Logogrupocimm-fundoescuro

Complexo industrial de reciclagem mecanizada inédito no país inicia operações em SC

Estrutura teve aporte do BNDES, do BID Invest e de gestora fundada pelo ex-vice-presidente americano Al Gore

Com capacidade de processar cerca de 800 toneladas de resíduos urbanos por dia, a primeira planta de um complexo industrial de reciclagem mecanizada com tecnologia inédita no país iniciou a operação em Brusque (SC). O projeto contou com participação da BNDESPAR, braço de participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que aprovou o aporte de R$ 117 milhões no Fundo Good Karma, da Gestora Just Climate, fundada pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, que destinou R$ 65 milhões à empresa Ciclare, responsável pelo projeto da fábrica, e que também contou com financiamento de R$ 116 milhões do BID Invest.

A Unidade de Triagem Mecanizada (UTM) faz parte do projeto que introduz tecnologia de ponta e escala industrial para a reciclagem no país, por meio de seleção mecanizada, incluindo sistemas ópticos e magnéticos combinados com processos mecânicos capazes de identificar e separar materiais com alta precisão. Esse modelo permite recuperar recicláveis diretamente do lixo comum residencial, o que amplia a oferta de materiais para a cadeia produtiva sem competir com a coleta seletiva ou com o trabalho de organizações de catadores. 

Além do ganho ambiental, a operação tem impacto direto na redução de emissões. A expectativa é evitar cerca de 33 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano, ao mesmo tempo em que contribui para prolongar a vida útil de aterros sanitários e reduzir a demanda por recursos naturais.

A iniciativa abre caminho para uma triagem mais eficiente dos resíduos a partir de uma tecnologia de ponta já consolidada na Europa e nos Estados Unidos. A planta será do tipo Materials Recovery Facility (MRF), um sistema inédito no Brasil.


Continua depois da publicidade


"Construir um modelo mais eficiente de reciclagem e recuperação de resíduos faz parte de um dos temas estratégicos do BNDES, que valoriza a economia circular e promove cidades mais sustentáveis. O Brasil precisa consolidar um caminho para a destinação correta do lixo, com mais tecnologia e valorização das cooperativas e trabalhadores da reciclagem, gerando mais renda", afirma o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O índice de reciclagem no Brasil ainda é baixo quando comparado com países desenvolvidos. Atualmente, apenas 8,7% dos mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos gerados todo ano são reciclados. Essa taxa chega a cerca de 27% no Reino Unido, 35% nos Estados Unidos e 48% na Alemanha.

Economia circular

“É uma tecnologia que não existe no Brasil. Nos dispusemos a enfrentar uma realidade à qual é muito difícil se acostumar: a de não ter tratamento adequado de resíduos e conviver com a cultura de lixões e aterros que não se alinham às melhores práticas do mundo”, diz Eduardo Mufarej, co-CIO da Just Climate, controladora da operação.

A Ciclare estima destinar, em média, 25% dos resíduos - principalmente alumínio, materiais ferrosos e plásticos - a clientes industriais, por meio de contratos de longo prazo para reaproveitamento em suas cadeias produtivas.

Os resíduos orgânicos serão encaminhados ao aterro sanitário operado pela Veolia, parceira da Ciclare. Como parte da estratégia de eficiência energética e sustentabilidade do projeto, o biogás gerado no aterro será aproveitado para alimentar geradores de energia elétrica, com capacidade de cerca de 1 MW, contribuindo para o suprimento energético da planta de reciclagem.

Trata-se de projeto de grande relevância para a cadeia de reciclagem no Brasil, com potencial de replicação e impacto significativo na redução de resíduos destinados a aterros. Também está alinhado à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), marco legal que estabelece as diretrizes para a mitigação dos impactos ambientais e sociais decorrentes do descarte inadequado de resíduos, incentivando a recuperação de materiais e energia.