Thyssen tem pressa em vender CSA

A ThyssenKrupp quer desinvestir da atividade de aço inoxidável e vender a usina no Brasil, a CSA

 

O grupo industrial alemão ThyssenKrupp não deverá recuperar grande parte dos bilhões de euros que investiu nas Américas, pelo plano de venda de suas unidades na região - uma usina no Brasil, a CSA, e uma laminadora nos EUA -, acreditam analistas que acompanham a situação do conglomerado
 
A ThyssenKrupp tem pressa. O negócio é considerado um "catalisador-chave" para o grupo eliminar um obstáculo na direção de lucro mais sólido. Mas o mercado financeiro na Europa é cético sobre venda rápida desses ativos no atual ano fiscal, que termina em setembro, estimando que pode demorar mais três a seis meses.
 
A ThyssenKrupp é o maior produtor alemão de aço, com 9,3 milhões de toneladas em 2011. Através de sua subsidiária Steel Americas, a companhia tem capacidade adicional de até 5 milhoes de toneladas no exterior. Como grupo diversificado, tem duas áreas de negócios: Materiais (Steel Europe, Steel Americas e Materials Services) e Produtos Industriais (elevadores, componentes tecnológicos e Marine Systems).
 
Como parte da estratégia de desenvolvimento, o grupo vai desinvestir da atividade de aço inoxidável e dos ativos nas Américas. Recentemente, vendeu Inoxum (aço inox) para o grupo finlandês Outokumpu por € 2,7 bilhões.
 
Mas o foco do mercado está no desinvestimento na divisão Américas, devido aos prejuízos que acumula. Foram € 778 milhões de perdas nos nove meses do atual ano fiscal, comparado a € 887 milhões de igual período de 2011.
 
O CEO Heinrich Hiesinger estima que o valor contábil da divisão é de € 7,9 bilhões, dos quais € 6,9 bilhões para ativos fixos. A cifra é bem abaixo do montante investido até agora na "aventura estrangeira do grupo", de cerca de € 12 bilhões, conforme o analista Marc Gabriel, do Bankhaus Lampe Research, em Düsseldorf.
 
Para Gabriel, o preço de € 5,4 bilhões deveria ser o limite aceitável para o grupo vender seus ativos nas Américas. Com isso, ficaria livre de dívidas e seria capaz de começar a expandir seu segmento de produtos industriais.
 
Mas as estimativas dos analistas variam. Um ""valor realista"" está entre € 1,7 bilhão e € 2,7 bilhões, 66-79% a menos do que o custo original, segundo Alessandro Abate, analista para metais e siderurgia do J.P. Morgan Cazenove, levando em conta as condições do mercado, como excesso de placas no Brasil e maior competição no segmento premium nos EUA.
 
Abate admite, porém, que a Thyssen provavelmente vai querer fechar negócio por não menos de € 4,5 bilhões, considerando outros elementos que tornam a compra atrativa. Exemplifica que a Thyssen tem € 1 bilhão de prejuízo fiscal ainda para abater do balanço. Isso pode se transformar em beneficio para compradores da CSA e da unidade nos EUA.
 
Jeff Largey, analista da Macquarie Capital, acredita que ThyssenKrupp pode "buscar" entre € 3 bilhões e € 5 bilhões pelos dois ativos, mas sua "convicção" é de que o valor está mais para a cifra mais baixa. Pelos 73% da CSA, no Brasil, calcula que pode valer entre € 1,7 bilhão e € 2,5 bilhões.
 
Na mesma linha, Ingo-Martin Schachel, do Commerzbank, avalia o valor da TKSA em € 3,5 bilhões, dos quais € 2 bilhões pela CSA. Já o francês Société Générale faz uma avaliação de € 2,5 bilhões para os 73% na CSA e € 800 milhões para a usina nos EUA.
 
Largey aponta vários pontos positivos que ajudariam na venda da TKSA: as unidades no Brasil e nos EUA representam duas das mais modernas e avançadas usinas de aço no mundo ocidental; o pior em termos técnicos e operacionais já passou; a CSA está localizada num mercado atrativo em crescimento, como o Brasil, e a usina nos EUA oferece acesso a produtores automotivos que se deslocaram para o sudeste americano em busca de regras trabalhistas mais flexíveis.
 
Entre os pontos negativos, o analista da Macquarie qualifica de "quebrado" o modelo de negócios da divisão Américas. Julga que o conceito de produzir placas no Brasil e transformá-las nos EUA em produtos acabados não é mais economicamente atrativo.
 
Hiesinger disse na semana passada que recebeu mais sinais de interesse do que previu para os dois ativos. Mais de 10 grupos em discussão para aquisição ou parceria. Ele não quis dar nomes, mas insistiu que era tempo para colocarem ofertas concretas na mesa.
 
Para Jeff Largey, a Vale, que detém 27% da CSA, pode não estar interessada no controle majoritário da siderúrgica, mas pode servir como intermediário para eventuais interessados estrangeiros, incluindo asiáticos como Posco, Dongkuk e Baosteel. Acredita que produtores domésticos e latino-americanos podem tambem surgir, como CSN, Usiminas, Gerdau e Ternium. Quanto à laminadora americana, entre os potenciais interessados estariam Nucor, ArcelorMittal, U.S. Steel e a Severstal, segundo Largey.
 
Analistas concordam que uma solução pode não ser a venda de 100% da divisão Américas. Acham que todas as opções estao na mesa, exceto a de Thyssen manter o controle dos ativos. O grupo alemão pode ser forçado a manter uma fatia minoritária no Brasil ou EUA ou nos dois ativos. Nesse cenário, a entrada líquida de dinheiro no caixa do grupo alemão diminui e tambem baixa o potencial do ""preço de venda"". De outro lado, remove de seu balanço a divisão Américas, para alivio de investidores.
 
O cenário em todo caso não é favorável a negócios. Alem da crise financeira global, a siderurgia tem excesso de capacidade no mundo. A fraca demanda aparente coloca pressão sobre os preços do aço.
 
Por Assis Moreira/ Valor Econômico
 
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