Radiação gama permite reciclar óleos lubrificantes

Radiação gama remove elementos contaminantes e degrada compostos presentes em óleos lubrificantes automotivos usados

Foto: Marcello Vitorino/Fullpress


No detalhe, o óleo recuperado pelo processo químico convencional, o óleo que segue para reciclagem e as diferentes doses de radiação a que foram submetidas as amostras.

Pesquisadores do Centro Química e Meio Ambiente do Ipen utilizaram uma tecnologia que permite remover elementos contaminantes e degradar compostos presentes em óleos lubrificantes automotivos usados, substâncias tóxicas e danosas ao meio ambiente. Neste processo de reciclagem, a radiação gama foi a alternativa encontrada pelos cientistas.

Estudos recentes mostram que um litro de óleo lubrificante usado pode contaminar aproximadamente um milhão de litros de água. Um litro deste óleo pode poluir mil metros cúbicos de água e formar uma película de mil metros quadrados de superfície que impede as trocas entre o meio líquido e atmosfera, causando sérios danos à fauna e à flora aquática.

A produção de óleos lubrificantes no Brasil é de um bilhão de litros por ano e aproximadamente 20% é recolhido para reciclagem, por meio de técnicas convencionais, segundo dados do Sindicato das Indústrias de Refino. Desta parcela, 170 milhões são passíveis de recuperação, de acordo com dados de 2004.

Um volume de 120 milhões de litros ao ano tem destino desconhecido, podendo estar associado à queima ou descarte inadequado. Na Europa, o índice de reciclagem chega a 50%.

O projeto foi desenvolvido em escala piloto, em uma tese de doutorado de Marcos Scapin, orientado pela pesquisadora Ivone Mulako Sato, e vai gerar um pedido de patente. Segundo o pesquisador, ainda precisa de ajustes para otimização das doses e outras análises, como a influência de parâmetros como temperatura e pH.

O princípio do tratamento já é conhecido e aplicado a outros compostos. Chama-se processo de oxidação avançado utilizando radiação gama. O óleo é irradiado por uma fonte de cobalto-60, que promove a remoção de elementos inorgânicos, principalmente enxofre, cálcio, ferro e níquel.

A legislação ambiental estabelece níveis aceitáveis de alguns elementos contaminantes para o reúso dos óleos e proíbe qualquer descarte em solos, águas superficiais e subterrâneas, sistemas de esgoto e evacuação de águas residuais ou qualquer forma de eliminação que cause a contaminação atmosférica superior ao nível estabelecido.

Método
Os processos de oxidação avançada têm sido usados na proteção e conservação do meio ambiente, na destruição de compostos orgânicos tóxicos presentes em amostras ambientais, água potável, remediação de solos e efluentes industriais, explica Scapin.

Os pesquisadores testaram doses entre 10 e 500 quiloGray e obtiveram resultados satisfatórios com doses de 500 quiloGray, que no entanto ainda pode ser otimizada. Scapin também quer testar os gases produzidos no processo de irradiação.

Após o uso, os lubrificantes apresentam, em sua composição, compostos oxigenados e aromáticos de alta viscosidade, resinas, vernizes, aditivos não consumidos totalmente, metais do desgaste dos motores dos veículos, poeira e outras impurezas. Alguns desses compostos são potencialmente cancerígenos.

Pelos métodos convencionais de reciclagem do óleo e dependendo do processo ao qual o material foi submetido, podem ser obtidos produtos com qualidade similar ao original, óleos base para produção de novos lubrificantes e produtos secundários, utilizados em processos industriais e subprodutos como limpadores industriais, vernizes, material asfáltico, entre outros. O óleo reciclado não pode novamente ser utilizado para a mesma finalidade.

Coleta
Das 50 empresas que recolhiam o óleo usado em 1987, restaram cerca de 10 empresas, localizadas principalmente nas regiões sul, sudeste, centro-oeste, algumas cidades do Nordeste e nas capitais dos Estados que compõem a região Norte. A coleta é realizada junto aos postos de serviços, oficinas, empresas concessionárias e garagens de grandes frotas. Apenas uma empresa em São Paulo é responsável por quase metade de todo o processamento do material no país.

O produto coletado é estocado e classificado, a fim de se definir o processo ao qual será submetido e sua destinação. O resíduo inadequado para reciclagem ou para ser utilizado como combustível alternativo em alguns processos industriais é incinerado. Sobre essa parcela de óleo não reciclado, os dados não são confiáveis.

De acordo com levantamento realizado para a elaboração do trabalho, estima-se que uma fração seja utilizada para mistura com combustíveis em caldeiras e olarias e outra pequena fração, especialmente na zona rural, seja utilizada para o tratamento de madeiras.

Uma resolução Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) de 2005 obriga que todo o óleo utilizado seja reciclado e, na impossibilidade de re-refino, a incineração deve ser adotada, sob condições de controle de queima e emissão de gases. Portaria do Ministério das Minas e Energia estabelece a responsabilidade conjunta do produtor, do importador, do revendedor e do consumidor de óleo lubrificante pela sua coleta.

Embora o reprocessamento do material seja feito, existe um passivo ambiental de cerca de 120 milhões de litros por ano, cujo destino final do descarte não é conhecido. A pesquisa também aponta que este setor não tem apoio governamental no que diz respeito ao fomento para inovações tecnológicas. O estudo, de acordo com o autor, vem contribuir com o uso de tecnologias modernas que permitam melhor reaproveitamento do resíduo.

Análises
As amostras utilizadas nos testes foram fornecidas por empresa localizada no Rio de Janeiro e com filial em São Paulo. A irradiação foi realizada no Centro de Tecnologia das Radiações do Ipen. Depois de irradiado o material, as fases água e óleo foram separadas.
Algumas técnicas específicas foram adotadas para análises dos compostos orgânicos e inorgânicos presentes nas amostras irradiadas.

Além desses testes, foram realizados ensaios físico-químicos, de forma complementar, avaliando a cor, viscosidade e densidade do óleo obtido. O estudo também comparou os resultados obtidos pelo método em relação à amostra tratada por processo convencional, fornecido pela mesma empresa.

Na amostra em que se obteve maior eficiência na remoção de contaminantes entre todas as outras testadas ocorreu, por exemplo, uma redução de 68% de enxofre, marca 10% melhor em relação ao processo convencional. A presença de enxofre nos derivados do petróleo é indesejável. A queima do combustível provoca a geração de gases com compostos oxigenados de enxofre, que lançados na atmosfera contribuem com a ocorrência da chuva ácida.

Um dos compostos obtidos no processo de reciclagem do óleo lubrificante, por exemplo, pode ser empregado na composição de catalisadores, poliuretano para a produção de espuma, inibidor de processo de corrosão e tratamento de efluentes gasosos para a remoção de sulfeto de hidrogênio de dióxido de carbono.

Outras vantagens do método em relação aos processos convencionais, de acordo com os pesquisadores, é que não há utilização de agentes químicos e não ocorre a produção de rejeitos adicionais. “Trata-se de uma tecnologia limpa e ecologicamente correta”, conclui Scapin.



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