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A indústria tem vivenciado um crescimento em meio a incertezas, onde a tecnologia tem diversificado as possibilidades de investimentos, mas também tem feito com que líderes do setor tenham que, cada vez mais, tomar decisões complexas em um curto período de tempo.
O questionamento central entre os tomadores de decisões é onde ‘apostar’ para haver um crescimento ainda este ano, em 2026. Decifrar esse cenário industrial exige um olhar para as tendências globais. A seguir, cruzaremos nos dados da pesquisa da Deloitte Research Center for Energy & Industrials com a experiência de Cleiton Leite Souza, Técnico de Processos na Lorenzetti, e Fundador do GIDIB (Grupo de Inovação e Desenvolvimento da Indústria Brasileira), para combinar as projeções internacionais com a visão pragmática e o tom de realidade do especialista sobre a maturidade e os desafios reais da indústria brasileira.
A pesquisa da Deloitte de novembro de 2025 com 600 executivos mostrou que 80% planejam investir 20% ou mais de seus orçamentos de melhoria em iniciativas de manufatura inteligente, focando em ferramentas e tecnologias como hardware de automação, análise de dados, sensores e computação em nuvem. Os respondentes veem a manufatura inteligente como o principal motor de competitividade nos próximos três anos, devido a benefícios como aumento de produção, maior produtividade dos empregados e capacidade liberada.
Nesse cenário de escolhas, a pesquisa sugere que os líderes utilizem um framework para decidir como avançar: Build (construir), desenvolvendo soluções e talentos internos; Buy (comprar), adquirindo tecnologias prontas ou startups; ou Borrow (pegar emprestado), por meio de parcerias e terceirizações.
Para Cleiton, o futuro da indústria brasileira em 2026 será construído cada vez mais por meio de conexões estratégicas, onde parcerias e inovação aberta deixam passam a ocupar um papel central na forma como as empresas evoluem. Ele explica que esse movimento acelera a transformação, aproveitando soluções já testadas e validadas no mercado, reduzindo riscos e encurtando significativamente o tempo entre a ideia e a execução.
“Muitas empresas optam por contratar serviços, pois embora tenham equipes internas qualificadas em processo e desenvolvimento, nem sempre possuem estrutura dedicada para a construção de dispositivos. Manter essa capacidade internamente pode gerar ociosidade, já que os projetos não são contínuos. Nesse contexto, buscar parceiros externos se torna uma alternativa mais ágil, eficiente e economicamente sustentável”, diz.
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Por outro lado, com uma trajetória de 18 anos na Lorenzetti, sob a ótica do framework da Deloitte, Cleiton representa o pilar Build (construir) no que diz respeito ao capital humano. Ele acompanhou de perto as transformações do setor, iniciando como praticante de produção na área de macharia, passando pela injeção de metais e chegando à robótica, onde consolidou sua expertise para hoje atuar na engenharia de processos.
Essa jornada multidisciplinar o permitiu enxergar a tecnologia em diferentes ângulos, da operação manual à automação complexa. Ele é o exemplo do talento que a indústria 'constrói' internamente ao longo de décadas, acumulando um conhecimento institucional que para ele nenhuma máquina substitui.
O especialista ainda destaca que o crescimento em 2026 dependerá dessa simbiose: empresas que acessam o que há de melhor no mercado, mas que, ao mesmo tempo, investem na formação de profissionais capazes de aplicar essas soluções com pensamento crítico, visão sistêmica e inteligência estratégica.
2026 será o ano da IA Agente na manufatura, com sistemas capazes de raciocinar e agir de forma autônoma para resolver problemas complexos de produção sem intervenção humana constante, afirma a pesquisa. Além disso, a IA Agente também prepara o terreno para a IA física, robôs com maior autonomia, o que pode atrair investimentos adicionais para este ano. No entanto, surge um impasse entre a projeção global para os próximos três anos e a visão de quem opera a tecnologia no dia a dia.
Para Cleiton, o sucesso não virá de robôs que 'alugam' o conhecimento de veteranos para operar sozinhos, mas sim de empresas que entendem que a tecnologia é incapaz de replicar a vivência humana. Ele entende que o conhecimento de décadas não é um ativo que se copia para um software: 'A inteligência artificial é uma ferramenta, mas ela não tem raciocínio próprio; ela tem o raciocínio do que a gente coloca para ela', pontua. Assim, em vez de tentar substituir o pensamento humano, a aposta brasileira deve ser em profissionais que usem a máquina para executar com precisão o que apenas a experiência de longo prazo é capaz de conceber.
Para que a inteligência artificial e a automação avancem, a Deloitte destaca o crescimento dos Data Centers e a expansão do setor de Semicondutores. Enquanto os centros de dados funcionam como o "sistema nervoso" que processa a nuvem industrial, os semicondutores são os componentes vitais para o hardware de automação.
Na visão do especialista, a eficiência em 2026 estará diretamente conectada à capacidade das máquinas de ‘conversarem entre si’, onde a máquina a máquina (M2M) deixa de ser tendência e passa a ser requisito básico para competitividade. “A evolução não está apenas em ter acesso aos dados, mas em garantir que eles circulem com qualidade, segurança e no tempo certo”, destaca.
Para ele, esse é o caminho para que a indústria brasileira avance com consistência, saindo de níveis mais básicos, evoluindo para estágios intermediários e, então, consolidando de forma madura a Indústria 4.0.
Cleiton exemplifica com um cenário cada vez mais presente no chão de fábrica: “hoje, componentes críticos já são monitorados em tempo real. Um cilindro, por exemplo, pode ter sua vida útil estimada em mil horas; à medida que esse limite se aproxima, o próprio sistema identifica a necessidade de substituição. Os dados são coletados continuamente, e o software aprende com o comportamento da máquina ao longo do tempo. O impacto dessa evolução vai além da operação interna. Com o compartilhamento dessas informações, fornecedores passam a atuar de forma proativa, antecipando o envio de peças e evitando que falhas aconteçam”, diz.
Neste modelo, a "decisão" de compra e reposição é delegada à máquina, reduzindo a necessidade de intervenção humana no monitoramento de estoque e desgaste. Para o especialista, esse é um ponto estratégico da competitividade para 2026: a integração total entre o ativo no chão de fábrica e o ecossistema do fornecedor.
Ficou claro que a competitividade industrial não será definida apenas pela adoção de ferramentas autônomas, mas pela inteligência em sua implementação. Enquanto a pesquisa global aponta para uma autonomia cada vez maior da IA e da infraestrutura digital, a visão do entrevistado serve como um lembrete de que a tecnologia potencializa a bagagem institucional.
Seja através de sensores que antecipam falhas ou de algoritmos que otimizam processos, a verdadeira Indústria 4.0 acontecerá quando o dado encontrar a sabedoria de quem conhece o chão de fábrica. Em 2026, a indústria que mais crescer não será necessariamente a mais automatizada, mas a que melhor souber integrar a precisão do robô à visão estratégica humana.
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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