Alguém duvida da desindustrialização brasileira?


A elevação da taxa Selic para 13% ao ano revela a crença cega dos gestores da política monetária numa receita perversa para conter a inflação. Há muito tempo esta estratégia se mostra um remédio amargo para o Brasil. Trava o crescimento do País e faz com que se repitam ciclos de "stop and go" na nossa economia.

É preciso rever o modelo mental dominante para destravar o desenvolvimento brasileiro. É vital mudarmos a âncora monetária baseada no juro e no câmbio. Em tempos de inflação globalizada, o único instrumento eficaz que resta para conter a alta de preços é assumir o imperativo de um grande esforço fiscal para zerar o déficit nominal. Falta, portanto, encarar corajosamente o desafio de reduzir as despesas do governo.

O resultado da equação de juros altos e dólar baixo é o engessamento da atividade econômica. Nenhum país cresceu nestas condições. A taxa de juro inviabiliza investimentos e consumo. A moeda supervalorizada favorece a importação e amplia a desindustrialização, por mais que se tente, reiteradamente, negar este fato.

A desindustrialização é um processo de longo prazo. Não se revela a partir de diagnósticos de curtos períodos. Não é porque a indústria opera a plenos pulmões, impulsionada por uma demanda doméstica reprimida por anos, que devemos ignorar o fenômeno. Dados do próprio governo indicam a perda de participação da indústria na formação do PIB.

Desde o final dos anos 80, a contribuição do setor para a geração de riquezas no País caiu de mais de 47% para cerca de 25%. O mesmo pode-se dizer do emprego na indústria de transformação, que absorvia 16% de toda a população ocupada em 1986 e que hoje está abaixo de 14%, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e PNAD.

Situação assim costuma se verificar em economias maduras, onde empregos na indústria são substituídos por postos de trabalho em serviços de maior valor agregado. Diferentemente disto, o Brasil tem convivido com desemprego elevado e não se tem notícia de expansão vigorosa de serviços de maior valor agregado.

Sabidamente, o dinamismo industrial de uma nação reside na sua capacidade de produzir e exportar produtos de alta tecnologia. No entanto, nós temos sistematicamente perdido participação na exportação destes itens. Este é um dos principais fatores responsáveis pelo déficit na nossa balança comercial.

Ademais, o número de empresas exportadoras cai a cada dia. A participação dos manufaturados na pauta exportadora deverá ficar abaixo de 50% ainda neste ano, fato que não se via há 20 anos. Há também risco concreto de déficit comercial em 2009.

Manifestações laudatórias deveriam ser substituídas por programas práticos de elevação da competitividade empresarial. Programas para encorajar e auxiliar empresas que desejam inovar; para ampliar a capacitação profissional fora e dentro das empresas; para modernizar os sistemas de gestão; para integrar avanços tecnológicos gerados pela pesquisa acadêmica ao processo produtivo. Em suma, ações que promovam uma efetiva elevação de nossa capacidade competitiva em escala global.

O governo é testemunha da permanente disposição dos empresários ao diálogo e do nosso incondicional apoio a todas as ações concretas para superar a estagnação relativa em que vivemos há quase três décadas. Reconhecemos ter havido avanços importantes nos últimos anos. Mas temos, sim, indicações contundentes da necessidade de redobrar nossos esforços para evitar o agravamento da desindustrialização no Brasil. Não temos o direito de tapar o sol com a peneira.

Precisamos convergir para uma urgente e necessária revisão do modelo atual. Não é mais possível manter como prioridade máxima do Estado a geração de recursos para pagamento de juros a taxas claramente nocivas à atividade produtiva e que concorrem para manter nossa moeda sobrevalorizada.

A permanecer esta situação, continuaremos a conduzir o país de apagão a apagão, tentando adivinhar qual será o próximo. Um dia poderá haver o apagão da esperança dos heróicos empreendedores brasileiros que ainda insistem em apostar na atividade empresarial produtiva neste país singular.

*Rodrigo da Rocha Loures: Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e presidente do Conselho de Política Industrial da CNI.
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