PIB deve perder força depois do 3º tri reforçado

Antecipação de compras gerada por redução de IPI resulta em queda do PIB no último trimestre.

Principal vetor de aceleração da economia no terceiro trimestre, a redução do Imposto de Produtos Industrializados (IPI) para veículos foi eficaz para desovar estoques, reanimar a produção nas fábricas e provocar recorde de vendas, mas tornou-se fator de incerteza para uma retomada gradual da atividade. Mesmo que o benefício fiscal seja prorrogado até o fim do ano, economistas apontam que a antecipação de compras gerada pelo imposto menor não irá se repetir no quarto trimestre, perda de fôlego que também deve se refletir sobre a indústria do setor.

Tendo em vista esse movimento de saturação, alguns analistas já apostam em uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) mais fraca no último trimestre do ano em relação ao período anterior, feitos os ajustes sazonais, após um crescimento que, impulsionado pelo IPI reduzido, pode ultrapassar 1% no terceiro trimestre. Mesmo no grupo de economistas que projetam ritmo melhor nos últimos três meses do ano, o "efeito ressaca" do IPI é colocado como uma possível ameaça à concretização desse cenário.
 
A antecipação da demanda é uma das razões pelas quais as projeções do PIB para o ano continuam caindo na coleta feita pelo Banco Central (o boletim Focus), apesar dos bons dados do terceiro trimestre. Ontem (15), o Focus apontou nova queda na projeção para o PIB de 2012 de 1,57% para 1,54%.
 
Fabio Ramos, da Quest Investimentos, afirma que as medidas de incentivo tiveram impacto muito forte sobre a atividade no terceiro trimestre, especialmente em agosto - mês em que, com a perspectiva de aumento de preços, foram vendidos mais de 405 mil carros, recorde histórico da série da Fenabrave, entidade que reúne as concessionárias do país. Em setembro, porém, mesmo com o IPI reduzido ainda em vigor (o benefício foi prorrogado até 31 de outubro), as vendas recuaram para 127,9 mil unidades, volume 31,5% abaixo do registrado no mês anterior.
 
Segundo Ramos, os dados piores sinalizam que os estímulos concedidos à economia "vão cobrar seu preço" no quarto trimestre, período para o qual estima alta de 0,7% para o PIB, desaceleração frente aos 1,2% projetados para o terceiro trimestre. "A expansão será menor não porque o governo vai remover o IPI, mas sim porque, quando os preços foram reduzidos com prazo de término, a demanda foi 'empurrada' para o terceiro trimestre", explicou.
 
Com a intensa freada nas vendas, o fôlego no crescimento deixado por setembro para o quarto trimestre (o chamado 'carry over') deve ser menor, diz Thiago Carlos, economista da Link Investimentos, o que já diminui a capacidade de crescimento da economia no período. Ele calcula que esse repasse de junho para o terceiro trimestre foi de 0,5 ponto percentual, número que deve ser reduzido pela metade na virada de setembro para outubro. Ele pondera, porém, que essa estimativa é controversa e o impacto negativo pode ser compensado se outubro for um mês de reação nas concessionárias.
 
Para Luís Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, outubro pode mostrar novo repique nas vendas, mas dificilmente o pico de agosto será atingido. Ele avalia que o corte do imposto foi positivo por acelerar o processo de limpeza de estoques - que eram de 43 dias de vendas em maio, situação mais crítica desde a crise de 2008. Mas, ao contrário de mudanças estruturais, como o aumento da oferta de crédito e da renda, diz Leal, desonerações fiscais não são suficientes para criar "demanda nova" e, por isso, têm efeito limitado sobre a atividade econômica.
 
Assim, o analista acredita que, após aumento que pode chegar a 1,5% no terceiro trimestre sobre o segundo, o crescimento do PIB deve voltar para algo próximo a 1% no trimestre final de 2012. "Antes da redução do IPI, tínhamos um cenário de recuperação mais linear, que agora foi descartado", afirmou Leal, destacando que medidas de incentivo causam oscilações no ritmo da economia.
 
Variáveis como melhora na confiança do empresariado, ajuste de estoques e recuperação mais espalhada entre os setores industriais devem sustentar um avanço maior do PIB no quarto trimestre, de acordo com Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco, mas, para isso, é preciso que comércio e produção de veículos continuem em alta. Em seu cenário principal, Bicalho conta com alguma retomada nas vendas após o tombo de setembro, mas pondera que desonerações tributárias elevam a incerteza sobre o ritmo de atividade.
 
O analista do Itaú observa que o setor automobilístico tem peso de cerca de 30% nas vendas do varejo ampliado, que incluem veículos e material de construção, e representa 13% da produção industrial do país, apenas diretamente. Assim, pondera Bicalho, uma evolução mais desfavorável desse ramo é o principal risco à sua projeção de expansão de 1,3% da economia entre o terceiro e o quarto trimestres.
 
Segundo Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o IPI menor para carros deve ser estendido até o fim do ano e dinamizar a atividade em outubro e dezembro, mas a renovação não será suficiente para garantir crescimento de 1,7% do PIB no último trimestre, projeção anterior da MB que foi revisada para 1% de forma preliminar. "A volatilidade de dados deve continuar, mas os picos e pisos ficam cada vez menores. O pico de 405 mil veículos vendidos não vai se repetir", disse Vale.
 
Flávio Combat, economista-chefe da Concórdia Corretora, nota que, além dos bens duráveis, outros produtos devem ter suas vendas afetadas pela forte antecipação de consumo no terceiro trimestre, já que as famílias que compraram automóveis comprometeram parte considerável de sua renda com empréstimos. "Provavelmente o consumo das famílias no PIB não virá tão forte como nos trimestres anteriores", diz ele.
 
Por Arícia Martins/ Valor Econômico
 
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