O ritmo acelerado de Marchionne, presidente da Fiat

Fonte: Gazeta Mercantil - 26/11/07
Foto: Divulgação

Consta que, em recente salão internacional de automóveis, um grupo de funcionários da Renault se queixou do ritmo do seu presidente, o brasileiro Carlos Goshn, que é conhecido como o "executivo 7/23" por trabalhar das sete da manhã até as 23 horas, todos os dias úteis da semana. Um grupo de italianos da Fiat, que ouvia a conversa, considerou os franceses muito afortunados, pois o seu presidente Sérgio Marchionne é conhecido como "o executivo 7/24". É aquele que trabalha o tempo todo, durante todos os dias da semana.

Os latino-americanos e, sobretudo, os brasileiros da Fiat tiveram, na semana passada, a devastadora experiência de conhecer o estilo desse executivo, que não considera relevante nenhuma outra coisa na vida a não ser o trabalho. Na segunda feira, ele desembarcou em Buenos Aires, proveniente de Roma na companhia de todos os presidentes mundiais de subsidiárias do grupo e, imediatamente, tomaram o rumo de Córdoba. Nesta cidade argentina, a montadora se prepara para reabrir uma fábrica de automóveis, fechada durante muitos anos por falta de compradores para seus produtos.

Depois de horas de inspeção e extensas reuniões, Marchionne considerou adequada a reabertura da fábrica mas não a estratégia de utilizar a unidade para complementar o crescimento da indústria automobilística brasileira, pois aquele país enfrenta uma crise de energia de grandes proporções e sem solução à vista. Os investimentos previstos de US$160 milhões foram mantidos na Argentina, o Siena será produzido no local a partir de janeiro mas nada de grandes ambições onde já falta luz. E na condição de experiente executivo ele explicou aos subordinados que, quando não há luz para todos, a preferência nunca é para as fábricas mas para a população.

Ainda na segunda-feira a comitiva embarcou para Curitiba. A reunião na fábrica de tratores rurais da New Holland naquela capital foi aberta às 7h30 da manhã seguinte. À noite o executivo já estava na cidade de São Paulo. Durante a quarta-feira, Marchionne visitou as unidades industriais da Magnetti Marelli, em Hortolândia, e das fábricas de tratores CNH, em Sorocaba e Piracicaba, em viagens de helicóptero. Em alguns desses locais as reuniões foram realizadas em pé, para evitar que, descansados em suas poltronas, os interlocutores falassem mais do que o indispensável.

Às 20 horas, o executivo italiano foi recebido no Palácio dos Bandeirantes pelo governador José Serra, que foi informado do programa de investimentos de R$ 1 bilhão nas indústrias locais do grupo. Duas horas depois, o executivo já estava a bordo do avião da empresa, a caminho de Belo Horizonte. Na quinta, as reuniões de repetiram, desde as primeiras horas da manhã, nas fábricas de automóveis de Betim, de caminhões, em Sete Lagoas, e de tratores de estrada, em Contagem.

Na sexta feira, às 10 horas, Marchionne chegou pontualmente ao escritório da representação de Minas em Brasília, onde foi recebido pelo chefe do escritório, o ex-ministro Henrique Hargreaves e pelo governador Aécio Neves. O governador mineiro foi informado que o investimento da montadora em Minas seria acrescido de R$1 bilhão, totalizando R$ 5 bilhões, com acréscimo de 5 mil empregos. Embora a matemática seja um idioma universal, assim como a escrita musical, um dos italianos presentes à audiência traduziu os números para a autoridade mineira: os recursos resultarão na construção da maior fábrica de automóveis do planeta, com capacidade para a produção de 5,2 mil veículos por dia. Os detalhes, porém, serão divulgados amplamente, num prazo de 15 dias.

Aécio agradeceu pelos investimentos, pelos novos empregos e pela solidariedade do executivo, que também estava sem gravata naquela sexta casual. Marchionne respondeu-lhe que ele sempre está casual, pois jamais usa gravatas. De fato, não há uma única foto em que o executivo não esteja com seu pulôver negro. Desse jeito e com essa roupa o italiano seguiu para o Palácio do Planalto, onde foi recebido às 11h30, pontualmente, pelo presidente Lula, que estava em companhia do ministro mineiro Luís Dulci, chefe da Casa Civil. Mais tarde, no aeroporto de Brasília, os assessores do executivo que se atrasaram voltaram em vôo de carreira para Betim, onde as reuniões foram retomadas e se estenderam até sábado.
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