Ressaca ameaça as montadoras

Especialistas acreditam que setor automotivo deve sofrer forte desaceleração ou até mesmo estagnação em 2013

Analistas que acompanham de perto o setor apostam numa ressaca que poderá marcar o fim, em 2013, de uma sequência de nove anos seguidos de crescimento no mercado automotivo brasileiro, o quarto maior do mundo. As projeções vão de forte desaceleração nos emplacamentos à estagnação ou mesmo queda de 4% a 6% nas vendas.

São previsões pessimistas se comparadas a expectativas preliminares manifestadas por representantes da indústria e da distribuição, que apontam para um desempenho mais próximo ao comportamento do Produto Interno Bruto (PIB), cuja evolução no próximo ano é estimada pelo mercado em quase 4%.
 
A diferença é que enquanto fontes da Anfavea e da Fenabrave - entidades que, respectivamente, abrigam as montadoras e as concessionárias de veículos - olham para a economia e a aderência das vendas de carros à trajetória do PIB, os analistas se preocupam com o fim das alíquotas reduzidas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), os efeitos da antecipação de compras deste ano e a seletividade dos bancos nas liberações de crédito.
 
"Mesmo com a melhora da economia, esperamos um ano de acomodação. Nossa perspectiva é que o mercado enfrentará uma ressaca, principalmente em virtude da antecipação de compras", diz Rodrigo Nishida, analista da LCA, repetindo uma percepção comum em outras consultorias.
 
A expectativa é de um recuo maior nos três primeiros meses do ano, um período tradicionalmente mais fraco, sobretudo no primeiro bimestre. Após isso, espera-se uma retomada, mas Nishida lembra que a base de comparação passará a ser mais forte, uma vez que a indústria cravou marcas históricas entre junho e agosto deste ano - nos três primeiros meses de IPI reduzido.
 
O analista diz que espera um crescimento de 1% nas vendas de automóveis e utilitários leves no ano que vem, mas adianta que, hoje, essa previsão tem viés de baixa.
 
Stephan Keese, sócio da Roland Berger, tem opinião parecida e diz que, na melhor das hipóteses, 2013 repetirá o desempenho recorde de 2012. "Acho que temos o risco de ver uma queda de 4%", diz o especialista. "As montadoras que conversam com a gente estão, em geral, com a expectativa de vendas mais fracas no primeiro trimestre", acrescenta.
 
As projeções variam, mas há consenso de que o mercado não conseguirá sustentar o ritmo deste ano, salvo uma nova prorrogação dos incentivos fiscais a partir de janeiro - uma possibilidade rejeitada publicamente pelo governo, mas não descartada totalmente pelo mercado.
 
Até outubro, as vendas de carros novos no país subiram 7,2%. A Fenabrave acredita que esse crescimento cederá para uma faixa de 4% a 4,8% até o fim do ano. Mas alguns analistas estão mais otimistas, prevendo evolução de 7% a 8%, na expectativa de uma corrida dos consumidores às lojas nos últimos dias de IPI reduzido. Nishida, da LCA, projeta um volume de 350 mil carros apenas em dezembro, último mês do incentivo, o que configuraria o quarto melhor resultado da história.
 
O problema é que toda essa antecipação de consumo poderá tirar a força da demanda no ano que vem. Rodrigo Baggi, analista da consultoria Tendências, acredita que a velocidade de crescimento no segmento de veículos leves cairá de 8% para 3% na passagem de 2012 para 2013.
 
Ele projeta, contudo, um desempenho melhor na produção das montadoras, fundamentando essa visão na expectativa de recuperação das exportações, o recente início das operações nas fábricas da Hyundai e da Toyota, além de um cenário de estoques mais reduzidos no início do ano.
 
Em 2012, o pacote de estímulos anunciado no fim de maio em Brasília foi determinante para reverter a tendência negativa que se desenhava para as vendas de carros nos cinco primeiros meses do ano. A virada no jogo só veio com a redução nas alíquotas do IPI, combinada a descontos praticados pelas próprias montadoras e medidas destinadas a destravar o crédito ao consumo, como a redução nas alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a liberação de depósitos compulsórios.
 
Os emplacamentos, que cediam 4,4% até maio, ganharam o terreno positivo com a corrida de consumidores ávidos a aproveitar os preços mais baixos, num movimento cujo pico foi a venda de mais de 405 mil carros em agosto - o maior volume da história.
 
"Foi um crescimento que se deu pela forte redução nos preços dos carros", afirma Raphael Galante, analista da Oikonomia, acrescentando que o setor também se beneficiou pelo maior volume de recursos canalizados ao consumo, devido à menor remuneração da poupança.
 
Mas, a partir do ano que vem, os incentivos devem sair de cena e os preços passarão a ser pressionados pela volta do IPI cheio. Paralelamente, a curva da inadimplência não está caindo como se esperava, levando bancos a manter uma postura cautelosa nas concessões de crédito. Essa situação se reflete na queda superior a 10% das liberações de crédito para veículos novos neste ano. "Mesmo com um aumento da atividade economica, não vejo, atualmente, um cenário de melhora do crédito", avalia Galante. Mantidas essas condições, ele acredita que as vendas em 2013 poderão cair entre 5% e 6%.
 
Por Eduardo Laguna/ Valor Econômico
 
 



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