Brasil se torna foco das montadoras chinesas


Nos próximos dias, a montadora Chery, maior marca de automóveis chinesa, se instala oficialmente no Brasil. O que deve significar o aumento da competição dentro do mercado automotivo brasileiro, com outras montadoras chinesas chegando ao País, também trazendo mudanças para o setor por aqui.

Para a sua consolidação, a chinesa Chery importará o utilitário esportivo Tiggo do Uruguai. Esse é o primeiro movimento da montadora que, de olho no crescimento do mercado brasileiro, já anunciou a instalação de sua sede em Salto (SP).

A produção local também já está sendo estudada e o investimento poderá chegar a US$ 700 milhões no País. "As nossas expectativas são as melhores possíveis. Esse é um mercado que está tendo recorde sobre recorde em vendas de carros. O mercado brasileiro está sendo monitorado há dois anos pela Chery", afirmou ao DCI o CEO da Chery do Brasil, Luís Curi.

O aporte do Grupo JLJ, controlador da Nutriplus Alimentação e Tecnologia, viabilizou as instalações da Chery no Brasil em Salto onde já funciona a sede do JLJ. Até o final deste ano, a perspectiva da Chery é comercializar 2,5 mil unidades, não só do Tiggo, mas também de outros três modelos que chegarão ao País até o final do ano. Outros automóveis estão previstos para 2010, inclusive carros com a tecnologia flex fuel. "A Chery também quer oferecer um carro completo e todo equipado", disse Curi. O Tiggo deve ser vendido a partir de R$ 49 mil.

A estratégia é entrar no mercado com força e, para isso, 50 pontos de revenda estão programados também para 2009. A expectativa, agora, é de quais modelos da marca chinesa terão mais receptividade no Brasil e que deverão ser produzidos localmente. A empresa afirma que é um plano "em um curto prazo", mas também admite que não está definido o local para a sua planta, segundo a assessoria de imprensa da montadora. "Sem dúvida a Chery tem a estratégia de ter muita competitividade com uma planta local, tanto para abastecer localmente quanto a América do Sul. A produção está em estudo e foi criado um comitê para o projeto de fábrica", disse o CEO da montadora. Segundo o executivo, nesse primeiro momento, metade dos modelos que virão ao Brasil serão importados do Uruguai. O restante da própria China.

Mudanças
"Diante desse novo movimento econômico do mundo, fica para os países em desenvolvimento a grande oportunidade, pois são novos centros de consumo e esse é o motivo da vinda da nova marca ao Brasil", afirmou a professora de Planejamento e Análise Econômica da Fundação Getulio Vargas (FGV), Celina Ramalho.

Segundo a professora da FGV, a indústria automobilística brasileira sempre sofreu com os reflexos do panorama econômico mundial e que a chegada de uma nova marca chinesa, querendo instalar sua produção no País, é típico desse novo movimento do globo, com destaque para os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). "Além disso, certamente essa nova marca viu o apoio do Estado ao setor automotivo do País", disse Celina.

Já para o consultor da Molicar, Vitor Meizikas, o perfil de compra do consumidor brasileiro é mais um ponto que pode atrair outras marcas chinesas. "Eles estão entrando agressivamente. O mercado brasileiro é propício, já que o consumidor está preocupado com o preço mais baixo", afirmou. Ele explicou que o primeiro momento da chegada de novas montadoras também se estabelece um período de análise, quando o mercado saberá como será o serviço do pós-venda, como reposição de peças e manutenção, e também o preço do veículo no mercado de usados.

O consultor também lembrou sobre a entrada nos últimos anos de diversas marcas chinesas no setor de duas rodas, que se aproveitaram dos incentivos da Zona Franca de Manaus e que hoje possuem uma parcela significativa do mercado. "Essa experiência esta sendo levada agora para os automóveis e eles devem ter êxito, já que público quer um carro zero", salientou Meizikas.

A entrada das montadoras chinesas deve trazer, ainda, mudanças para as montadoras que já estão instaladas no Brasil, segundo análise de Alexandre Andrade, da Tendências Consultoria. "A concorrência tende a aumentar ainda mais e isso vai obrigar as montadoras a investirem, tanto na melhoria de seus produtos, quanto na produção de carros em segmentos que eles ainda não atuam", disse.

De acordo com o consultor, as chinesas têm a intenção de participar com "modelos de entrada". "Eles pretendem oferecer um pacote de opcionais mais completo do que as que já estão aqui", concluiu Alexandre Andrade, lembrando que o aumento da concorrência pode ser benéfica para o consumidor.

Dessa forma, a disputa por um espaço no mercado brasileiro não deve parar por aí, e outras montadoras chinesas já demonstraram vontade de abrir horizontes e marcar território em locais em que vislumbram crescimento. O governo do Rio de Janeiro negocia, além da Chery, com outras duas montadoras chinesas a instalação de unidades no norte do Estado.

O governador Sérgio Cabral e o empresário Eike Batista iniciaram conversas na China com a Build Your Dreams (BYD) e a JAC para unidades produtivas no porto do Açu, complexo industrial do grupo EBX em fase de instalação em São João da Barra, no Norte Fluminense. A BYD poderia construir uma fábrica de carros elétricos no Açu, segundo Cabral. Já a direção da JAC, em especial, comunicou a Cabral o interesse de se instalar no Rio, por meio de uma parceria com a EBX, empresa de Eike.

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