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Demanda e expansão tecnológica fomentam investimentos do setor metalmecânico em Joinville

Projeções de aporte para Santa Catarina ultrapassam R$ 500 milhões, com destaque à expansão de indústrias sediadas na cidade polo industrial do estado.


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Acumulando os maiores indicadores de tração da indústria catarinense ao longo do ano, o setor metalmecânico também tem mantido aquecido o ritmo de investimentos em Santa Catarina, com destaque para Joinville. Polo do segmento, a maior cidade do estado já soma, apenas em 2021, projeções de aporte que extrapolam os R$ 500 milhões, a maioria vinculado à transformação industrial de metais, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina.

Expansão tecnológica e ampliação da capacidade produtiva – de olho em uma demanda latente, intimidada pela pandemia – movimentam os investimentos. Mesmo com os efeitos da crise ainda muito evidentes, a cidade vê sair do papel projetos de expansão de malha industrial diretamente ligados a um cenário mais otimista de geração de empregos. 

Em Santa Catarina, o protagonismo da indústria nos indicadores de ocupação formal foi verificado em quatro dos nove meses deste ano já avaliados pelo Ministério do Trabalho e Previdência, por meio do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em Joinville, nos três primeiros trimestres do ano, em janeiro, março, junho e julho as contratações na indústria superaram os demais setores.

A força do trabalho industrial catarinense confirma-se ainda em números o próprio segmento. Comparação realizada pelo Observatórios Fiesc com base em dados da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a agosto, mostra Santa Catarina como o estado onde a indústria mais cresceu no acumulado de 2021, com crescimento de 20,5% em comparação com o mesmo período do ano passado. Em comparação equivalente, a média nacional ficou em 9,2%.


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O setor metalmecânico, que tem Joinville como um de seus principais polos de referência do país, sai na frente. Nas plantas catarinenses, a produção metalúrgica saltou 69,8% no acumulado do ano, seguida de outros eixos da indústria de transformação ligados à atividade metalmecânica, como a produção de veículos (54,8%) e de máquinas e equipamentos (45,4%). Na metalurgia, em específico, o Observatório Fiesc associa o desempenho acelerado ao estímulo injetado no setor da construção, que tem movimentado significativamente a economia brasileira no último biênio. 

Os indicadores resumem uma conjuntura favorável da indústria após meses seguidos de recuo. Em Joinville, contudo, os números não estão ligados apenas a uma dinâmica voltada para a retomada do fôlego pré-pandemia, mas também a uma estrutura de investimentos e projeções de aportes que resguardam a posição de destaque do município na economia do estado e do país, mesmo quando muitos polos e segmentos ainda tentam driblar os resquícios da crise. 

Indústrias em Joinville ampliam ritmo de produção

De olho fixo na demanda, pelo menos seis empresas de projeção internacional sediadas no município e região anunciaram, desde o início do ano, aplicação extra de capital para reforçar a oferta de recursos tecnológicos e ampliar ritmo de produção, tanto por meio de novas contratações como pela expansão de suas plantas. Além dos grupos Krona e Tigre, do setor de plástico, que, somadas, comunicaram a intenção de investir somente em 2021 até R$ 360 milhões, o ano também foi de boas perspectivas de ampliação produtiva para a Schulz, umas das maiores fabricantes de compressores de ar da América Latina, Ciser, Whirpool e Nidec, detentora da marca Embraco. 

A Whirpool, fabricante de marcas como Brastemp e Consul, anunciou, em julho, mais de R$ 240 milhões em investimentos no Brasil, sendo a maior parte dos recursos para ampliação e modernização das fábricas de Rio Claro, em São Paulo, e em Joinville. A empresa não abriu os valores a serem empregados especificamente para o município catarinense, mas afirmou ser um montante adicional, ou seja, além dos recursos investidos ordinariamente, por ano, em inovação e desenvolvimento de produtos. 

Já a Schulz, empresa nacional e uma das maiores fabricantes de compressores de ar da América Latina, separou para o decorrer do ano mais de R$ 150 milhões destinados à ampliação do portfólio de produtos e da capacidade de produção de peças e equipamentos. Em março, um ano após o início da pandemia, deu outro salto com a inauguração de seu novo laboratório de pesquisa e análise de dados de compressores. Parte da política de inovação da companhia, o ambiente foi pensado para funcionar também como um espaço de atividades em parcerias com universidades da região. 

A Ciser, por sua vez, que se projeta internacionalmente na fabricação de fixadores, também previu crescimento de 20% no ano com o consequente aumento de seu quadro de trabalhadores. 

Mesmo acumulando indicadores negativos em boa parte de 2021, a performance da indústria catarinense jogou evidência para o setor metalmecânico, que caminhou aceleradamente diante do contexto. A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável de Santa Catarina aponta a confiança como o principal motor dos investimentos no setor ao longo deste ano. 

“Os investimentos demonstram a confiança no Estado que, mesmo durante a pandemia, mantém índices econômicos acima da média nacional. Isto não é resultado apenas do governo, mas sim de um trabalho em conjunto e integrado com o setor produtivo, sociedade civil e universidades”, respondeu ao CIMM o secretário Luciano Buligon. “Um dos motivos do interesse em Joinville é a liberação de verba para melhorias de infraestrutura na malha viária. Além disso, outro fator é a confiança dos investidores na economia diferenciada do Estado como um todo, no trabalho dos catarinenses e do governo parceiro dos empreendedores”, afirma.

Caso Nidec

Na prática, a conjuntura econômica também fala. A performance positiva da Nidec Global Appliance, ex-Embraco, está muito atrelada ao perfil de consumo desenhado com a pandemia, por exemplo. Referência na produção de compressores e considerada a maior fabricante de motores do mundo, a companhia sentiu favoravelmente a nova dinâmica nos lares brasileiros. Com mais pessoas mais tempo em suas casas, tornou-se cada vez mais rotineira a reavaliação dos eletrodomésticos para modelos maiores ou mais novos – o que exigiu mais da rotina produtiva industrial. 

“Nacionalmente, sentimos esse crescimento nas vendas exatamente por atuarmos diretamente neste mercado, fornecendo compressores para refrigeração residencial e comercial, já que mais pessoas em casa significa maior consumo de alimentos frescos, aumentando também a demanda por refrigeração no setor de varejo de alimentos, como supermercados e lojas de conveniência”, explica Emerson Zappone, vice-presidente de operações da Nidec na América Latina. 

Apesar do impulso do mercado, a empresa pondera que tem o Brasil como um dos principais mercados de aposta nas últimas cinco décadas. Esse projeto levou a companhia a decidir aumentar os índices de capacidade produtiva de suas três fábricas em Santa Catarina, nas quais já foram investidos mais de R$ 200 milhões desde 2019. 

Somente em 2021 foram R$ 100 milhões, valor aplicado em dois importantes investimentos, sendo um deles a nova linha de compressores da unidade de Joinville, que começou a operar no dia 23 de agosto. Com o total investido, foram gerados 250 novos empregos e um aumento da capacidade total de produção de 17 para 20 milhões de compressores por ano.

Segundo informou a empresa, a linha será dedicada à fabricação de compressores da família EM, que atendem aos mercados de refrigeração residencial e comercial leve, em praticamente todos os continentes, mas especialmente no Brasil e na América Latina. Também serão produzidas as últimas gerações da família EM, produtos de alta capacidade de refrigeração e com vasta abrangência de eficiência energética, também vendidas na Europa e nos Estados Unidos. 

Além disso, em Itaiópolis, no Planalto Norte de Santa Catarina, a Nidec prevê começar a produzir em breve uma nova linha de fabricação para unidades condensadoras e seladas e de componentes internos. A ampliação da capacidade produtiva será de 25%, gerando cerca de 120 novos empregos diretos, em processos sempre alinhados ao conceito da Indústria 4.0, que já fazem parte do processo de transformação digital da companhia há alguns anos. 

Ainda que o nicho de produção da Nidec tenha ganhado impulso com as restrições da pandemia, a empresa admite também a importância de fatores estruturais para diminuir os impactos do setor. Conforme o vice-presidente, o conjunto de elementos essenciais à indústria do qual dispõe Joinville ajudou nesse sentido.  

“Para nós, estar em Joinville há 50 anos é um privilégio por diferentes fatores, a começar por sua localização estratégica em termos logísticos, somada a presença de outras importantes indústrias que, assim como a gente, entendem sua importância de não somente gerar empregos e renda, mas atuar de modo a gerar valor para o entorno”, ressalta Zappone. 

“Além disso, merece destaque também o fato de termos instituições de ensino renomadas no estado, o que viabiliza e fomenta um ambiente de inovação e alto grau de profissionalismo. Em tempos desafiadores como este, faz toda a diferença estar em um ambiente em que haja infraestrutura, as pessoas certas atuando internamente combinada a uma cadeia de parceiros externos que seja robusta, confiável e apta a atender com qualidade. Por encontrarmos todos esses aspectos em Joinville, mesmo em meio a pandemia, estamos investindo para expandir a capacidade produtiva de nossas unidades”, adiciona.

Infraestrutura

Os indicadores acima da média têm destacado o papel da metalurgia no ritmo de retomada de produção do Brasil. Resultados mais recentes do Índice de Confiança do Empresário Industrial, levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra o setor como o mais confiante de 30 analisados no mês de outubro. 

No apanhado total, no entanto, o otimismo caiu na maioria deles na comparação entre outubro e setembro: em 22 dos 30. Para o governo de Santa Catarina, “muito provavelmente a normalização ainda deve demorar”, visto que o país ainda enfrenta o desequilíbrio nas relações de oferta e procura nos vários segmentos econômicos, como por exemplo, falta de insumos e componentes essenciais. Mas as perspectivas para o setor metalmecânico já se afinam com o que esperam os empresários. 

“A indústria metalúrgica teve forte impacto no início da pandemia, mas já vem apresentando um crescimento expressivo. Santa Catarina é um estado competitivo e Joinville é uma das cidades com melhor infraestrutura na atração de empresas, com um ambiente de negócios atrativo e competitivo. Por isso Joinville vem se destacando acima da média estadual, é o que mostram os bons índices de segurança pública, inovação e sustentabilidade. Aspectos estruturais do nível de competitividade de Joinville e que fazem a cidade se destacar”, apontou o secretário Buligon. 

No âmbito do estado, o governo destacou ações específicas planejadas para amortecer o choque da pandemia, como a criação do Plano de Enfrentamento e Recuperação Econômica, desenvolvido pela Comissão de Desenvolvimento Econômico (CDE) para auxiliar na recuperação dos setores produtivos, e o Invest SC, Programa para Atração de Investimentos e Incentivos a Novos Negócios para o Estado de Santa Catarina, criado em fevereiro de 2021 junto a representantes dos setores público e privado. 

Para Joinville foram prometidas melhorias nas condições da Serra Dona Francisca, importante ligação da cidade com o interior do estado, e o início da construção do elevado no eixo industrial (rua Hans Dieter Schmidt e avenida Edgar Nelsom Meister) sobre a rua Dona Francisca, um alívio maior para a logística das companhias. 




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