Indústria reduz uso de energia, mas custo cresce

O aumento do custo da energia tem feito a indústria brasileira concentrar esforços na busca da eficiência energética, principalmente a partir de 2008, mas esses investimentos não têm compensado o aumento do preço da energia elétrica nos últimos anos, segundo companhias ouvidas pelo Valor. A química Basf reduziu em 22% o seu consumo de energia elétrica desde 2002 com investimentos em eficiência que envolveram desde a utilização de equipamentos mais novos até treinamento de funcionários. Desde 2008, a empresa tem investido cerca de R$ 10 milhões ao ano para obter esse resultado. "Fizemos isolamentos de caldeiras e passamos a aproveitar a água quente que era descartada na geração de mais vapor", conta o gerente de energia e utilidades da Basf, Waldemilson Muniz. Os gastos com energia elétrica, no entanto, cresceram 24% no mesmo período, com expectativa de aumento de 9% a 11% neste ano. "Os esforços não compensaram o aumento de custo da energia", diz ele.

Essa também é a conclusão da Braskem, cujo peso do custo da energia elétrica no total da produção já foi de 2,5% em 2004, e hoje está em 5%. Em compensação, desde 2002, houve uma redução de 10% no consumo de energia em relação ao total produzido no conjunto das fábricas. Segundo André Gohn, diretor de energia da companhia, o aumento dos preços e a pressão por redução de consumo e poluição têm sido os maiores estímulos para o incremento de investimentos em eficiência energética. "O grande problema no Brasil são os aumentos dos encargos na conta de energia elétrica", diz.

Apesar da empresa não separar o total dos gastos em eficiência, Gohn conta que a empresa passou a tratar esses investimentos de forma mais intensa e estruturada em 2008, ano em que dois novos encargos foram criados, o Energia de Reserva (EER) e o Encargo de Segurança Energética (ESS). "Esse investimentos, porém, não se reverteram em energia mais barata", diz.

A Companhia Suzano de Papel e Celulose investiu, em média, R$ 10 milhões ao ano desde 2008 em eficiência energética e conseguiu reduzir seu consumo por tonelada produzida em 10% no período. Os gastos da empresa com energia elétrica na produção, porém, não caíram. O custo da eletricidade corresponde hoje a 8% do total das despesas. "O que acontece no Brasil é que há uma grande quantidade de encargos na energia, o que compromete a busca de redução dos gastos com o insumo", diz Ernesto Pousada, diretor-executivo de operações da Suzano.

"Os papéis dos encargos na conta de energia são confusos, pois a tarifa sustenta políticas públicas, mas por outro lado você encarece muito a base das cadeias produtivas e prejudica o consumidor", reclama Paulo Pedrosa, presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).

Segundo acompanhamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a relação entre produção industrial e consumo de energia pela indústria mudou nos últimos anos, mostrando o resultado dos investimentos privados. Enquanto nos cinco anos anteriores ao racionamento de energia de 2001 a produção industrial cresceu 11,6%, e foi acompanhada por uma alta de 22,3% no consumo de eletricidade das companhias, nos últimos dez anos a produção subiu 42,8% e o consumo de energia, 48,3%.

Apesar do percentual do crescimento do consumo de eletricidade ter ficado um pouco acima do da produção, ele sofreu uma distorção em 2004, quando o consumo das empresas com contratos de energia no mercado livre foi incorporado ao acompanhamento da EPE. Desde 2005, os gastos com energia têm crescido em ritmo semelhante ao da produção, enquanto que, no período pré-apagão o ritmo do consumo de energia era o dobro do da produção.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1998 a 2007, o custo da energia passou de 1,48% para 1,62% do custo geral da produção da indústria. O aumento foi puxado pelo setor de transformação, onde o custo aumentou de 1,4% para 1,6%, enquanto a indústria extrativa conseguiu reduzir de 3,5% para 1,8% o peso do insumo nas despesas totais.

O custo da energia para a indústria ocorre tanto pelo aumento de encargos, quanto pelo fim de uma espécie de subsídio, existente entre 2003 e 2007, que fazia com que o custo da geração ficasse mais baixo para a indústria que para o setor residencial. Desde 2003, a tarifa de energia para o setor industrial cresceu 80%, passando de R$ 131 por MW/h para R$ 237 o MW/h, descontando o ICMS. A tarifa residencial cresceu 24% no mesmo período, e a comercial, 28%.

O que para o governo é o fim de um subsídio, para o setor industrial foi uma dificuldade. "O que ocorreu de 2003 a 2007 não foi o fim de um subsídio, mas uma mudança de lógica do governo que prejudicou a indústria", diz Pedrosa, da Abrace. A lógica que as empresas defendem, segundo Pedrosa, é de que quem compra um produto em quantidade maior, paga menos.


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