Enxurrada asiática ameaça autopeças

A enxurrada de produtos e matérias-primas asiáticos tem sido cada vez mais presente no mercado nacional. Principalmente quando se trata da indústria automobilística, que graças a diversos componentes importados, principalmente da China, bateu recordes de produção e vendas em 2010.

Dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), mostram que foram fabricados 3,6 milhões de veículos no ano passado e licenciados 3,5 milhões. Em relação a 2008, quando a economia estava a pleno vapor - até ser atingida pela crise no último trimestre -, a alta é de 13% e 24,6%, respectivamente.

Para efeito de comparação, as autopeças, braço-direito das montadoras, devem aumentar seu faturamento em apenas 6% em relação a 2008. Dados preliminares do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) apontam que as vendas do setor devem encerrar 2010 em R$ 79,7 bilhões.

Hoje, quase não se fabrica mais um farol de automóvel no País. Ele vem pronto de fora, tirando o trabalho de quem produz o acrílico, os parafusos, as lâmpadas e molas, por exemplo. Esse bem-bolado, que junta itens importados com a mão de obra nacional e barateia o custo das peças está gerando processo de desindustrialização, inviabilizando a sobrevivência das pequenas autopeças.

Isso acontece devido às condições da economia, extremamente favoráveis ao ingresso de tudo o que vem do Exterior. O dólar está baixo, na casa do R$ 1,67, a taxa básica de juros, a Selic, alta, atualmente em 11,25% e com perspectiva de chegar a 12,5% até o fim do ano, e a carga tributária, devastadora, chegando a 37% do PIB (Produto Interno Bruto) - a da China, para se ter ideia, é de 20%.

"A indústria nacional está sendo bombardeada. Se essa situação não for revertida, aqui no Grande ABC, principalmente, muitas autopeças serão fechadas, já que até moldes usados são importados", diz Ernesto Moniz, proprietário da Metalúrgica Moniz, de Ribeirão Pires. Sua empresa de usinagem produz eixos, tampas e cortes de chassi, entre outros.

Na região, o segmento só fica atrás das montadoras, sendo o segundo que mais gera emprego, com 26 mil trabalhadores.

"O Brasil exporta minério de ferro e importa o aço de volta ao País. Daqui a alguns anos, vai deixar de se caracterizar pela produção para ser constituído apenas por comércio, serviços e entretenimento. Prova disso é a participação da indústria no PIB, que nas décadas de 1980 e 1990 era de 47% e, hoje, chega a 27%."

Saída
"Se não pode com eles, junte-se a eles", já diz o ditado. É o que têm feito os empresários de autopeças para sobreviver nesse mercado. Muitos deles estão aderindo à prática das importações e adicionando matéria-prima asiática em seu produto.

É o caso de Claudio Armitoro, diretor da Ecoplas, de São Caetano, que desde 2007 importa aço e polímeros da China para compor seus cabos e acionamento para veículos. "Essa foi uma forma de sobrevivência legal que encontrei. Meu produto final ficou 40% mais barato. A concorrência no meu setor é desleal, eles conseguem itens até 20% mais baratos que os meus. Acredito que essa diferença se dê pelo não pagamento de impostos".

Na avaliação do diretor da regional de São Caetano do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), William Pesinato, a importação da matéria-prima é solução paliativa. "Essa diferença gritante dos preços dos itens asiáticos para os nossos deve diminuir nos próximos anos, pois eles estão se desenvolvendo e devem se incomodar com o pouco que ganham."

Para Pesinato, a menos que essa se torne uma preocupação do governo, o fim desse problema está longe de existir. "O governo tem de parar de gastar muito e errado. Se isso fosse eliminado, a carga tributária poderia ser menor e, portanto, haveria mais espaço para as indústrias se desenvolverem."

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