EUA impõem obstáculos à declaração do G8 sobre clima

Fonte: O Estado de S. Paulo - 14/05/07

Os EUA rejeitam menções a metas e cronogramas, não querem que a ONU envolva-se profundamente e recusam-se a endossar o comércio de carbono

Os Estados Unidos estão tentando diluir uma declaração sobre o aquecimento global, a ser feita na cúpula do Grupo dos Oito (G8), em junho, o que deixa o país em rota de colisão com a anfitriã Alemanha, disseram na sexta-feira, 11, pessoas familiarizadas com as negociações.

Em um projeto da declaração datado de abril de 2007 e visto pela Reuters, os EUA se opõem à inclusão de uma promessa de limitar o aquecimento global em 2º Celsius neste século e cortar, até 2050, as emissões de gases do efeito estufa para um patamar 50% abaixo do registrado em 1990.

Os EUA também questionam se a Organização das Nações Unidas (ONU) seria o melhor fórum para enfrentar a crise do clima e rejeitam a parte do documento na qual se afirma que os mercados de carbono são ferramentas essenciais para o desenvolvimento e a utilização de tecnologias menos agressivas ao meio ambiente.

"Eles rejeitaram todas as menções a metas e cronogramas, não querem que a ONU envolva-se mais profundamente e recusam-se a endossar o comércio de carbono porque isso, por definição, envolve a fixação de metas", afirmou uma fonte que não quis ter sua identidade revelada.

Os líderes da Grã-Bretanha, dos EUA, do Canadá, da Rússia, do Japão, da Itália e da França participarão da cúpula a ser presidida pela Alemanha e realizada na cidade de Heiligendamm (um balneário do mar Báltico), de 6 a 8 de junho.

Também participam do encontro os chefes de Estado da África do Sul, do Brasil, do México, da China e da Índia, alguns dos maiores países em desenvolvimento do mundo.

A chanceler alemã, Angela Merkel, está determinada a ver aprovadas declarações que fixam um compromisso com uma ação global relativa ao aquecimento e ao fornecimento de energia, mas encontra uma resistência cada vez maior dos EUA (a quem se aliou o Canadá).

"Há em andamento um jogo de pôquer muito acirrado, o que é algo bastante decepcionante neste estágio já tardio e em vista da escala do problema atual", disse uma outra fonte familiarizada com as negociações.

"Trata-se de uma pergunta ainda em aberto, se Merkel estará preparada para aceitar uma declaração menos incisiva ou se romperá com a tradição do G8, declarando um fracasso na questão climática. De toda forma, a tinta ainda não terá secado quando a declaração for divulgada", disse a fonte.

Cientistas prevêem que as temperaturas médias do planeta vão subir entre 1,8º C e 3º C neste século, devido aos gases de carbono produzidos na queima de combustíveis fósseis, nos setores de transporte e energia.

Esse aumento das temperaturas provocará mais enchentes, secas e fome, colocando a vida de milhões de pessoas em risco.

O Protocolo de Kyoto é o único acordo mundial prevendo limitações à emissão de carbono. Mas o tratado foi rejeitado pelos EUA em 2001, não impõe metas compulsórias à China e à Índia e deixa de vigorar em 2012.

As negociações para prorrogar o acordo e estendê-lo para além de 2012 estão quase paralisadas, e os diplomatas esperavam que a cúpula do G8 divulgasse uma declaração forte o suficiente para reavivá-las.

Segundo esses diplomatas, o encontro em Heiligendamm poderia alimentar as esperanças de que um encontro de ministros do Meio Ambiente a ser realizado em Bali, em dezembro, consiga acertar os princípios básicos das negociações pós-2012.

Um fracasso na Alemanha acabaria por adiar o processo ainda mais, o que aumenta o risco de se formar um vácuo após o final do Protocolo de Kyoto - prevê-se que seriam necessários vários anos para negociar e ratificar um acordo capaz de suceder o tratado atualmente em vigor.



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