ArcelorMittal usa poluição para fazer insumo químico

A cada tonelada de aço produzida pela ArcelorMittal na Usina de Tubarão, no Espírito Santo, são gerados 2,51 quilos de dióxido de enxofre (SO2). Com capacidade para 7,5 milhões de toneladas de aço por ano, as chaminés do complexo siderúrgico capixaba têm potencial para emitir 19 milhões de toneladas do elemento químico que, além de poluir o ar, resulta em chuva ácida quando misturado ao oxigênio e ao vapor d'água da atmosfera - causando erosões de solo, corrosão de florestas e poluição de rios e mares.

A empresa começa, agora, a dar um destino comercial ao que era poluição. Ela acaba de inaugurar o Sistema Claus - tecnologia importada da Alemanha para fazer a dessulfuração de vapores de amônia que sairiam da chaminé 1 da segunda coqueria da usina. "Essa instalação permite uma redução de 25% na emissão de SO2 do complexo de Tubarão", diz o gerente ambiental da siderúrgica, Guilherme Corrêa. Conforme o executivo, a segunda coqueria de Tubarão reduzirá 60% sua emissão, pois o Claus processa a fumaça adicionando hidrogênio à amônia presente no SO2 para, assim, extrair enxofre sólido.

A siderúrgica investiu US$ 27,28 milhões para instalar a tecnologia pela primeira vez na América Latina. A capacidade produtiva é de 20 toneladas por mês. A empresa produzirá inicialmente de 2 a 3 toneladas para vender à indústria química.

Enxofre é gargalo
Embora a produção da ArcelorMittal seja pequena, a deficiência do Brasil no abastecimento do produto torna a investida importante para os segmentos químico e de fertilizantes. O país importa 80% da massa verde-limão do enxofre, usada como matéria-prima para a fabricação de celulose, cosméticos, tintas e até pneus.

O insumo é gargalo do agronegócios. Mais de 60% do enxofre consumido no Brasil é aplicado em superfosfatados, base da produção de fertilizantes. "O enxofre é um mineral crítico na cadeia produtiva de fertilizantes, que tem oito produtos, sendo que cinco deles dependem do ácido sulfúrico feito com enxofre", diz David Siqueira Fonseca, especialista do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

O país importou 1,9 milhão de toneladas de enxofre em 2010. Embora os US$ 243 milhões pagos seja pouco perto dos R$ 251,5 bilhões do valor bruto da produção agrícola (o PIB do agronegócio no ano passado), flutuações no preço do insumo são um problema. Foi o que ocorreu entre 2007 e 2008, em meio a especulações sobre o déficit dos fertilizantes ante a demanda por alimentos. A tonelada saltou da média de US$ 60 para mais de US$ 400. O custo total da importação brasileira pulou, então, de US$ 214 milhões para US$ 1,1 bilhão no período.

Projetos em fosfatados de empresas como Vale e Verde Fertilizantes devem imprimir novo ritmo de crescimento na compra externa. "Se todos os projetos entrarem em operação, as importações de enxofre devem aumentar", avalia Fonseca. Segundo o geólogo, existem poucas reservas minerais de enxofre no mundo. O que faz a maior parte da produção ser subproduto do refino de petróleo e gás. Isso tornou a Petrobras na maior fornecedora brasileira.

A metalurgia europeia e a americana também produzem como subproduto do aço, cobre, zinco, entre outros metais. Elas recuperam o enxofre como condicionante para atender legislações ambientais. Esta é a visão que a ArcelorMittal está trazendo com o Claus.
A empresa decidiu investir no sistema como contrapartida na obtenção de licenças para ampliar a  capacidade de Tubarão, em 2004, quando elevou a produção em 2,5 milhões de toneladas com US$ 1,8 bilhão. O Claus começou a funcionar em fevereiro na primeira coqueria de Tubarão, inaugurada em 1983. A segunda coqueria ganhou um método de filtragem de poluentes em 2007, quando a expansão foi concluída.

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