Inovação tem longo caminho no Brasil, diz reitor do ITA

“O Brasil vai crescer nos próximos anos e esse crescimento já está comprado, o que não está certo ainda é o perfil dessa expansão. O risco maior é o de uma especialização regressiva, com alto consumo de importados e produção de baixo valor agregado.” Assim avalia o atual cenário o professor Carlos Américo Pacheco (foto), reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, um dos poucos centros de referência de desenvolvimento de tecnologia no País. “O aumento expressivo da renda sem aumento equivalente da produtividade, como acontece hoje no Brasil, é insustentável no longo prazo. Só a inovação tecnológica pode equalizar essa situação”, disse Pacheco em palestra na sexta-feira, 16, na Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK), em São Paulo.

Para o reitor do ITA, as perspectivas para o Brasil são “excepcionais” no médio e longo prazos. Contudo, o País tem ainda um longo caminho a percorrer para implantar o que chamou de “cultura da inovação” no tecido social. “É um imperativo para a concorrência e 40% do crescimento vai depender do grau de inovações a ser atingido.”

Pacheco lembrou que “inovar é gerenciar riscos” e as empresas só fazem inovação de acordo com sinais econômicos, como câmbio, custo de capital (juros), eficiência industrial, salários e disponibilidade de recursos humanos. O País ainda está aprisionado à armadilha do custo alto de capital e câmbio apreciado. Ao mesmo tempo, o capital humano voltado ao desenvolvimento tecnológico é insuficiente – aqui existem menos de dois engenheiros para cada 10 mil habitantes, enquanto na Coreia do Sul esse índice é acima de 16. Em todos esses aspectos, o Brasil tem situação adversa à inovação. “A política industrial do governo sozinha não consegue sustentar o ambiente de negócios adverso.” O professor defende a maior concessão de incentivos à inovação, “para diluir o risco das empresas e induzi-las a investir”.

Otimismo
Embora veja o futuro com otimismo, Pacheco destacou precisa rapidamente acelerar o passo do desenvolvimento tecnológico para acompanhar o resto do mundo, que avança mais rápido. Para ele, é preciso criar uma agenda econômica para a inovação no País. “Não andamos na mesma velocidade do resto do mundo e não temos uma agenda agressiva de suporte à inovação. Por isso nossa produtividade cresce abaixo das economias desenvolvidas.”

Pacheco avalia que o País tem uma estrutura industrial frágil em pesquisa e desenvolvimento, que fica mais restrita às universidades. Para mudar esse quadro, ele sugere o aprimoramento do sistema nacional de incentivos. “O Brasil melhorou significativamente os incentivos à inovação com a chamada Lei do Bem, mas ainda não é o suficiente. Existe ainda um conjunto importante de melhorias a ser implementado.”

Protecionismo transitório
Sobre o pendor protecionista demonstrado pelo governo nos últimos meses, Pacheco avalia que algumas medidas de proteção são “exageradas” – como o aumento do imposto para veículos importados. “A adoção de defesa comercial não é boa para a competitividade. São medidas direcionadas à velha indústria, que ainda emprega muita gente no Brasil, mas podem ser justificáveis por um período de transição”, disse.

O professor lembrou que a adoção de agendas de desenvolvimento setorial é demorada, enquanto a regulação de mercado pela tributação é bem mais rápida, por isso o governo lançou mão da elevação de tributos para veículos importados. “Não é grande problema se for transitório, como acredito que seja. O mais importante é que sejam criadas cláusulas de incentivo a pesquisa e desenvolvimento da indústria”, finalizou.




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