Robotizada, usina revela nova cultura da Gerdau

A temperatura está próxima de 1.565 graus Celsius e o local é fechado. Máquinas do tamanho de um edifício de dois andares conduzem do alto três gigantescas palhetas alaranjadas pelo fogo a um imenso tonel onde há milhares de pedaços de sucatas de aço. O choque das palhetas com as sucatas produz um show de faíscas. As descargas elétricas e o fogo ofuscam a visão até daqueles que estão usando óculos protetores. Os ruídos são tão intensos que é necessário usar um tapa-ouvido. O ar ganha diversos feixes nebulosos e mesmo com casacos elaborados com tecidos protetores é possível sentir ondas constantes de calor, como se as pessoas estivessem diante da grelha de uma churrasqueira gigante.

Muito próximo ao fogo, há um robô pronto para fazer ajustes no material resultante do contato da sucata com o fogo. Ele usa um imenso braço, com cumprimento equivalente a duas pessoas.

Antes da chegada do robô, eram três funcionários por turno de oito horas que faziam esse serviço. Até a década passada era difícil virar o ano sem a ocorrência de ao menos um acidente. Mas a chegada do androide faz parte de um processo de automação que tornou a usina de Petersburg, no interior do Estado da Virgínia, uma das cinco mais eficientes na siderurgia mundial. Os acidentes zeraram nos últimos anos e a produção aumentou.


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Considerada uma joia da Gerdau, a usina tem capacidade para entregar 900 mil toneladas de aço por ano. De lá, saíram perfis estruturados que hoje estão no World Trade Center, em Nova York, no estádio Soldier Field, em Chicago, na ponte Cooper River, em Charleston, na Carolina do Sul, e no campus da Apple, em Cupertino, na Califórnia.

Sozinha, a unidade de Petersburg consome mais energia do que toda a cidade de Richmond, a capital da Virgínia, com mais de 200 mil habitantes. A conta supera US$ 2,5 milhões mensais. Em troca, a usina produz 150 tamanhos e formatos diferentes de vigas de aço. Apenas outras duas unidades nos Estados Unidos, na Pensilvânia e no Texas, conseguem fazer produtos em tamanhos e quantidades semelhantes. "É uma das usinas mais estruturadas dos Estados Unidos", definiu Peter Campo, presidente da Gerdau no país. "Os perfis estruturados feitos lá são relativamente únicos no planeta."

No mundo, Petersburg está numa lista restrita ao lado de outras quatro usinas no Japão, em Luxemburgo, na China e no Oriente Médio, capazes de produzir lâminas de aço de grande porte para vários usos. Algumas chapas têm formatos em "U" e outras em "I". As diferentes dimensões permitem a utilização nas mais diversas obras, inclusive para a contenção de água e areia em grandes quantidades. "Elas funcionam para fazer obras na construção de metrôs e de barragens", diz André Gerdau Johannpeter, presidente global do grupo. Algumas chapas de Petersburg estão no Canal do Panamá. 

A automação dessa usina faz parte da estratégia da Gerdau, nos últimos três anos, de fazer produtos diferentes de acordo com novas demandas do mercado. Isso envolve desenvolver sistemas com alto grau de sensibilidade e mecanismos digitalizados que serão utilizados dentro do ambiente inóspito das fábricas da indústria pesada.

Próximo ao forno de Petersburg, lâminas de aço com cores de lava e o cumprimento de um andar alto de um edifício são transportadas por linhas verticais por rolamentos especiais antes de ganhar os retoques finais. A manutenção do sistema de transporte das vigas alaranjadas pelo fogo é feita por um sistema desenvolvido pela GE para turbinas de aviões. Com ele, a usina não tem de parar a produção para ver se as máquinas correm o risco de quebrar pelo peso e pela temperatura alta das chapas. Um computador avisa eventuais avarias, os rolamentos são trocados e a usina funciona durante seis dias e meio por semana sem paralisações. No lado externo da unidade, uma área maior do que três campos de futebol está tomada por cilindros gigantes que tornam possível o rolamento das lâminas e são constantemente trocados.

A usina tem 300 funcionários e é a terceira maior da Gerdau América do Norte. A robotização retirou algumas vagas daqueles que ficavam próximos ao forno. Por outro lado, Petersburg passou a contratar pessoal mais especializado e com salários melhores. Alguns são engenheiros que surgem de programas desenvolvidos pela Gerdau. "Sempre que se puder remover uma pessoa de perto do forno é algo bom a se fazer", disse Gustavo Rodrigues, um dos brasileiros que trabalha na usina. Há 20 anos no ramo, diz que Petersburg é a unidade mais moderna em que trabalhou. "A automação é o destino dessa indústria e a inovação também ajuda a evitar acidentes", diz.

Os robôs que trabalham próximos ao forno foram adquiridos junto à companhia italiana BM, que atua especificamente no desenvolvimento de soluções para a indústria siderúrgica. A Gerdau está buscando outras parcerias para melhorar a eficiência de suas unidades.

André Gerdau contou ao Valor que está constantemente à procura de "startups" com ideias inovadoras para a produção e logística na indústria pesada. "Elas nos trazem soluções logísticas, de informação mais rápida, de estatísticas. São pessoas e empresas muito ágeis, que vivem de desafios e nos entregam resultados muito bons", revelou.

Algumas dessas empresas já estão atuando dentro de usinas no Brasil, onde as unidades contam com mais de mil sensores digitais que, agora, deverão se espalhar pelos Estados Unidos a partir de novas parcerias, como a realizada com a GE. "É um novo ecossistema que surgiu com empresas ágeis, rápidas e com uma mentalidade diferente. Chamamos de contaminação positiva o fato de trazer 'startups' para dentro da Gerdau", definiu o presidente.

Próximos aos fornos, os sensores ajudam a prevenir eventuais falhas no sistema na fabricação das lâminas, mantendo a continuidade da produção num processo de inteligência artificial que foi levado para dentro da indústria pesada. Os funcionários da unidade de Petersburg observam e monitoram os robôs ao lado do fogo com a clara visão de que eles são o futuro do setor de siderurgia.




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