Com austeridade nos países ricos, emergentes dão alívio à indústria

Produtores de componentes automotivos adaptam a demanda em baixa nos países ricos com explosão de vendas na China (123% desde 2007) e na América do Sul (24%)

 

A Euler Hermes, maior grupo mundial de seguros de créditos, desenha um quadro pouco confortável sobre as consequências de ajustes fiscais na dinâmica de 16 setores industriais em 32 países.
 
A Europa acumula setores industriais em dificuldade, particularmente construção, distribuição (varejo) e automotivo. Nos EUA, a reindustrialização está em marcha, mas o setor imobiliário e possível fim de estímulos fiscais inquietam a indústria. Nos emergentes, a desaceleração do comércio mundial força um posicionamento sobre a demanda interna e melhor estruturação de alguns segmentos.
 
Estudo do grupo francês suspeita que a austeridade esteja se tornando também setorial. A gestão por custos se impõe mais ainda nos principais setores da atividade na Europa.
 
Para a Euler Hermes, nessa "maratona" da economia mundial deprimida, os segmentos que podem se sair melhor e obter a ''medalha de ouro'' são a indústria agroalimentar, a automotiva e o químico-farmacêutico. A "medalha de prata" fica com produtores de componentes automotivos, informática e eletrônica, que resistem à crise global mesmo com certa dificuldade.
 
Na lanterna, estão construção e empresas aéreas, o primeiro setor "exausto" pela falta de mais estímulos de crescimento e o segundo com rentabilidade ameaçada por forte concorrência de companhias "low cost" e margens reduzidas.
 
Na Europa, o ambiente é marcado por consumo fraco, produção industrial em queda e investimentos retardados. Com taxa de desemprego médio de 10%, mas chegando a 25% na Espanha, dificilmente o mercado vai se recuperar tão cedo. As reestruturações anunciadas no setor automotivo vão agravar o desemprego também na siderurgia.
 
Mas nem tudo é negativo na Europa, e vários setores continuam com boa saúde, como agroalimentar, farmacêuticos, componentes automotivos - aproveitando de presença internacional -, além da construção aeronáutica impulsionada pela Airbus.
 
Nos EUA, que faz 28% da produção mundial, o setor imobiliário continua deprimido e pesa na recuperação mais dinâmica da economia. Mais de 2,2 milhões de residências continuam sem compradores, nível muito superior ao de antes da crise.
 
De outro lado, o crescimento do mercado automotivo a dois dígitos, e da produção, é constante desde 2010. Depois de dura reestruturação, com fechamento de 18 fábricas, a indústria voltou a lucrar e a se desenvolver em todos os continentes. Para a Euler Hermes, a indústria americana evolui favoravelmente na química, farmacêutica, agroalimentar e aeronáutica. Também as companhias aéreas conseguem otimizar sua taxa de ocupação.
 
Nos países emergentes, o estudo aponta perspectivas favoráveis para os setores focados na demanda interna. Destaca que o ambiente econômico é globalmente bom e os setores industriais, rentáveis. Mas alerta para a necessidade de reestruturação, como na siderurgia e no automotivo na China, onde o número e a fragilidade de indústrias tornam esses setores menos competitivos e menos inovadores.
 
O estudo dá exemplos de sucesso dos emergentes, como a liderança da Coreia do Sul na eletrônica de grande consumo, em detrimento dos japoneses. E a recuperação do construtor automotivo inglês Jaguar Land Rover sob a gestão do novo acionista, a indiana Tata. Na construção aeronáutica, a Embraer é sempre outro bom exemplo.
 
Globalmente, a expectativa é de que o setor agroalimentar, que teve faturamento de US$ 5,4 trilhões em 2011, continue sua progressão em torno de 6%, sempre sob o impulso dos países emergentes.
 
O mercado mundial de química, que pesou US$ 2,6 trilhões em 2011, tem o dinamismo do mercado asiático (49% do faturamento mundial) e retomada nos Estados Unidos (25%). Por sua vez, com projeção de faturamento de US$ 920 bilhões, o mercado farmacêutico global tem perspectivas 'invejáveis''.
 
O setor de construção, com faturamento de US$ 7,6 trilhões em 2011, continuará dependendo mais dos emergentes do que dos mercados ricos.
 
A eletrônica de grande consumo, com valor de mercado de US$ 1 trilhão, também deve sua progressão graças aos emergentes. As empresas de venda de material, serviços e software do setor de informática e Telecom faturaram US$ 3 trilhões em 2011 e neste ano podem crescer abaixo de 4%, menos que anos anteriores.
 
O mercado mundial de automóveis é favorecido pelo bom ritmo nos EUA e no Japão, mas há desaceleração nas vendas em vários emergentes e queda forte na Europa. As vendas no continente europeus ficarão em 13 milhões de carros, ou 3 milhões a menos do que antes da crise.
 
Já os produtores de componentes automotivos adaptam a demanda em baixa nos países ricos com explosão de vendas na China (123% desde 2007) e na América do Sul (24%).
 
A expectativa é de crescimento global do mercado mundial de aviões civis, que faturou US$ 95 bilhões no ano passado (fora aviação de negócios). Por sua vez, no lado de empresas aéreas as tempestades continuam, com nova deterioração na rentabilidade neste ano, ficando em torno de 0,5%.
 
Por Assis Moreira/Valor Econômico
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