Gestão ambiental de fluidos de corte em empresas

Fonte: CIMM - 31/10/07

Entrevista com Décio Luis Dandolini


Biólogo, formado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Sua tese de mestrado "Gerenciamento Ambiental de Fluido de Corte em Empresas do Setor Metal Mecânico", foi o tema desta entrevista. Para a realização deste trabalho o autor visitou várias empresas de diversos portes do setor metal-mecânico.

CIMM - Há preocupação ambiental nas empresas de pequeno, médio e grande porte?

De uma maneira geral, na realização da fase de campo do nosso trabalho, ficou evidente uma relação de que quanto maior a empresa, maior o grau de preocupação ambiental dispensado por ela. Enquanto as pequenas e médias empresas mostravam características muito parecidas, ainda não se importando devidamente com os resíduos provenientes do setor produtivo, as grandes empresas, quer por motivos legais ou com o intuito de diversificarem suas atividades criando empresas que objetivam o fornecimento de componentes necessários ao setor produtivo da planta matriz, estão com a preocupação ambiental inserida em sua filosofia de trabalho e na melhoria contínua de sistemas de gestão ambiental.

CIMM - Onde estaria a principal diferença entre as empresas?

No meu modo de ver, a principal diferença entre as empresas, além da filosofia de conscientização ambiental, é o investimento que se tem nas grandes empresas objetivando pesquisas e experimentações de novas tecnologias, as quais obtém produtos menos agressivos ao ambiente. Outro fator é que as grandes empresas normalmente usam apenas um tipo de fluido de corte, o que facilita seu gerenciamento, isso facilita a criação de um contrato técnico-comercial entre o produtor do fluido e o contratante do produto, sendo que os dois atuem juntos na melhoria de seus processos e no gerenciamento e descarte dos produtos.

O ponto principal tanto para pequenas e médias empresas, quanto para grandes empresas do setor metal-mecânico é a existência ou não de um plano de controle operacional afim de evitar impactos negativos ao ambiente, como limpeza das instalações (fator importante para que não haja descarte prematuro do fluido de corte), manutenção preventiva de máquinas e equipamentos, medidas corretivas com relação aos poluentes que estão sendo gerados e a educação ambiental dos funcionários que precisam saber o porque que certos procedimentos devem ser modificados.

CIMM - Essas empresas precisam de uma reestruturação?

Acredito que elas precisem não de uma reestruturação, e sim de uma maior organização para desenvolver e melhorar seu desempenho ambiental. O aperfeiçoamento do processo produtivo, a escolha da matéria-prima mais adequada para determinado processo, a disposição final dos resíduos e de produtos obsoletos são procedimentos que aumentam a qualidade na área produtiva. Esta nova consciência deve ser partilhada não só entre os dirigentes, mas sim entre funcionários e fornecedores.

CIMM - Onde a Produção mais Limpa poderia minimizar custos?

Não tivemos como objetivo principal a minimização de custos via implementação de uma política mais limpa, e sim um diagnóstico ambiental das indústrias do setor buscando o gerenciamento ambiental dos fluidos de corte.
Porém essa redução pode ser obtida com um planejamento produtivo (tentando uma racionalização dos processos em relação aos diferentes tipos de fluidos de corte, uso adequado de ferramentas para materiais específicos...), com a modificação do processo e/ou equipamento (padronizando óleos utilizados na produção, instalando equipamentos como centrífugas, ciclones, separadores magnéticos para uma maior vida útil dos óleos de corte no sistema e novas tecnologias de usinagem como laser, micropulverização, usinagem a seco...).


Também a substituição e/ou eliminação de matéria-prima e insumos (como fluídos isentos de cloro e boro que agridem o ambiente, evitando assim multas por parte da fiscalização), controle de perdas (com a manutenção preventiva de equipamentos), separação dos diferentes tipos de resíduos (fluidos de corte e cavacos para reciclagem, reuso ou venda dos mesmos a terceiros) e principalmente conscientizando seus funcionários do correto uso e manuseio de equipamentos e de matéria-prima.

Claro que como conseqüência de um correto gerenciamento de resíduos a empresa terá uma redução de custos a médio e longo prazo, diminuindo assim o consumo de energia, água, matéria-prima, resíduos e poluição.

CIMM - Havia a preocupação ambiental nas empresas para atingir alguma certificação - ISO 9000 ou ISO 14000?

As pequenas e médias empresas apresentaram muito pouco interesse com relação a qualquer tecnologia de melhora de desempenho ambiental. Das pequenas e médias empresas visitadas, apenas uma tinha um certo interesse na melhor maneira de reaproveitar seus resíduos visando um maior crescimento econômico. Esta empresa separava seus cavacos e os aproveitava em uma fundição. Acredito que falte uma maior orientação para estes pequenos e médios empresários, apesar do SEBRAE ter um programa de inicialização da Gestão Ambiental para este porte de empresas, não sei se falta mais propaganda ou se uma melhora de resultados deste programa para incentivar os pequenos e médios empresários a adotarem uma política mais limpa. Já as grandes empresas estão sendo forçadas a obter algum tipo de certificação para conseguir sobreviver no mercado de trabalho, das empresas visitadas a maioria já tinha alguma certificação ou estava em processo de obtê-la.

CIMM - O que é mais “alarmante” numa empresa do setor Metal Mecânico?

Na realidade é preciso ter muita atenção em todos os setores deste tipo de empresa, porém um dos setores que mais chamaram minha atenção foi o de lavagem de peças. Essa limpeza pode ser feita com o uso de água e produtos como querosene, ou com jatos de materiais abrasivos como granalhas de metal duro, areia ou aparas de alumínio.

No caso da água misturada com querosene, se o piso da empresa não for adequado, ou seja, impermeável, limpo, nivelado, com caimento adequado que permita o escoamento de respingos e vazamentos de líquidos para canaletas e galerias dispostas de forma a conduzirem estes efluentes líquidos à caixas de areia e à caixas separadoras de água-óleo, pode haver infiltração de água misturada com óleo que poderá atingir o lençol freático, ou mesmo pode ocorrer um escorrimento superficial que atinja algum manancial, sempre lembrando que um litro de óleo pode eliminar o oxigênio de um milhão de litros de água devido a uma fina camada deste óleo que bloqueia a passagem de luz e ar, eliminando qualquer espécie viva no ambiente.

Os jatos com materiais abrasivos produzem resíduos, os quais além de sujarem a indústria, poluem o ar com sílica (resto de jateamento com areia). Esta sílica ameaça a saúde dos funcionários e da população vizinha e também causa desgaste prematuro em equipamentos, como engrenagem de máquinas.

Outro ponto importante é com relação aos óleos usados. Os empresários armazenam o óleo em tonéis para que sejam levados por empresas recicladoras. Deve-se ter muito cuidado na escolha destas empresas, pois muitas delas não são cadastradas junto a Agência Nacional de Petróleo – ANP, e possuem um processo de reciclagem duvidoso, podendo criar problemas ambientais desde o transporte até o descarte em locais inadequados. É bom lembrar que a empresa que utilizou o óleo e contratou o serviço de reciclagem é co-responsável se houver algum tipo de acidente no transporte ou no descarte.

CIMM - Qual o procedimento a se fazer para iniciar o gerenciamento ambiental em uma empresa?

Para se iniciar o gerenciamento ambiental deve-se implantar um programa de melhoria do desempenho ambiental, este é o primeiro nível para a prática da Gestão Ambiental. O segundo e o terceiro níveis são a implantação de um sistema de gestão ambiental e a busca da certificação na série ISO 14000, respectivamente.

A implantação de um programa de melhoria de desempenho ambiental não deixa de visar o lucro da empresa, uma empresa controlada ambientalmente tem seus custos reduzidos, pois consomem menos água, menos energia, utilizam menos matéria-prima, geram menos sobras e lixo, reutilizam, reciclam ou vendem resíduos e a partir de um momento gastam menos com o controle de poluição. Esse procedimento faz com que as empresas elevem sua competitividade praticando menores preços e melhorando sua imagem perante seus consumidores.

Um correto gerenciamento dos resíduos do setor metal-mecânico é, sem dúvida, a montagem de um programa de prevenção da poluição, buscando uma união entre empresa, fabricante e os meios de fiscalização.
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