Mercado vê Selic a 10,75%

Analistas apostam em nova alta da taxa básica de juros, mas não creem em redução da inflação. Pibinho da China pode ajudar a conter carestia.

A escalada dos juros básicos — que já dura nove meses, desde abril de 2013 — não será suficiente para colocar a inflação em ritmo de queda. A avaliação do mercado financeiro é de que a Selic, hoje em 10,5% ao ano, deverá subir pelo menos mais 0,25 ponto percentual até o fim do governo de Dilma Rousseff, chegando a 10,75% ao ano. Com isso, a presidente entregaria a mesma taxa deixada pelo seu antecessor e mentor político, Luiz Inácio Lula da Silva, mas com uma fundamental diferença: em 2010, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), parâmetro oficial da inflação, acumulou alta de 5,91%. A previsão em 2014, por sua vez, é de uma elevação bem maior: 6,01%. 
 
As estimativas do ano divulgadas nesta segunda-feira (20), no levantamento semanal feito pelo Banco Central (BC), sinalizam que, para o mercado financeiro, as promessas do governo de mais rigor com a inflação ainda não convenceram. Para os analistas, a lógica é de que, mesmo com uma dose maior de juros, os preços continuarão em alta, em função de uma série de reajustes que devem acontecer ao longo de 2014, sobretudo nos valores administrados pelo setor público, como água, luz e tarifas de transportes. 
 
No último ano, essas despesas ficaram, em média, 1,3% mais caras para o consumidor. Ao mesmo tempo, os preços livres, que não sofrem qualquer interferência do governo, subiram até 7%. Como um grupo compensou o outro, a inflação média do país encerrou o ano com elevação de 5,91% — patamar acima do registrado em 2012, de 5,84%. 
 
Como o mercado espera uma correção maior dos preços administrados em 2014, as projeções para a inflação também acabaram sendo elevadas, mesmo com a alta dos juros. “A única chance de o IPCA não explodir é se os preços livres caírem bem abaixo do que vimos nos últimos anos, o que, infelizmente, não deve ocorrer”, disse o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa. Ele projeta que o aumento do custo de vida chegará a 6,20%.
 
Commodities 
 
O que pode salvar a carestia neste ano, diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, é o menor crescimento econômico da China. Segunda maior locomotiva do mundo, o país asiático teve desempenho modesto para os seus parâmetros em 2013. No período, o Produto Interno Bruto (PIB) acumulou alta de 7,7%, igualando o resultado de 2012 e ficando apenas ligeiramente acima dos 7,6% esperados pelo mercado. “Para este ano, o PIB chinês deve desacelerar ainda mais, talvez para uma alta de 7,2% ou de apenas 7%”, projetou Castro.
 
A desaceleração da China significa menos encomendas de produtos básicos com cotação internacional — as chamadas commodities. Já sob o impacto da menor demanda chinesa, o preço do minério de ferro despencou nos últimos dias: em duas semanas, recuo 4%. “Mais importante que o número em si é a tendência para os próximos meses, que é de queda. Hoje, os analistas divergem apenas quanto à intensidade, mas todos apostam em uma redução brusca nos preços das commodities nos próximos meses”, mencionou o presidente da AEB.
 
Por Deco Bancillon/ Correio Braziliense



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