Setor siderúrgico começa a sair do sufoco

Aspecto negativo ficou por conta dos resultados financeiros, afetados por ajustes contábeis

Foto: Divulgação

Depois da forte queda no consumo de aço no Brasil iniciada no final do ano passado, as siderúrgicas começam a apresentar alguma recuperação nos volumes de vendas e já esperam uma retomada mais consistente no segundo semestre. Os resultados do segundo trimestre apresentados nos últimos dias pelas três maiores siderúrgicas de capital aberto - CSN, Gerdau e Usiminas - apontam para um aumento dos volumes em comparação com o primeiro trimestre, embora os dados ainda sejam muito inferiores aos do mesmo período do ano passado.

O aspecto negativo ficou por conta dos resultados financeiros, que foram afetados por ajustes contábeis, como foi o caso da Gerdau. A apreciação do real também prejudicou o desempenho das exportações, embora tenha reduzido o endividamento em moeda estrangeira. De acordo com as empresas, a maior demanda da indústria e a redução dos estoques de aço em toda a cadeia de produção ajudaram a impulsionar os volumes.

As vendas de aço da CSN cresceram 47% no segundo trimestre, em comparação com o primeiro trimestre, somando 1,327 milhão de toneladas, embora apresentem queda de 29% ante o mesmo intervalo de 2008. No caso da Usiminas, o avanço foi de 14,3% no período, para 1,187 milhão de toneladas. O resultado ainda é 38% inferior ao ano passado.

A Gerdau, produtora de aços longos, vendeu 3,378 milhões de toneladas no trimestre, alta de 10,4% em comparação com os três primeiros meses do ano, e recuo de 38% ante o segundo trimestre de 2008. "A demanda começou a reagir conforme era esperado", disse Leonardo Alves, da Link Investimentos.

Diante desta retomada, a Gerdau cancelou seu plano de abafar o alto-forno 2 da Gerdau Açominas, que ocorreria junto com a retomada do alto-forno 1, de maior porte. Segundo os analistas de mercado, o resultado das empresas ainda está muito longe dos níveis de 2008, mas as perspectivas anunciadas neste trimestre foram animadoras.

Depois de uma queda de preço de 9% a 14%, as companhias prevêem estabilidade do preço do aço no mercado interno, mas tanto a Usiminas quanto a CSN enxergam um viés de alta para os preços nos próximos meses. Este otimismo se baseia no aumento gradual dos preços do aço no mercado externo, que dará mais conforto para reajustes internos.

Para o analista do banco Sicredi, Carlos Kochenborger, o pior já passou para a indústria siderúrgica, embora ainda existam muitas dúvidas sobre quanto tempo levará para que o setor retome os níveis de 2007 e 2008. "Não se tem uma idéia exata do que é recuperação e o que é recomposição de estoques", disse.

 

CSN considera que "ainda é cedo" para definir

Nesta sexta-feira (7), a CSN informou que "ainda é cedo" para definir a estratégia de preços porque é preciso ter mais segurança sobre os fundamentos do mercado, o que levará algumas semanas para ocorrer. "Todos os resultados foram prejudicados pela crise, mas a expectativa é de melhora", afirmou o analista Pedro Galdi, da SLW Corretora. Segundo ele, a indústria automotiva brasileira e a linha branca devem gerar uma demanda adicional no Brasil.

Nos Estados Unidos, o pacote de estímulo de consumo de automóveis deve começar a dar resultados no quarto trimestre para a Gerdau, que concentra metade das suas vendas na América do Norte. Outro destaque no segundo trimestre foi o aumento da participação de mercado da CSN sobre a Usiminas. No segundo trimestre, a fatia da CSN em aços planos cresceu três pontos percentuais para 40%, o que foi considerado um aumento expressivo no momento atual de disputa pelo mercado interno, que tem melhores preços.

Segundo o analista da Corretora Geração Futuro, Rafael Weber, o ganho ocorreu porque a CSN mantém parcerias com distribuidores independentes de aço, enquanto a Usiminas está investindo no seu próprio canal de distribuição. No ano passado, a empresa comprou a distribuidora Zamprogna e optou por apresentar os resultados deste negócio separadamente. "Os distribuidores independentes privilegiaram a CSN", disse.

De acordo com Weber, este efeito pode ser revertido quando a Usiminas consolidar suas operações de distribuição. Na visão de Galdi, da SLW Corretora, a CSN foi mais agressiva em relação a preço porque ela tinha uma produção muito maior para desovar no mercado. "A CSN operou com 75% da sua capacidade, enquanto a Usiminas operou com 50%", disse.

 

Vantagem

Outra vantagem da CSN, segundo o analista do Sicredi, é que sua base de clientes é mais pulverizada e sua linha de produtos é mais diversificada por incluir galvanizados e folhas metálicas para embalagens. Nos próximos meses, a continuidade da melhora dos resultados vai depender não apenas da demanda da indústria brasileira, mas do comportamento dos preços internacionais do aço, que podem proteger as siderúrgicas brasileiras da concorrência com os importados, caso sigam em tendência de alta.

Em relação aos resultados financeiros, a Gerdau teve o pior desempenho devido a um efeito cambial sem efeito caixa. A companhia registrou prejuízo de R$ 329 milhões no segundo trimestre porque adotou o padrão contábil internacional (IFRS, na sigla em inglês) e teve de fazer o chamado teste de recuperação, pelo qual é verificado se o valor contábil dos ativos está atualizado.

Este efeito líquido, após o Imposto de Renda, foi de R$ 796 milhões no resultado. Se fossem desconsiderados estes efeitos, o resultado do trimestre seria positivo em R$ 467 milhões. No caso da Usiminas, o lucro líquido foi de R$ 369 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 112 milhões do primeiro trimestre.

O desempenho foi atribuído principalmente ao ganho cambial com a desvalorização do dólar frente ao real. Mesmo assim, o resultado ainda ficou 63% abaixo dos R$ 988 milhões de lucro no segundo trimestre do ano passado. A CSN registrou lucro líquido de R$ 335 milhões no segundo trimestre de 2009, uma queda de 68% sobre o R$ 1,031 bilhão de igual período de 2008.

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