General Motors deve ter quarta fábrica no Brasil


Com pouco mais de seis décadas vividas e perto de completar 40 anos de casa, o vice-presidente da General Motors do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto, está elétrico e realizando sonhos. Nos últimos meses, como negociador da empresa, seu primeiro e único emprego, ele foi um protagonistas de dois marcos na história da montadora: a fábrica de Joinville, em Santa Catarina, que produzirá blocos e cabeçotes a partir de 2009, e o centro de distribuição de veículos no porto pernambucano de Suape.

Nem bem lançadas as pedras fundamentais das duas obras, dentro de aproximadamente 15 dias ele terá uma nova missão na direção do crescimento. Exporá na Câmara Municipal de São José dos Campos (SP), planos de um novo produto que poderá ficar a cargo da fábrica instalada naquela cidade do Vale do Paraíba, hoje com 9 mil empregados, 3 milhões de m² e operando em apenas um turno.

"Vamos levar à sociedade um projeto totalmente novo para consolidar a GM e aproveitar melhor o potencial da fábrica", diz. "Escolhemos a Câmara Municipal como local da negociação porque queremos dar conhecimento público de nossos planos", diz.

Com o sindicato dos metalúrgicos local, as relações são difíceis. Recentemente, a GM propôs segundo turno para a unidade, medida que envolveria aproveitamento de parte de efetivo ocioso e admissões sob novo regime de grade salarial e banco de horas. A proposta foi rejeitada pelo sindicato local e, em decorrência, a GM decidiu adotar terceiro turno na fábrica de São Caetano do Sul, já implementado com a contratação de 1.511 metalúrgicos.

E se houver, mais uma vez, rejeição do sindicato, qual a alternativa da GM? Pinheiro reconhece que há tensão com o sindicato de São José dos Campos, diferente do que ocorre com o sindicato de São Caetano do Sul, no ABC paulista. "Temos de crescer. Se houver rejeição em São José, talvez tenhamos que pensar numa quarta fábrica no Brasil já que São Caetano está no limite da capacidade e Gravataí, no Sul, foi desenhada para as famílias Celta e Prisma".

Segundo Pinheiro Neto, diante do mercado automobilístico pujante, há dois caminhos: "Um deles é acreditar que isso vai continuar e aumentar a capacidade, o que estamos fazendo. A outra possibilidade é ficar de braços cruzados e apostar no pior. Preferimos pensar grande e fazer a primeira aposta, mesmo sabendo dos riscos".

A expansão, no entanto, não deve ocorrer a qualquer preço. Na ampliação da capacidade produtiva para atender à demanda, preocupações permanentes envolvem redução de custos e um novo desenho da logística. "Costumo dizer que custo é feito unha: todo dia cresce se a gente não ficar permanentemente de olho. Uma das formas de aumentar custo é a burocracia. A burocracia é autofágica. Ela se alimenta dela mesmo".

Em relação à logística, Pinheiro Neto é transparente. "A logística é um campo fértil para cortar despesas. Há muito por fazer nessa área em prol da redução de custos".

Joinville e Suape, sedes da futura fábrica de motores e do centro de distribuição, foram escolhidos com base em critérios de racionalização logística. "Santa Catarina pelo privilégio de uma estrutura portuária farta e em expansão; Suape, entre outras razões, porque vai nos garantir receber carros importados e redistribui-los para o Norte e Nordeste e porque vai nos permitir abrir a primeira porta para o uso de cabotagem no transporte de veículos".

A GM, como as demais montadoras, na movimentação de carros usa apenas o transporte rodoviário, feito por cegonhas. Pinheiro Neto diz que à medida que os volumes crescem outros modos de transporte podem ser incorporados. "Tudo que for para reduzir custos será benvindo. Só instaladas aqui já temos 15 marcas para competir. O Brasil é um dos países com maior número de competidores e a disputa será cada vez mais renhida, não tenho dúvida".

Para conhecer de perto a realidade dos portos brasileiros, a GM e a Bosch estão envolvidas no que se batizou de Chevrolet Flexpedition Portos Abertos, uma maratona que envolverá a visita de três dezenas de portos marítimos. A primeira etapa começou nesta semana pelo Porto de Santos, o maior do País, e se estenderá a outros terminais, entre eles Sepetiba e Rio.

Em Santos, responsável pela movimentação de 27% de todo valor da exportação e importação do Brasil, a expedição foi recebida por José Di Bella, diretor presidente, e Alencar Costa, diretor administrativo e financeiro da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), gestora do Porto de Santos. Di Bella disse que o porto, que movimentou 81 milhões de toneladas em 2007, projeta para 2018 um volume de 200 milhões de toneladas. Costa, por sua vez, afirmou que em 2007 pela primeira vez Santos fechou no azul. "E vamos manter o superávit em 2008".

Combate à burocracia

Nas várias décadas em que trabalha na indústria automobilística - incluindo a etapa que ocupou a presidência da Anfavea - Pinheiro Neto recolheu algumas lições. "Uma delas é que ao longo dos anos de negociação com governos, aprendi que eles não admitem abrir mão de arrecadação", constata.

"Já que não é possível abrir mão dos tributos, ok, não precisa mexer nas alíquotas, está aqui o cheque. Mas, pelo menos que se unifiquem leis que tratam de questões tributárias. São 27 legislações estaduais diferentes sobre ICMS. Tudo isso gera muitos custos e incertezas sobre o futuro".
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