Crise na mineração e alta ociosidade podem resultar em 2019 negativo

Impactos da tragédia de Brumadinho (MG) na atividade extrativa e a falta de demanda para expandir a capacidade produtiva geram risco

Os impactos da tragédia de Brumadinho (MG) no setor extrativo e a alta ociosidade no parque industrial brasileiro podem levar o setor produtivo a um resultado negativo em 2019. O primeiro semestre registrou queda de 1,6%.

“O desempenho industrial geral deve fechar o ano próximo de zero ou um pouco negativo. O setor extrativo continua em queda e a indústria de transformação deve se recuperar gradualmente no segundo semestre”, avalia a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), Luana Miranda.

Na semana passada, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) reduziu a projeção do PIB industrial de 1,1% para 0,4%. “A indústria de transformação registrou crescimento de 1,8% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2018, quebrando uma sequência de dois resultados negativos. É importante para o crescimento do PIB, pela conexão com os demais setores”, pondera Luana.

Porém, ela ressalta que a baixa utilização da capacidade instalada não torna provável uma recuperação mais pujante. “Há muita ociosidade na indústria. O nosso último indicador aponta o nível da utilização em 75,5%, muito aquém do período anterior a crise. Não é algo que deve mudar nos próximos meses.”


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O diretor comercial da Lepe, Wilson de Francisco Júnior, conta que a fabricante do setor de autopeças atualmente opera em 55% de sua capacidade. “Temos dois projetos de expansão da capacidade, concebidos entre 2010 e 2011, quando o mercado demandava. Esses investimentos estão parados por enquanto, não tem sentido ampliar a capacidade.”

A empresa começou 2019 com a expectativa de crescimento de 20%, mas acabou encerrando o primeiro trimestre com queda de 10%. “Tínhamos esse otimismo por conta da demanda das montadoras. Atuamos nos segmentos de automotivo pesado: caminhões, ônibus e tratores”, explica.

Apesar desse cenário, Francisco acredita em um segundo semestre melhor. “A primeira etapa de aprovação da reforma da Previdência gerou um ânimo. Estamos buscando expandir no mercado externo e acreditamos em um crescimento de 20% em comparação ao 2º semestre. Mas não podemos ficar só na expectativa. Enquanto não houver sinais claros da economia entrando nos eixos, não vamos dar um passo maior que a perna.”

O economista da CNI, Marcelo Azevedo, entende que além de medidas estruturantes, são urgentes medidas de curto prazo para estimular a economia. “A redução de 0,5 ponto percentual na taxa Selic foi um fundamental primeiro passo nesse sentido. Há espaço para novas quedas. Adicionalmente, medidas que facilitem e reduzam o custo do financiamento também seriam muito importantes.”

Levantamento

Nesta quinta-feira (01), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os indicadores da produção industrial mensal de junho. No acumulado dos seis primeiros meses do ano, foram registradas contribuições negativas pelo setor extrativo (-13,7%), de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (-10,4%), de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-4,1%), entre outros.

O gerente da pesquisa, André Macedo, destaca os efeitos da tragédia de Brumadinho no setor extrativo. “Há um aperto na legislação que faz com que algumas atividades extrativas deixem de funcionar ou operem em ritmo menor. É a atividade com a principal influência negativa na comparação anual, seja frente a junho de 2018, seja no acumulado.”

Por outro lado, entre as onze atividades que cresceram, a principal influência foi veículos automotores, reboques e carrocerias (3,5%). Outras contribuições positivas relevantes vieram de bebidas (5,7%), de produtos de metal (5,8%) e de produtos de minerais não-metálicos (2,9%).




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