou sua marca. O grupo hoje investe em papéis de companhias como Pão de Açúcar, Porto Seguro, Comgás, Gerdau, Arezzo, Brenco, BrasilAgro, entre outras. Mas Zeca não faz tudo sozinho. Além de seus sócios, todos jovens, ele tem como conselheiro o tio, Luiz Alves Paes de Barros, investidor conhecido por tacadas certeiras e que chegou a ser o maior investidor individual do banco Real, com 5% das ações, antes de a instituição ser vendida ao holandês ABN Amro Bank em 2001.

Para esses jovens, não basta fazer o primeiro milhão, é preciso multiplicá-lo. Eike Batista, por exemplo, tinha um patrimônio de R$ 6 milhões aos 25 anos de idade. Hoje, aos 51, é o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna que já chegou a US$ 16 bilhões e que, após a crise financeira, foi reduzida em US$ 10 bilhões. “Deixei de ser um homem de US$ 16 bilhões para ser um homem de US$ 6 bilhões”, disse Eike em recente entrevista ao jornal Valor Econômico. “Mas isso não mudou muita coisa na minha vida. Continuo comendo meu mamãozinho no café da manhã e ninguém me tirou a capacidade de produzir riquezas”, completou. Para alcançar esse patamar, Eike costuma dizer que se cercou dos melhores executivos disponíveis no mercado. Até quem não é um Eike Batista sabe da importância disso. O jovem Thiago Mansur, de 26 anos, que o diga. Ele era modelo fotográfico e de passarela e morou fora do País desfilando por grifes como Armani, Gucci e Calvin Klein.

“Juntei dinheiro com a moda e me estabilizei”, diz Mansur. “Esse dinheiro, contudo, não podia ficar parado.” Em 2003, ele abriu a boate Nasty, em São Paulo, em sociedade com alguns amigos e vendeu sua participação em 2005. Tempos depois, se associou a um grupo de empresários e acaba de inaugurar um bufê para eventos e casamentos chamado Espaço Wynn, localizado no prédio WTC na Marginal do rio Pinheiros. “Investimos R$ 4,5 milhões”, conta ele. Paralelo a isso, Mansur vai abrir, também em sociedade, uma filial da boate americana Pink Elephant, em São Paulo. “Só me associo com gente que entende do negócio. Não posso me dar ao luxo de arriscar e perder dinheiro”, diz ele.

Os riscos envolvidos em um novo negócio são grandes. Não basta uma boa idéia, o empreendedor depende de uma série de variáveis, como o ambiente econômico, o desempenho do setor e a legislação. Também é necessário ter capital, mesmo que seja pequeno, para iniciar o negócio. Justamente por isso a internet, que demanda pouco investimento, tornou-se um terterreno fértil para o surgimento de milionários ou até bilionários. Um dos mais famosos é o americano Mark Zuckerberg, de apenas 23 anos, criador do site de relacionamentos Facebook. Zuckerberg, que estudava em Harvard, decidiu criar uma rede de relacionamentos da universidade e pediu permissão para a direção da tradicional instituição. Pedido negado. Como um hacker, entrou no banco de dados de Harvard e pegou as informações que precisava. Ao ser descoberto, pediu desculpas, mas manteve o site no ar. Em apenas quatro horas, recebeu 450 visitantes. Foi a senha para largar Harvard, mudar-se para a Califórnia e dedicarse ao Facebook. No início de 2007, com apenas 22 anos e dono de um site com mais de 20 milhões de usuários, ele foi chamado de louco. O Yahoo bateu à sua porta com uma oferta de US$ 1 bilhão pela empresa. Isso mesmo! Um bilhão de dólares. Zuckerberg, o garotão que ainda usa chinelo, disse não.

Meses depois, quem o havia chamado de louco, mudaria de opinião radicalmente e passaria a venerá-lo como um gênio. Motivo: em outubro do mesmo ano, ele vendeu 1,6% do capital da empresa à Microsoft por US$ 240 milhões. Saiu com dinheiro no bolso, dono da maior parte da companhia e com uma fortuna estimada em US$ 1,5 bilhão. A história de sucesso do garotão que nasceu no condado de Dobbys Ferry, no Estado de Nova York, chamou tanto a atenção do público que a SonyPictures encomendou um filme sobre a sua vida.

A rigor, casos como o do Facebook mostram como não há limites para empreender e que sempre existem oportunidades, mesmo que as pessoas achem que tudo já foi inventado. A própria internet é prova disso. Se na década de 90 jovens como Larry Page e Sergey Brin, do Google, e Jerry Yang e David Filo, do Yahoo, escreveram história ao fazer fortuna precocemente, nos últimos anos, uma nova geração reescreveu a história da web. Quer exemplos? Steve Chen, aos 27 anos, e Chad Hurley, aos 29 anos, venderam o YouTube, site de compartilhamento de vídeos, ao Google por US$ 1,6 bilhão. Matt Mullenweg, hoje aos 24 anos, fundou o WordPress, serviço de hospedagem e criação de blogs, que fatura cerca de US$ 60 milhões ao ano. Max Levchin, aos 27 anos, vendeu o PayPal, serviço de pagamento online, ao eBay por US$ 1,5 bilhão. Mais do que um serviço diferenciado, esses jovens conseguiram surpreender os usuários da internet e arrebataram milhões de seguidores em todo o mundo. Ou seja, não importa o segmento de atuação, o mantra é o mesmo em qualquer setor. “Entenda os seus clientes e como você pode satisfazer suas necessidades da forma mais integrada”, diz Molina, do Marfrig. “Um negócio só dá certo se você superar as expectativas deles.”

Empreendedorismo na sala de aula

Estudiosos que analisam o comportamento do empreendedor costumam listar características marcantes nas pessoas que se aventuram e iniciam um novo negócio: nunca se acomodar em uma posição de conforto; buscar desafios constantemente; enxergar oportunidades até em momentos de crise; saber analisar o ambiente no qual está inserido; ter sede de informações; pôr a mão na massa e construir uma boa rede de relacionamentos. Diante de tantas variáveis, cabe uma indagação: é possível aprender a ser empreendedor na escola? Desde 2007, um colégio paulistano tenta ajudar seus alunos a descobrir suas capacidades empreendedoras. É a Escola Internacional de Alphaville, na cidade de Barueri, São Paulo, a primeira no País a ministrar aulas de empreendedorismo para alunos do ensino médio. “Mas não falamos apenas de negócios”, diz Ricardo Chioccarello, diretor da escola, cuja mensalidade é de R$ 2,09 mil. “Ensinamos o empreendedorismo voltado para a vida dos alunos como pautar as decisões baseadas em princípios e valores.” Além das aulas semanais, com módulos de economia, finanças e direito, os estudantes assistem a palestras com grandes executivos. Já passaram por lá profissionais como Michel Levy, o presidente da Microsoft. No último ano, eles criam um projeto de um negócio sustentável.

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