Brasil terá a primeira fábrica de semicondutores ferroelétricos

Foto: Modelo de chip com memória ferroelétrica desenvolvido pelo CMDMC/Divulgação

Empresa norte-americana Symetrix Corporation anuncia a criação da primeira fábrica de semicondutores ferroelétricos no Brasil


Depois do anúncio na terça-feira (15/01), pelos dirigentes da empresa norte-americana Symetrix Corporation, da construção de uma fábrica de semicondutores no Brasil, a dúvida que restou é em qual região ela será instalada. Os estados candidatos são Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

O projeto do empreendimento foi divulgado pelo diretor e co-fundador da empresa de alta tecnologia, o brasileiro Carlos Paz de Araújo, e por outros dirigentes, em cerimônia na capital federal que contou com a presença do ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende.

Na ocasião, Araújo, que é professor na Universidade do Colorado (EUA), disse que contará, nas atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da indústria, com o suporte do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), vinculado ao Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara.

Trata-se da primeira indústria voltada para a fabricação de semicondutores ferroelétricos da América Latina. Os investimentos previstos são da ordem de US$ 1 bilhão, por meio de uma parceria da Symetrix, um grupo de empresários estrangeiros e a Panasonic. Estima-se que serão gerados pelo menos 700 empregos diretos.

O investimento permitirá a produção de chips de memória para os chamados “cartões inteligentes”, que têm aplicações variáveis, como a utilização em movimentações bancárias de entidades financeiras, bilhetes para o transporte público, documentos e até para a telefonia celular e TV digital.

Presentes à cerimônia em Brasília, José Arana Varela e Élson Longo, diretores do CMDMC, defendem a instalação da fábrica da Symetrix em São Paulo.

“A maior vantagem estratégica do estado é a proximidade que a fábrica teria com a mão-de-obra qualificada das centenas de mestres e doutores formados anualmente pelas universidades paulistas”, diz José Arana Varela, pró-reitor de Pesquisa da Unesp.  E acrescenta, “sem contar que São Paulo reúne os principais grupos de pesquisa que trabalham com materiais ferroelétricos”.

“Estamos falando de um investimento total, em um período de dois ou três anos, de cerca de US$ 1 bilhão, em uma fábrica que vai produzir para o mercado nacional e estrangeiro. Mas infelizmente ainda não houve grandes contatos da administração pública paulista com os dirigentes da empresa. Precisamos chamar a atenção das autoridades de São Paulo de que essa é uma possibilidade próxima e real”, diz o também professor do Instituto de Química de Araraquara da Unesp.

Tradição em materiais ferroelétricos

Segundo Varela, há pouco mais de um ano, Carlos Paz de Araújo o procurou para fazer uma consulta sobre a instalação de um empreendimento dessa natureza no Brasil. “Naquela época ele já havia dito que iria precisar de nosso apoio acadêmico para a transferência de tecnologias, treinamento de pessoal e indicação de recursos humanos para ocupar os cargos de pesquisa e desenvolvimento na indústria. O projeto avançou de tal modo que hoje eles inclusive já iriam definir os nomes de alguns diretores que irão liderar a indústria aqui no Brasil”, diz.

O CMDMC, que é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fapesp, conta com cerca de 18 teses de doutorado e dissertações de mestrado concluídas na área de materiais ferroelétricos, especialmente filmes finos para memória. São mais de 60 artigos científicos publicados pelo grupo de pesquisa em revistas nacionais e internacionais.

Calcula-se que a tecnologia de memória ferroelétrica (FeRAM) possa ser lida e escrita por cerca de cem trilhões de vezes, enquanto a memória magnética de um cartão comum só suporta algumas dezenas de milhares de vezes. “Esses cartões ferroelétricos têm duração indefinida, a não ser que ele seja quebrado ou perdido. Nele será possível guardar muito mais informação em um espaço bem menor”, compara Varela.

Élson Longo, diretor-geral do CMDMC, afirma que, com o anúncio da fábrica no Brasil, iniciou-se uma corrida por parte dos dirigentes governamentais e da comunidade científica de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco para a instalação em seus respectivos estados.

“É possível que nos próximos dias um protocolo de intenções seja assinado entre a Symetrix e o governo do Rio de Janeiro, estado que já deu um passo à frente. A eventual instalação no estado fluminense não impediria as atividades do CMDMC na fábrica. Mas os pesquisadores e o poder público de São Paulo precisam se mobilizar para que ela possa ser construída aqui”, diz Longo.

“As instituições paulistas de ensino e pesquisa têm longa tradição em pesquisa e formação de pessoal em áreas de alta tecnologia, principalmente nos estudos relacionados à nanotecnologia. Isso já seria suficiente para criar um ambiente propício à instalação desse tipo de indústria no estado”, complementa Longo.

Para discutir a possibilidade de instalação da fábrica em São Paulo, uma reunião com a presença dos investidores e dirigentes da empresa e de representantes da Secretaria de Desenvolvimento e do CMDMC será realizada na próxima terça-feira (22/1), na sede da secretaria, na capital paulista.

A instalação da indústria se beneficiará de um decreto presidencial relacionado ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Ciência e Tecnologia, que isenta de todos os impostos federais as empresas do setor de semicondutores, uma das quatro prioridades da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce) do governo federal.

A Symetrix Corporation foi fundada em 1986 na cidade de Colorado Springs, nos Estados Unidos. A empresa tem mais de 180 patentes na área de microeletrônica e as licencia para fabricantes no Japão, Coréia, Europa e Estados Unidos.



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