Confiança da indústria cresce no ritmo mais lento dos últimos 20 anos

Segundo dados da FGV, entre novembro de 2011 e janeiro deste ano, o índice de confiança teve alta de apenas 5,16%.


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O atual ciclo de retomada da confiança dos empresários do setor industrial é o mais lento nos últimos 20 anos, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) compilados pelo Itaú Unibanco. Entre novembro de 2011 - quando o índice parou de cair após 11 recuos seguidos - e janeiro deste ano, o Índice de Confiança da Indústria teve alta de apenas 5,16%.

Em 2009, após a brusca queda em função da crise financeira global, o indicador acumulava alta de 53%, passados 15 meses desde o início da recuperação da confiança do setor. Mesmo depois da crise de 1998, e da maxidesvalorização do real no ano seguinte, a confiança dos empresários avançou 31% nos 15 meses começados em dezembro de 1998.
 
Para analistas, a atual retomada contrasta com ciclos anteriores, por causa do delicado contexto internacional. A segunda fase da crise global acentuou a perspectiva de que as economias maduras terão baixo crescimento por um longo período de tempo, enquanto emergentes, como a China e a Índia, também perderam força, com impacto direto sobre o Brasil. Ao mesmo tempo, a perda de confiança foi menos intensa do que na fase mais aguda da crise de 2009, por exemplo, o que também ajuda a explicar a lentidão da retomada.
 
No front doméstico, a rápida recuperação da recessão em 2009 levou empresários a apostar em ritmo ainda forte da economia nos trimestres posteriores, com aumento da produção e dos investimentos. O esfriamento da economia internacional, no entanto, frustrou as previsões e houve forte acúmulo de estoques. Hoje, afirmam os economistas, os empresários estão mais cautelosos na formação das expectativas, cenário agravado pela lentidão com que a economia está ganhando força.
 
Para Aurélio Bicalho, do Itaú, na atual fase da crise, o elevado e inusual nível de incerteza no ambiente externo dificulta as projeções de aumento da demanda futura, o que inibe tanto aumento da confiança quanto a retomada do investimento, que costumam estar ligados. "Nos ciclos de retomada, primeiro a confiança sobe, a atividade então reage de forma mais intensa e o uso da capacidade instalada aumenta, o que leva à ampliação dos investimentos", diz.
 
Atualmente, esse ciclo continua válido, mas está ocorrendo de forma muito mais gradual, porque a economia global ainda atravessa uma fase difícil e a reação aos estímulos concedidos pelo governo brasileiro para animar a economia doméstica está ocorrendo mais devagar do que o imaginado. "A confiança aumentou, mas a economia não mostrou reação na velocidade esperada, e aí os empresários sentiram o baque", afirma Bicalho.
 
Pouco confiantes em relação ao ritmo de crescimento, o "espírito animal" do setor industrial, principal responsável pelos investimentos, se retrai, o que explica os cinco trimestres consecutivos de queda da formação bruta de capital fixo (investimentos em máquinas e equipamentos e na construção civil) até setembro, afirma Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil.
 
Para Leal, a lenta recuperação da confiança também está bastante relacionada ao ciclo imediatamente anterior, quando o índice de confiança do setor industrial subiu 53% em 15 meses desde fevereiro de 2009.
 
"Com a retomada rápida ao longo do ano seguinte, tanto aqui quanto no resto do mundo, tivemos a impressão de que os problemas estavam todos resolvidos, e que a recuperação aconteceria na forma de V, com forte retomada", afirma o economista do ABC Brasil. No entanto, a crise da dívida soberana na Europa jogou de novo o mundo em crise e a recuperação mostrou-se mais parecida com um W - após rápida recuperação, a economia volta a se retrair.
 
"Todos se prepararam para recuperar os níveis pré-crise, mas tivemos uma dupla recessão e isso pegou os empresários de surpresa", afirma Leal. Com investimentos em marcha e produção alta, a indústria virou de 2011 para 2012 com estoques elevados. A cautela em alta e dificuldade de antecipar os próximos movimentos da economia travam os investimentos, afirma ele, mas algumas das condições para a recuperação do investimento, como redução de juros e perspectiva de aumento dos gastos públicos com obras de infraestrutura, por exemplo, já estão dadas.
 
Aloísio Campelo, coordenador da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da FGV, atribuiu a depressão do ânimo dos empresários também à competição externa, que, mesmo com a desvalorização do real, continua a roubar mercado de produtos brasileiros e abalar expectativas.
 
Campelo avalia que ainda não há sinalização clara em relação à continuidade do crescimento nos próximos meses, mas as perspectivas são um pouco melhores, já que alguns indicadores estão evoluindo, como o nível de utilização da capacidade instalada. A indústria, no entanto, começa 2013 em ritmo que não é forte, o que ainda coloca um freio na retirada de projetos da gaveta.
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