Entrevista sobre os 20 anos do relatório "Nosso Futuro Comum"


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Fonte e foto: Instituto Ethos - 02/11/07

Por Giselle Paulino, do Instituto Ethos

Foi em 1987 que a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, estabelecida pela Organização das Nações Unidas, lançou o relatório Nosso Futuro Comum, que definiu o conceito de desenvolvimento sustentável. Presidida por Gro Harlem Brundtland, então primeira-ministra da Noruega, a Comissão Brundtland, como ficou conhecida, tinha como objetivo estudar a relação entre o desenvolvimento econômico e a conservação do meio ambiente. No relatório, Gro afirmava que o desenvolvimento deveria "atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades". Essa definição ecoou pelos quatro cantos do mundo e revolucionou a discussão sobre desenvolvimento e crescimento econômico.

Política, diplomata e médica norueguesa, Gro Harlem Brundtland é, sem dúvida, um dos principais líderes internacionais no campo do desenvolvimento sustentável e da saúde pública. Foi a primeira mulher a se tornar chefe de governo em seu país e a assumir a direção da Organização Mundial da Saúde. Vinte anos após o lançamento do famoso relatório, ela visita o Brasil, a convite do Banco Real ABN, e dá esta entrevista ao Notícias da Semana, na qual analisa os principais fatos do cenário internacional e pergunta: "Será que o mundo nos escutou?"

Instituto Ethos: Qual é sua avaliação dos vinte anos que se passaram desde a publicação do relatório Nosso Futuro Comum?


Gro Harlem Brundtland: Há vinte anos, o relatório Nosso Futuro Comum lançava a definição do que seria desenvolvimento sustentável, a qual tornou-se conhecida em todo o mundo. Na verdade, o que fizemos foi analisar o rumo que o mundo estava tomando, as tendências dos principais setores da economia e como tudo isso poderia afetar a humanidade e o meio ambiente. Com base no relatório, fizemos um alerta sobre diversas mudanças necessárias para que o desenvolvimento acontecesse de forma sustentável. E também destacamos que para enfrentar esse problema seria necessário um nível de colaboração muito grande entre os países. Então acredito que a pergunta certa seria: o mundo escutou o que dissemos? Como o relatório foi entendido? Quanto os países realmente mudaram nesse período? Em minha opinião, o relatório Nosso Futuro Comum teve um efeito revolucionário no mundo todo. Em apenas cinco anos, que em termos históricos é pouco tempo, os países estavam todos presentes na Rio 92, aptos a fazer negociações, como ocorreu com a Convenção do Clima e com a Agenda 21. Foi um grande resultado para apenas cinco anos. Isso ilustra uma mudança de mentalidade dos líderes. A partir de então, passamos a ter diversos acontecimentos em várias áreas. No entanto, as mudanças se deram em diferentes níveis e momentos e vieram de diferentes atores. Quando o mundo se juntou novamente, durante o Encontro do Milênio das Nações Unidas, em 2000, e definiu os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, houve uma reafirmação dos compromissos da Agenda 21. Um ano depois, os Estados Unidos sofreram os ataques terroristas de 11 de setembro, os quais, infelizmente, monopolizaram as atenções da comunidade internacional. Somente há dois anos, conseguimos novamente colocar a agenda do desenvolvimento sustentável em discussão. Isso também só foi possível porque o aquecimento global, sobre o qual fizemos o alerta há vinte anos, já está sendo percebido pela sociedade. Hoje, tanto as pessoas,como as empresas e os governos já estão muito mais preocupados com isso do que estavam dois anos atrás. Mas acredito que o mundo agora tenha um desafio ainda maior, pois já perdemos muito tempo.

IE: Como a senhora vê o papel das empresas nesses 20 anos?

GHB: Vejo que algumas empresas estão mais avançadas, pois começaram a fazer alguma coisa logo após o lançamento do relatório Nosso Futuro Comum. Essas empresas passaram a integrar uma comunidade de negócios com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento sustentável. Elas estavam entre os parceiros que chamamos para fazer parte desse processo e acabaram saindo na frente. Esse movimento se fortaleceu ao longo do tempo. Ainda assim, temos empresas em diferentes estágios. Nem todas são progressistas como gostaríamos. Mas certamente as pioneiras vão olhar para trás e perceber que tomaram a decisão certa em mudar seus processos e seus produtos. São atitudes desse tipo que vão tornar as empresas mais competitivas.

Idéia Socioambiental: Qual seria o papel do governo, das empresas e do indivíduo para o desenvolvimento sustentável?

GHB: Os governos têm o poder de regular o sistema e interferir no comportamento da população. Você não pode lidar com a sociedade sem regulamentação. Todos nós entendemos isso quando falamos de tráfico ou de qualquer outra área na qual as pessoas não podem fazer tudo o que desejam. Da mesma forma, as empresas não podem atuar sem regulamentação. Entendo que as regras precisam ser cada vez mais globais. O sistema regulatório antigo já não funciona. Hoje, grande parte das empresas é multinacional e muitas empresas nacionais já exportam para outros países. Ou seja, é preciso estabelecer mecanismos globais ou padrões éticos que regulem as formas de fazer negócios. Necessitamos desenvolver uma forma de governança que cruze as fronteiras dos países. Para que isso aconteça, as empresas precisam agir, as ONGs precisam ser ativas e apoiar uma forma de governança que não se baseie apenas nas atividades econômicas. E cabe aos governos negociar as regras do jogo que devem ser aplicadas de certa forma no mundo todo.

IE: E quanto às ferramentas de responsabilidade social usadas pelas empresas? Na sua opinião, elas estão sendo eficientes?


GHB: Acredito que as ferramentas de RSE são muito boas. Elas podem ser usadas para trazer bons resultados. Todo processo de tentar medir os resultados e compará-los é importante.


IE: Qual é a sua visão sobre a discussão em torno da Floresta Amazônica e da produção de biodiesel no Brasil?

GHB: Muitos assuntos não são tão simples. O biodiesel não é a solução para tudo, mas obviamente a produção de etanol, um pouco menos poluidor, como alternativa à gasolina é parte desse mix de alternativas energéticas que darão diferentes soluções e reduzirão os impactos sobre o meio ambiente. Claro que ainda não é a solução, mas é parte dela. E cada país terá diferentes opções disponíveis. Já me perguntaram sobre as implicações da produção de biocombustíveis para o trabalho e para o meio ambiente. Em minha opinião, se houver cautela na forma de produção não haverá grandes problemas. Já a Amazônia, que é a maior floresta tropical do mundo, é uma grande preocupação para todos nós e não apenas para o Brasil. É preciso pensar num modo para protegê-la e saber que uso econômico se pode fazer dessas áreas. Acredito que este seja um dos principais assuntos do debate sobre desenvolvimento sustentável. Vejo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a preocupação de estabelecer mecanismos para que as coisas sejam feitas da forma certa. Por outro lado, não é fácil encontrar o caminho.


IE: Em sua opinião, qual é a importância dos investidores para o desenvolvimento sustentável?


GHB: Os investidores têm um papel fundamental nisso. Anteriormente, o capital era algo que você investia onde dava o maior lucro. Ninguém se importava com o resto. Essa era uma característica típica da economia de livre comércio. Mas agora isso não é mais possível. A sociedade já tem meios de avaliar o comportamento tanto das empresas quanto dos investidores. Hoje já não se pode investir capital em qualquer iniciativa. É preciso verificar se o projeto em que aquele dinheiro está sendo aplicado leva em consideração os direitos humanos e as leis ambientais.


Idéia Socioambiental: Como a senhora analisa o problema da escassez de água?

GHB: Essa questão está contemplada no desenvolvimento sustentável e é parte tanto da Agenda 21 quanto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A escassez de água é também um aspecto muito importante do aquecimento global. Essa é uma das situações mais graves que teremos de enfrentar e às quais teremos de nos adaptar no futuro.

IE: Além da escassez de água, que outras questões serão importantes nos próximos anos?

GHB: Acredito que os pontos-chave serão mesmo a água e a energia, principalmente no caso de países pobres que, por falta de alternativas, usam a queima da madeira como fonte de energia para as atividades domésticas, causando desmatamento. Um dos nossos desafios é desenvolver novas fontes de energia para esses países.

IE: Se a senhora tivesse que reescrever o relatório Nosso Futuro Comum, o que seria alterado?

GHB: Acredito que tudo que está no relatório ainda serve para os dias de hoje, o que é muito interessante se pensarmos que já se passaram vinte anos. Ao ler o relatório hoje em dia, é possível encontrar conceitos que talvez já tenham outro nome, mas, em geral, a análise da situação e as soluções apontadas são as mesmas. Fiquei feliz ao ver o IPCC este ano recebendo o Prêmio Nobel da Paz, ao lado de Al Gore. Isso ilustra uma coisa muito importante: a ciência e o conhecimento são absolutamente fundamentais para atingirmos nossos objetivos. Falamos disso no relatório. Sem o reconhecimento do IPCC, não estaríamos prontos para enfrentar as mudanças climáticas da forma como o fazemos hoje. A campanha de Al Gore para popularizar o assunto também foi muito importante. Sem ele, a sociedade em geral não teria despertado para o assunto.

IE: Na sua opinião, para atingirmos um desenvolvimento sustentável seria preciso alterar o modelo mental de sociedade que temos hoje?


GHB: Essa é uma questão muito difícil. Acredito que inspirar novos padrões de desenvolvimento e encontrar alternativas é uma etapa fundamental do desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, é preciso tomar muito cuidado com esses pensamentos, pois não podemos retornar aos padrões de desenvolvimento baseados apenas na cultura e na produção local. Vivemos numa época em que os países trocam experiências entre si. Algumas práticas desenvolvidas em determinado local podem ser aplicadas em outras áreas. Não podemos olhar para trás de forma romântica e pensar que antigamente as coisas eram melhores. Temos de combinar as experiências que vivemos com as habilidades que adquirimos. Claro que temos razão ao criticar o transporte pela emissão de CO2, mas talvez haja uma forma de taxar a distribuição de produtos. No futuro, poderemos criar taxas para certos tipos de indústria como sinal de não devem receber investimentos, ou coisa assim. É preciso usar nossas experiências e criar políticas regulatórias para impulsionar situações novas.

IE: A senhora é positiva em relação ao futuro?

GHB: Sempre tento ser!



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