Logogrupocimm-fundoescuro
Exclusiva

Adaptação tecnológica: o grande desafio da supply chain até 2030

Especialistas avaliam que, no Brasil, é necessária uma mudança estrutural no setor

A pesquisa Insight 2030: Oportunidades e Desafios para a Cadeia de Suprimentos do Futuro, encomendada pela DHL Supply Chain, revela que 99% dos executivos consideram a cadeia de suprimentos fundamental para o sucesso dos negócios. Do total de entrevistados, 73% esperam que suas cadeias se tornem mais dependentes de inteligência artificial (IA) e 70% antecipam que ameaças de cibersegurança podem interromper as operações. A maioria prevê tornar-se mais dependente de tecnologias já consolidadas e emergentes nos próximos cinco anos. Este é o principal desafio para quem trabalha com supply chain até 2030.

Para a professora Regina Meyer Branski, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), “o gargalo não é a tecnologia em si — que está disponível e consolidada —, mas sim a cultura organizacional e a infraestrutura legada das empresas”. Ela explica: “embora as organizações compreendam a necessidade da IA, muitas ainda lidam com dados fragmentados, sistemas que não se comunicam ou softwares obsoletos que impedem a integração”. 

Coordenadora do curso de Engenharia de Petróleo em Santos (SP), com doutorado em Engenharia de Produção e mestrado em Economia, Regina atuou no Laboratório de Aprendizagem em Logística e Transporte da Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp. Ela avalia também que “para que a IA e a robótica entreguem valor, é imprescindível contar com bases de dados íntegras e sistemas interoperáveis, além de gestores e técnicos capacitados para operar essas novas ferramentas”.

Mark Kunar, CEO da DHL Supply Chain North America, tem opinião alinhada com a da professora: “Embora sistemas avançados e maior automação tenham se tornado essenciais para a gestão da cadeia de suprimentos moderna, essas tecnologias também trazem seu próprio conjunto de preocupações, além de desafios de implementação e gestão”.


Continua depois da publicidade


Além da IA, 68% dos participantes da pesquisa citaram o aumento da dependência de robótica para executar tarefas rotineiras. No entanto, menos da metade deles (44%) afirmou ter implantado esta tecnologia em armazéns. Além disso, apenas 34% dos executivos nos níveis de vice-presidência e diretoria declararam estar totalmente satisfeitos com o uso da tecnologia.

A rápida evolução tecnológica é uma preocupação central, com quase metade dos participantes apontando que utiliza soluções tecnológicas inadequadas (49%) e sistemas desatualizados (47%), mesmo com nove em cada dez utilizando sistemas de gestão instalados nos últimos cinco anos.

“Desde 2020, as cadeias de suprimentos estão passando por um período de transformação. Embora os líderes da área possam estar esperando um período de estabilidade nos próximos anos, a pesquisa apresentada neste relatório indica que o ritmo das mudanças pode, na verdade, estar se acelerando”, avalia Kunar.

Um problema estrutural no Brasil

Para Bia Rodrigues Carvalho, especialista em Logística, Tecnologia e Inovação que atua com supply chain no Brasil há 25 anos, “a dificuldade não é só tecnológica: é humana, estrutural e de gestão”.  

“O que eu percebo não é falta de entendimento sobre a importância das tecnologias, mas a falta de preparo estrutural para usá-las de forma adequada. Todo mundo hoje fala de IA, de automação, de robótica, mas quando você entra na operação, consegue ver claramente que muitos processos não estão organizados, que os dados não são confiáveis, e que as pessoas não estão capacitadas para atuar neste novo modelo”, avalia a especialista.

Segundo Bia, “a falta de padronização é um problema que sempre tivemos no supply chain no Brasil”. Ela exemplifica: “há softwares que funcionam bem em um tipo de indústria, como a alimentícia, mas não estão adaptados para a farmacêutica, por exemplo”.

No entanto, Bia pondera que não se pode dizer que o mercado brasileiro não tem a maturidade necessária para fazer as mudanças apontadas pela pesquisa: “ele é heterogêneo”, ela observa. “Em algumas empresas, há automação avançada, uso de dados de ponta a ponta para tomada de decisões, e, ao mesmo tempo, tem empresas de vários setores que ainda usam planilha de excel e não têm integração entre sistemas”.

A especialista pontua que “a IA vai funcionar muito melhor e muito mais rápido naquelas com mais visão estratégica”, e esse é o grande desafio: “Quem entendeu que a logística não é apenas operacional, mas competitiva, e investiu em capacitação, estruturação de dados, está surfando bem nesta onda. O desafio aqui é mais o de transformar as capacidades individuais, na ponta, para que haja maturidade estrutural dentro da cadeia de suprimentos”. 

Ela completa: “logística é uma área estratégica e essa visão precisa ser desenvolvida para que tenhamos melhores resultados”.

Clima e política entre as preocupações

A pesquisa contratada pela DHL também revelou outras preocupações do setor: 63% temem desastres naturais e 62% tensões internacionais. “Hoje a logística é um dos primeiros setores que sentem qualquer instabilidade global, antes de qualquer crise bater na nossa porta”, resume Bia. 

“Quando a gente fala de conflitos geopolíticos, de sanções, de crise climática, isso afeta toda a cadeia de suprimentos, porque muda rotas, muda fornecedores, muda contratos, e a gente tem que se adaptar a tudo isso”, exemplifica.

A professora Regina, da USP, também é enfática ao afirmar que “eventos climáticos extremos têm o potencial de paralisar cadeias inteiras”. Ela acrescenta que “portos inoperantes devido a ressacas ou rodovias bloqueadas por deslizamentos deixaram de ser eventos fortuitos para se tornarem riscos operacionais constantes. O desafio atual é duplo: as empresas precisam aumentar a resiliência de suas redes para garantir a continuidade operacional sob condições adversas e, simultaneamente, acelerar a descarbonização para reduzir o impacto ambiental de suas atividades”.

Bia Rodrigues Carvalho também defende que é fundamental que profissionais do setor olhem não apenas para dentro dos armazéns, mas para o cenário global. “A cadeia de valor virou um tema de sobrevivência dos negócios e afeta a todos os seres humanos, e os profissionais precisam estar preparados”.

Sobre a pesquisa

A pesquisa divulgada pela DHL apresenta um panorama atual da cadeia de suprimentos no mundo, identifica as mudanças mais significativas esperadas e oferece insights sobre obstáculos enfrentados por lideranças para garantir que supply chain continue apoiando os objetivos de negócio.

A DHL contratou a W5, empresa independente, para conduzir a pesquisa quantitativa on-line com 350 executivos de cadeia de suprimentos e líderes empresariais da América do Norte em 2025. 

A pesquisa “Insight 2030” teve como foco líderes de empresas de grande porte, com faturamento anual superior a US$ 1 bilhão, mas também esteve aberta a executivos C-level de grandes empresas com receita anual entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão. 

*Imagem de capa: Depositphotos.com