Setor de veículos cai 30% e derruba indústria

Afetada principalmente pelo setor de veículos, a produção industrial surpreendeu economistas e caiu 2,1% na passagem de dezembro para janeiro, feitos os ajustes sazonais, após dois meses seguidos de crescimento nessa base de comparação.

O impacto negativo, no entanto, não veio somente do segmento com segundo maior peso na Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): a queda mensal foi espalhada em 14 dos 27 ramos pesquisados pelo instituto, o que representa mais da metade da indústria e indica que boa parte do setor continuou andando de lado neste início de ano.

Janeiro pode ter sido um ponto fora da curva, e o mês de fevereiro deve mostrar algum crescimento, ainda que modesto, da produção industrial, dizem economistas consultados pelo Valor. O cenário para o primeiro trimestre, contudo, ainda é de fraqueza, já que alguns setores ainda trabalham com nível de estoques acima do desejado e o ciclo de redução da taxa Selic, que vem sendo cortada desde agosto, deve ter efeito pleno sobre a atividade econômica somente no segundo semestre do ano.

Para André Luiz Macedo, gerente da coordenação da indústria do IBGE, o recuo de 30,7% na fabricação de veículos entre dezembro e janeiro, já descontada a sazonalidade, é pontual e está relacionado à produção de caminhões, segmento que paralisou parcialmente as atividades para se adequar às novas regras de emissões. A parada, diz Macedo, também prejudicou a categoria de bens de capital - na qual os caminhões estão inseridos -, que amargou retração de 16% no período, a maior entre as quatro analisadas.

A única categoria que produziu mais na comparação de janeiro com dezembro foi a de bens semiduráveis e não duráveis, que observou aumento de 0,7% no período, na série dessazonalizada. A alta, diz Thovan Tucakov, da LCA Consultores, ainda que moderada, pode ser um sinal de que os empresários do setor estão otimistas com o reajuste do salário mínimo.

Ele lembra que, de acordo com a mais recente sondagem industrial da Fundação Getulio Vargas (FGV), o setor de bens de consumo, mesmo "poluído" pela indústria automobilística, está desovando estoques. Em setembro de 2011, 16,2% das empresas do ramo consultadas pela FGV relataram ter mercadorias paradas em excesso, número que caiu para 7,5% em fevereiro.

Excluindo-se a queda de 70,4% na produção de caminhões e ônibus e motores, número dessazonalizado pela LCA, Tucakov calcula que a produção industrial livre de efeitos sazonais teria avançado 0,5% em janeiro sobre dezembro. "Seria um resultado fraco, mas não catastrófico", diz.

Fabio Ramos, da Quest Investimentos, acredita que, embora influenciada pelas férias coletivas concedidas pelas montadoras, não é possível fazer uma leitura otimista da produção de janeiro. "Metade da indústria ainda está andando de lado. Isso acontece há quase dois anos". Para o economista, depois do resultado divulgado ontem, as projeções dos analistas para o aumento da produção este ano - atualmente em 2,7%, segundo o Boletim Focus - devem se aproximar da sua estimativa, de 1,5%.

Para os artigos da linha branca, como fogões e máquinas de lavar, por outro lado, a redução do IPI surtiu "efeito positivo" na produção industrial de janeiro. O ramo máquinas e equipamentos, no qual estão inseridos os produtos da linha branca, registrou alta de 4,5% na passagem de dezembro para janeiro. "Foi um resultado positivo", disse Macedo. "De alguma forma, favorecido pela redução do IPI. Há uma mudança de comportamento na produção de bens da linha branca."

Mesmo com a surpresa negativa em janeiro, o economista-chefe da Concórdia Corretora, Flávio Combat, manteve sua projeção de 2,2% para a expansão da indústria em 2012, porque espera incentivos mais fortes do governo para impulsionar o setor e a recuperação da economia mundial a partir do segundo semestre.

"A indústria ainda não está acompanhando os estímulos oferecidos pelo governo. Ele pode reativar a indústria via crédito direcionado do BNDES, que teve sua primeira queda desde 2003 no ano passado. Possivelmente veremos outro tipo de pacote mais amplo nesse sentido", diz Combat.

Para fevereiro, os economistas ouvidos trabalham com alta de 0,5% a 1% na produção frente a janeiro na série dessazonalizada, em linha com os números do mês passado divulgados pela Anfavea. Segundo a entidade que reúne as montadoras, a produção de veículos - entre automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus - cresceu 2,9% em relação a janeiro.

Para o primeiro trimestre como um todo, porém, a perspectiva é de ritmo lento, diz Tucakov. "O relaxamento monetário e das medidas macroprudenciais ainda não desobstruiu totalmente o canal do crédito. No segundo semestre haverá um efeito maior da política expansionista."

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