Desindustrialização é maior ameaça para a siderurgia latino-americana

A tentativa de reverter a tendência de desindustrialização que se alastra pela maioria dos países da América Latina é o maior desafio que terá que enfrentar, disse ao Valor o mexicano Raul Gutiérrez Muguerza, diretor-geral do grupo siderúrgico do México Deacero SA e recém-eleito presidente da Asociación Latinoamericana del Acero (Alacero, ex- Ilafa - Instituto Latino-americano de ferro e aço).

Ontem, na última sessão do 52º Congresso Latino-americano de Siderurgia, realizado no Rio, Muguerza apontou como o segundo desafio que o espera, no mandato de um ano à frente da entidade, a busca pela integração latino-americana para enfrentar a ameaça da China, que responde atualmente por 71% das importações de manufaturados das quatro maiores economias da região: México, Brasil, Colômbia e Argentina. Este percentual é 30 vezes o que esses países exportam em bens manufaturados para o mercado chinês.

"Podemos nos complementar muito bem e criar uma força maior para produzir manufaturas capazes de competir melhor globalmente". Na avaliação do novo presidente da Alacero, China se converteu no maior produtor de produtos industriais do mundo e, além de fabricar todo tipo de bens em uma quantidade muito significativa e muito acima da escala economica que existe nos países latino-americanos, os vende a preços de custo tão baixos que torna difícil a competição.

Avesso a políticas ortodoxas, que grassaram na América Latina nos anos 90 e pregavam o crescimento baseado nas exportações em detrimento do mercado interno, e que não geraram crescimento econômico, Muguerza defende as políticas industriais modernas que não busquem o protecionismo, nem o retorno ao passado. "O que prego é uma nova política industrial que possa promover com responsabilidade políticas públicas que gerem maior investimento e maior inovação dentro dos mercados domésticos dos países.

Segundo ele, em toda a América Latina somente o Brasil tem um programa de política industrial. O México e os demais países não contam com essas políticas. No caso mexicano, em especial, destaca que "política indústria não existe naquele país". As políticas industriais, se implementadas em conjunto com Estado e iniciativa privada, podem ajudar a região a se proteger contra o contágio da crise que atinge os países desenvolvidos, receita.

"Se a crise é um risco para o continente, também a vejo como uma oportunidade para melhorarmos os mercados internos. Como América Latina estamos muito bem posicionados na macroeconomia e isto pode ser uma oportunidade para crescermos mais que os outros países porque esta situação nos dá vantagens em relação a eles", diz Muguerza.

O Congresso da Alacero reuniu mais de 1mil participantes e focou na questão da desindustrialização da cadeia metal-mecânica dos principais países do continente, confirmando as preocupações do novo presidente da entidade.

André Gerdau, presidente do grupo Gerdau, durante encerramento do evento, previu que o consumo per capita de aço no Brasil este ano vai encolher. De 137 quilos per capita em 2010, vamos fechar 2011 com 134 quilos. Na China esse índice é de 427 quilos e na Coreia do Sul, de 1077 quilos.

Para o executivo de um dos maiores grupos da siderurgia global, a taxa de cambio é um dos fatores que inibe o crescimento desse consumo, pois " estimula as importações diretas e indiretas de aço". Gerdau deu outro dado preocupante: a participação da indústria brasileira no PIB caiu de 18,1% em 2005 para 15%,8 em 2010.

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