Impsa tenta reduzir dependência do Brasil

Acúmulo de projetos em energia e infraestrutura superaqueceu custos de produção

Única grande fabricante de equipamentos de energia da América Latina, a argentina Impsa quer reduzir sua dependência do Brasil. A empresa conseguiu no país metade de seu faturamento de US$ 1,2 bilhão no ano passado e o Brasil representa 47% de seus contratos a faturar que somam US$ 3,9 bilhões. Em algumas carteiras, como a de equipamentos hidrelétricos, as compras brasileiras representam 89%.

A demanda brasileira é tão intensa que a Impsa está ampliando sua fábrica em Suape (PE), onde serão construídas quatro das 18 turbinas que abastecerão a hidrelétrica de Belo Monte (PA) e erguendo uma nova unidade de aerogeradores no Rio Grande do Sul. Moram no Brasil dois dos quatro herdeiros do industrial Enrique Pescarmona, o controlador da empresa.
 
Para os próximos anos, contudo, a Impsa quer diversificar e tenta crescer em seu país de origem. "Sem os contratos no exterior, nós não existiríamos hoje. Mas precisamos de mais contratos em nosso próprio país", comentou o vice-presidente da multinacional, Francisco Ruben Valenti.
 
Além da usina Belo Monte, à qual fornece componentes, a empresa conta com geração eólica no Ceará e em Santa Catarina, com 322 MW em operação. Na Argentina, a Impsa montou o parque eólico de Arauco, na província de La Rioja, sob encomenda do governo local, com geração de 25 MW, e ainda estrutura dois parques dentro do GENREN, o equivalente argentino ao Proinfa: o de Malaspina, na província de Santa Cruz, com 80 MW, e o de Koluel Kayke II, com 25 MW. Mas o potencial eólico argentino é considerado o maior do mundo, dez vezes superior ao brasileiro.
 
O diagnóstico da empresa é que o acúmulo de projetos na área energética e de infraestrutura no Brasil nos próximos anos superaqueceu os custos de produção no país em itens como mão de obra, terrenos, aço e outros suprimentos. Em empreendimentos de grande porte financiados pelo BNDES, como são os de geração energética, há um requerimento de nacionalização de componentes acima de 60%.
 
Os custos maiores deixaram as empresas do setor mais sensíveis a eventuais reduções de margens, como as representadas pela recente decisão da Aneel de endurecer as regras do jogo entre as geradoras de energia eólica com produção contratada pelo Proinfa. Na semana passada, uma resolução normativa da agência determinou que o prazo de vinte anos da energia vendida para a Eletrobras começa a contar de 2006, independentemente da entrada em operação da unidade. O setor já havia recebido uma má notícia em maio, com o adiamento para outubro dos novos leilões de energia eólica.
 
O grande diferencial que ainda pesa a favor do Brasil é a estrutura de financiamento. "O Brasil tem o BNDES e isso faz toda a diferença. O financiamento na Argentina é o que temos a resolver", comentou Valenti. No país de origem da Impsa, não há linhas de longo prazo do porte das oferecidas no Brasil por um banco público. O problema faz com que mesmo em investimentos 100% argentinos, como o do parque Arauco, a Impsa tenha de articular a participação do agente financiador brasileiro.
 
A ideia da empresa é importar aço do Brasil para a fábrica da Impsa em Mendoza, que deverá duplicar a geração em La Rioja. Há confiança dentro da companhia de que o governo argentino não se oporia a uma operação como essa, mas não há certeza se o banco brasileiro aceitaria financiar um empreendimento na Argentina usando suprimentos do Brasil.
 
A questão do financiamento foi determinante para minar o projeto de Condor Cliff-La Barrancosa, o terceiro maior empreendimento hidrelétrico do país, na província de Santa Cruz. Há dois anos, a Impsa ganhou a licitação para a construção da usina de 1,8 mil MW de potência, em um consórcio composto ainda pela brasileira Camargo Corrêa e pela Corporación América, do grupo Eurnekian, que recentemente ingressou no mercado brasileiro de aeroportos. O projeto, de US$ 4 bilhões, envolveria 88% de financiamento público.
 
Em abril, poucos dias depois de expropriar a petroleira YPF, de capital espanhol, a presidente Cristina Kirchner decidiu anular a concorrência. A nova licitação, desta vez de US$ 5 bilhões, exigirá que os consórcios se responsabilizam por 50% dos recursos.
 
A futura usina foi rebatizada como "Presidente Nestor Kirchner", em homenagem ao marido e antecessor de Cristina, morto em 2010. Chave para um eventual financiamento do BNDES, a Camargo Corrêa não quis se pronunciar sobre seu eventual interesse em participar da nova concorrência, ao ser procurada por este jornal.
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