Brasil deve redirecionar indústria e tecnologia

Para o ex-presidente do BNDES, Antônio Barros de Castro, o desenvolvimento asiático pode ajudar indústria brasileira

Se quiser sustentar sua indústria, o Brasil precisa urgentemente de uma estratégia capaz de apoiar um plano para os próximos dez a 15 anos, com propostas de relacionamento econômico e comercial com a China, alerta o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Antônio Barros de Castro, consultor do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). "A indústria do Brasil foi remodelada para competir com Estados Unidos e Europa, e se vê num vazio, se tornou internacionalmente descartável", disse Barros de Castro, um dos principais especialistas em política industrial do país. "É uma indústria sem relevância, ressalvados alguns pontos."

Barros de Castro, que voltou recentemente de uma viagem à China, onde também acompanhou as discussões políticas do 12º Plano Quinquenal, diz que o país, "ávido por transformação", está modernizando seus processos produtivos e ampliando o conteúdo tecnológico de seus produtos, o que abre oportunidades para o Brasil apresentar propostas de desenvolvimento conjunto. "Estão interessados em tudo que diga respeito a indústrias verdes, por exemplo", exemplifica o economista. "A indústria automobilística chinesa não têm interesse em etanol combustível, mas usa muito plástico, podemos investir em plástico baseado em etanol".

Para o economista, os modelos anteriores, de busca de produtos competitivos com os chineses ou de nichos de mercado na China, são insuficientes para garantir sustentação da indústria brasileira. A indústria, no Brasil, cada vez mais, será afetada pelos efeitos macroeconômicos - como a valorização do real e o aumento de importações baratas - da gigantesca demanda chinesa por matérias-primas e insumos do Brasil, como petróleo, minério de ferro e outros metais, alimentos ou pastas de madeira.

Para aproveitar a expansão chinesa, será preciso participar do desenvolvimento industrial asiático, criando novas indústrias e aproveitando vantagens competitivas brasileiras, defende Castro. "A Petrobras, por exemplo, precisará de ligas de aço sofisticadíssimas, para o pré-sal. É esse tipo de tecnologia de usos múltiplos em que precisamos investir, não na construção de estaleiros", indica.

O economista diz que a China passou a ter, nos últimos anos uma característica surpreendente em seu modelo de desenvolvimento: há dez anos, imaginava-se que o seu crescimento exigiria adaptações em todas as partes do mundo. Agora é a própria China que está se adaptando a um novo perfil, de mercadorias baseadas em conhecimento, buscando garantir matérias-primas em todo o mundo e voltada ao aumento de consumo interno. "A China também está construindo a infraestrutura mais eficiente do mundo", nota Barros de Castro, ressalvando que o país é apenas a "ponta de lança" de um sistema altamente competitivo de países asiáticos interligados, do Japão ao Vietnã.

"O chinês fala da complementaridade China-Brasil, mas esse é o problema", insiste. O Brasil, com a receita prevista da venda de petróleo, minérios e grãos, tem possibilidade de sustentar suas contas externas, enquanto faz as adaptações necessárias ao futuro, movido pela economia chinesa, aponta Castro. "Talvez o Brasil tenha alguns anos para transitar a uma situação melhor, redirecionar indústrias e tecnologia, para explorar o mercado chinês", diz. "Também teremos de estar lá, em indústria, basicamente criativa."

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