EUA: O Nobel não fabrica presidentes

Fonte: Envolverde - 15/10/07

O grupo http://www.draftgore.com comprou uma página inteira do jornal The New York Times para estimular a candidatura do ex-vice-presidente Al Gore para a presidência dos Estados Unidos. Dois dias depois Gore foi anunciado como um dos vencedores do prêmio Nobel da Paz.

Muitos candidatos bons e solitários competem pela nomeação do Partido Democrata, dizia a publicidade assinada por 138 mil eleitores que pedem a Al Gore que participe da disputa. “Nenhum deles tem a combinação de experiência, visão, conhecimento do mundo e coragem política que você daria ao cargo. E também não têm o apoio dos eleitores que você já conseguiu, e que o levaria à vitória em 2008”, afirma www.draftgore.com

Em 12 de outubro, o Comitê Norueguês do Nobel anunciou que o Prêmio da Paz deste ano será entregue a Al Gore a ao Grupo Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, por seus alertas ao público mundial sobre o aquecimento global. “Este prêmio aumenta a tremenda margem de apoio a Al Gore e os crescentes pedidos para que seja candidato a presidente em 2008”, declarou após o anúncio o www.draftgore.com

“Acreditamos que nestas circunstâncias não existe nenhuma outra opção a não ser dar o passo que falta para conseguir a maior impacto para uma mudança em termos de aquecimento global: Candidatar-se a presidente”, disse a organização. Pelo menos um ex-presidente, e também Nobel da Paz, está de acordo com a organização. “Creio que é a pessoa mais qualificada para ser presidente”, disse Jimmy Carter pouco depois do anúncio do Nobel a Um programa de TV de grande audiência nos EUA.

Poucos duvidam que seu novo status de Prêmio Nobel fortalecerá o prestígio e o favoritismo de Gore. A maioria dos analistas políticos, inclusive pessoas do círculo íntimo do ex-presidente, consideram improvável que Gore saia candidato. “O vice-presidente Gore aprecia sinceramente o sentimento por trás do anúncio feito no jornal”, disse a porta-voz oficial de Gore, Kaleen Kreider. “Mas como cidadão comum, seus esforços estão em uma campanha diferente. A maior parte de sua energia se concentra hoje em educar o público sobre a crise climática”.

Apesar de ser o democrata mais importante a se pronunciar contra o aval do Congresso norte-americano, em 2002, para a invasão do Iraque, as atividades mais importantes de Al Gore, desde sua derrota em 2000 para o atual presidente George W. Bush, é ligada às mudanças climáticas. De fato, a atenção de Gore com o meio ambiente e o aquecimento global vem, ao menos, desde a publicação de seu primeiro livro,"Earth in the Balance", em 1992, quando ainda era senador.

Este livro conseguiu a atenção de especialistas, chefes de Estado e de governo presentes na Cúpula da Terra, que aconteceu naquele ano, no Rio de Janeiro, e ajudou a convencer Bill Cinton a nomeá-lo como companheiro de chapa em sua candidatura presidencial poucos meses mais tarde. Em 2000 Al Gore conseguiu a maioria dos votos como candidato à presidência, mas perdeu em conseqüência de uma controversa decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos.

Desde então começou uma agressiva campanha pela redução das emissões de gases de efeito estufa, que inclui a exortação de líderes evangélicos para que rompam com a direita cristã, até produzir e protagonizar o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, vencedor do Oscar como melhor documentário de 2006. Agora estes esforços foram premiados com o Nobel. Pode parecer um momento oportuno para que Gore aceite os convites de Carter e de muitos ambientalistas e dirigentes democratas, em especial os descontentes com a candidatura de Hilary Clinton.

Porém, a maioria dos observadores ainda apostam que sua resposta será negativa. Como a própria Kreider disse, Gore parece sentir que sua contribuição será maior fora do governo, como líder de um movimento, do que como político. Nesse caso seria obrigado a lidar com muitos assuntos, o que o levaria a ter de fazer concessões que o deixariam em má situação diante de suas convicções.

“esta posição de Gore ajuda a campanha pelo Clima, porque terá uma voz mais elevada”, disse Donna Brazile, gerente da campanha de Gore em 2000, à agência AP. “Mas agora é o cidadão Al Gore, e acredito que está mais confortável como cidadão”, disse ela. No entanto existem obstáculos mais práticos para uma candidatura de Al gore, no caso em que se decida a concorrer. E o menor não é a arrecadação de fundos para competir, uma vez que sairá do zero, enquanto seus três principais oponentes dentro do Partido Democrata, Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards já arrecadaram dezenas de milhões de dólares.

Grandes doadores do Partido Democrata, que se opõem à candidatura de Hilary Cinton, se aproximaram de Gore no final de 2006, mas foram afastados pela falta de interesse do ex-vece-presidente. Uma fonte disse a IPS: “Aqueles que poderiam ajudar mais foram desestimulados”. “Ficaria encantado que o Prêmio Nobel tivesse algum efeito na carreira presidencial”, disse o diretor do Centro para Políticas Internacionais, William Goodfellow, “mas para a maioria da população Gore é um elitista, e o Nobel não ajuda a melhorar esta imagem”, afirmou.
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