Baixo investimento em construção trava expansão da economia

Dados da ONU apontam que o Brasil está em 173º lugar entre 207 países em lista de investimento em relação ao PIB.

 

A avaliação de que a carência de investimentos produtivos é o principal obstáculo a emperrar o crescimento da economia brasileira pode ser um diagnóstico impreciso do problema. Um estudo da LCA Consultores, que decompõe a taxa de investimento e a compara internacionalmente, indica que o gargalo está muito mais em construção (instalações de empresas, residências e infraestrutura) do que em máquinas e equipamentos - a outra parcela da formação bruta de capital fixo (FBCF).
 
Com uma taxa média de investimento, entre 2002 e 2011, de 17,4% do Produto Interno Bruto (PIB), o Brasil fica no 173º lugar entre 207 países, a partir de dados da ONU. São quase seis pontos percentuais abaixo da média do grupo, de 23,3%. Em um universo menor, de 54 países que representam 85% do PIB mundial, a situação do Brasil não muda muito em relação ao total da amostra. O país fica no 50º lugar do ranking, cuja taxa média é de 22,1%.
 
As mudanças ocorrem quando a taxa é decomposta. Considerando apenas o volume de investimentos sob a forma de gastos com máquinas e equipamentos entre 2002 e 2011, a posição relativa do Brasil sobe 27 posições, para o 23º lugar. A taxa de investimento em máquinas e equipamentos, de 9,9%, fica acima da média de 9,5% apresentada por todos os 54 países.
 
Quando se consideram os gastos feitos apenas com a parcela da FBCF relativa à construção, o quadro piora sensivelmente. O Brasil cai para a 51º posição, à frente apenas da África do Sul. Nesse caso, a taxa média de investimento do país no período cai para 7,4% do PIB, ficando bem abaixo da média de 12,5% apresentada pelo grupo.
 
Ao se olhar para países que costumam ser comparados ao Brasil, não há alívio. A taxa total de investimento do Chile é de 21,4%, com 7,7% do PIB voltados para máquinas e equipamentos e 13,6% em construção - acima da média mundial, de 12,5%. Entre os Brics, a Índia investe 31,1% do PIB, com uma taxa "ex-construção" de 13,7%, e de 17,4% em construção. Sem falar na China, com uma taxa de investimento de 41% sobre o PIB, 16% em máquinas e equipamentos e quase 25% em construção.
 
Para Francisco Pessoa, economista da LCA, o fôlego reduzido dos investimentos em construção pode responder a inúmeros fatores, como à dificuldade em capturar o segmento informal de construção civil no Brasil, ou à uma questão de contabilização, já que construir uma casa no Brasil pode ser muito mais barato. "Outra possibilidade talvez seja o fato de que o governo investe pouco em infraestrutura e tem dificuldades de estimular a iniciativa privada".
 
Segundo Pessoa, na ânsia de dar respostas ao problema dos investimentos, a leitura do número cheio sem detalhamento pode levar à definição errada de políticas. "Um esforço de valorizar o real, por exemplo, ajudaria a importação de máquinas e equipamentos. Mas esse tipo de investimento, aparentemente, já está dentro da média mundial".
 
Na terça-feira (26), o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, disse que os desembolsos do banco no primeiro bimestre do ano indicam uma retomada do investimento no setor de máquinas e equipamentos, caminhões e ônibus. Resta saber como está o comportamento da construção.
 
Pessoa diz ainda que o governo expandiu sua dívida nos últimos anos, gastando demais com custeio e juros, o que diminuiu o espaço para gastos com investimento. "Agora estamos correndo atrás. Anunciaram um plano de concessões de ferrovias e rodovias, taxas de retorno maiores para a iniciativa privada e programas de investimento específico, o que é interessante."
 
Questão fundamental, diz Pessoa, é tentar definir melhor as prioridades. "Diante de toda a carência que temos, faz sentido construir trem de alta velocidade?", questiona. "É preciso gastar melhor, sendo mais eficiente no gasto público".
 
Por Flavia Lima/ Valor Econômico 
 
 



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