Setor de ferramentas de corte se alia à tecnologia e organização estrutural para superar pandemia

Empresas da área tiveram que se adaptar a novas formas de manter a produção, sem perder a excelência no atendimento aos clientes.

Depois da queda de 19,5% em abril, na comparação com o mês anterior, a produção industrial brasileira se adaptou às limitações trazidas pela crise do coronavírus e retomou o caminho da estabilidade. Em setembro, os resultados do setor cresceram pelo quinto mês consecutivo e avançaram 2,6%, mostram dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgada no início de novembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Das 22 atividades que fecharam o penúltimo trimestre do ano com dados no azul, a metalurgia está entre elas. Segundo o estudo, o ramo metalmecânico expandiu 3,5% e teve a sexta maior taxa de evolução no período entre os setores analisados, apesar do recuo de 2,1% na comparação com o mesmo mês de 2019 e de 12,9% no acumulado entre janeiro e setembro. 

Entre perspectivas, desafios e a insegurança, as indústrias correram atrás de caminhos alternativos mesmo sem ter muito tempo para planejar. No ramo da ferramentaria, o choque que abalou o mundo exigiu adaptações entre pares: empresas e clientes precisaram rever suas relações e adaptar rotinas. Antes temporários, os ajustes foram, aos poucos, ganhando retoques e sendo otimizados, até revelar um contexto de novas possibilidades que chegou para ficar.

Por isso, à frente das mudanças, executivos foram instigados a unir criatividade e pragmatismo. E para muitas empresas, a saída não foi a ruptura, mas sim o aperfeiçoamento dos próprios modelos de produção. “[Com a pandemia], enxergamos uma habilidade para lançar mão de diferentes maneiras de atingir um mesmo objetivo. Na medida em que a gente começou a encontrar restrições para executar nosso trabalho diário, começamos a olhar para a essência do nosso trabalho, para o objetivo da ação e como a gente poderia atingir aquele objetivo de uma forma diferente”, pontuou o gerente de produto da multinacional israelense Iscar do Brasil, Marcos Silva. 


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Na Iscar do Brasil, a força-tarefa concentrou-se em conectividade e acessibilidade. Com o isolamento social, ferramentas virtuais já incorporadas, como as próprias redes sociais, deixaram de ser apoio para se transformar em protagonistas de um novo sistema de venda e atendimento ao cliente. Plataformas de transmissão de vídeos ganharam status de sala de reunião e até mesmo laboratório.

“O que a gente fez foi levar a nossa estrutura para dentro do cliente, já que não conseguíamos mais trazer o cliente para dentro da nossa estrutura”, explica Silva. Segundo ele, as preocupações se voltaram, sobretudo, para os treinamentos mensais que antes reuniam cerca de 70 clientes de diferentes empresas. Vazio, o espaço dos encontros, no Centro Tecnológico da empresa, deu lugar a uma unidade de treinamento on-line onde não só são gravados conteúdos de apresentações como também passaram a ser produzidos ensaios de usinagem em espécie de tutoriais personalizados, caindo no agrado dos compradores. 

“Quando o cliente compra uma ferramenta especial que ele ainda não tem e é a primeira vez que a gente está fabricando, é comum que o vendedor vá até à empresa colocar a ferramenta em uso, ajudar e ensinar. Com a pandemia isso ficou difícil. Mas a gente tem um laboratório com máquinas novas que começamos a usar para realizar esses testes internamente, testar as ferramentas, gravar um vídeo, montar uma apresentação e mandar para o cliente, como se fosse um relatório digital de como foi o teste, com imagens, medição, fotos. Isso trouxe uma certa agilidade, melhorou nossa eficiência porque, em se tratando de ferramentas especiais, é sempre necessário algum ajuste ou na forma de usar ou na ferramenta”, relata o gerente. “Posso dizer que dinamizou muito essa questão dos testes de ferramenta e que tem alguns clientes que, hoje, já selecionam seus parceiros de ferramentas analisando se esse fabricante tem ou não um laboratório onde possa realizar esses ensaios”. 

Agilidade, mas cautela

Na Iscar, a mudança de processos internos também resultou em mais agilidade. Com a recuperação acelerada do mercado, a nova demanda exigiu um novo tempo de resposta aos clientes – motivo pelo qual a empresa encurtou o caminho entre os pedidos e a solução. 

A nova rotina de treinamento dos colaboradores acompanhou a redefinição do comportamento do mercado. De acordo com Silva, embora várias possibilidades tenham surgido, a cautela foi essencial para uma interpretação correta do novo contexto, que deve continuar a fazer parte do dia a dia da empresa. 

“É um caminho meio que sem volta. Talvez [a nova relação com os clientes] diminua um pouco de intensidade na medida em que contato pessoal vai voltando ao normal a gente começa a mesclar, usar isso de forma mais racional. Eu preciso que o meu cliente receba, então eu posso levar pessoalmente ou posso levar digitalmente também. Se o resultado vai ser o mesmo, por que não fazer de forma mais barata e economizando tempo, preservando a saúde e segurança de todos?”, finaliza. 

Reforço no digital

Com as restrições da pandemia, a exploração de recursos virtuais virou realidade coletiva. No caso da Sandvik Coromant – vanguarda em ferramentas para manufatura –, os processos só ganharam ainda mais protagonismo, uma vez que a empresa já havia mergulhado no movimento rumo à digitalização, se tornando uma das pioneiras em desenvolvimento na área.

Ainda assim, as transformações mostraram novas possibilidades e arranjos para impulsionar a prática já estabelecida. “Acho que aprendemos também que, por mais velozes e eficientes que somos na implementação de novas tecnologias digitais, ainda temos um campo enorme para evoluir e aprender. Importante também ressaltar que ter uma equipe bem treinada e comprometida é fundamental em momentos como estes. Em resumo, tecnologia e recursos humanos”, observa Claudio Camacho, vice-presidente de vendas da Sandvik Coromant América do Sul e Central.

Mas os desafios trazidos pela crise sanitária não passaram batido na empresa. Focada na premissa do relacionamento forte e constante com os clientes, o distanciamento e a necessidade de fazer o trabalho a longa distância levaram as relações a um novo patamar de descobertas. 

“Com a adoção de reuniões e contatos virtuais, aprendemos junto com nossos clientes, a identificar novas oportunidades, o que só pode ser alcançado com muita confiança e parceria. O relacionamento pessoal entre as pessoas de nossa organização também foi afetado no início, já que não estávamos mais juntos fisicamente. Aqui também as ferramentas digitais implementadas anteriormente nos ajudaram a diminuir esta distância”, pontua o vice-presidente. 

Conforme o executivo, a velocidade na adoção e implementação de ferramentais digitais continuarão a ser prioridade da empresa sueca, inclusive para remodelar o cotidiano dos funcionários. A  Sandvik Coromant não descarta, por exemplo, aplicar o home office como uma ferramenta de flexibilização dos turnos de trabalho, por entender que reuniões virtuais podem ser menos custosas e, ao mesmo tempo, mais eficientes.  

Para Camacho, os primeiros meses de 2020 testaram a capacidade de adaptação do mercado como poucas vezes antes. “É claro que ninguém esperava um acontecimento desta magnitude, e todos nós fomos abalados por ele. Acho que a grande vantagem competitiva esteve e estará sempre nas organizações que se adaptarem a estas mudanças mais rapidamente. Dificilmente estaremos preparados para um outro evento como este, mas certamente estaremos preparados para agir rapidamente”.

Pragmatismo e modelo

Enquanto a exploração dos recursos tecnológicos se mostrou uma saída relativamente eficaz para a crise que paralisou o mundo, as habilidades de reação da indústria foram um teste à parte. Para a Gühring Brasil, empresa alemã que atua em diferentes segmentos no país há mais de 30 anos, o processo estratégico e organizado foi fundamental para minimizar os danos consequentes. 

“A pandemia nos ensinou que devemos estar sempre com os processos organizados para rápidas mudanças e adaptações, que é imprescindível que a equipe esteja preparada para o novo, já que tivemos que adaptar muito o nosso formato de atendimento aos nossos clientes, além de precisar criar maior sinergia com a cadeia de suprimentos. Resumindo: temos que ser cada vez mais proativos e saber reinventar”, afirma o diretor-geral da Gühring Brasil, Jorge Jerônimo. 

Mas para superar o momento de dificuldade, a empresa não agiu sozinha. A matriz alemã da Gühring apostou em diretrizes unificadas e pragmáticas para conduzir todas as suas filiais, o que não foi diferente com a do Brasil. O padrão unificado foi adotado como resposta global, embora a cada uma das sedes tenha sido dada liberdade para tomar as decisões de acordo com as realidades específicas do mercado. 

Diante das demandas urgentes, a Gühring Brasil sai fortalecida. De acordo com Jerônimo, além da agilidade e do pragmatismo, a capacidade de adaptação das equipes para situações diversas também passará a ser mais considerada pela empresa, onde processos bem estruturados fizeram toda a diferença para o reposicionamento comercial e de custos nos últimos meses. 

“Nosso aprendizado com o trabalho remoto também foi algo muito importante e se torna de agora em diante um grande legado para nós. A tecnologia disponível propiciou tudo isso, e foi uma grande aliada na criação de ambientes de trabalho remoto”, acrescenta o diretor.
Em uma avaliação prévia, Jerônimo acredita que o maior impacto da pandemia para a Gühring Brasil tenha sido nos ramos comercial, financeiro e de recursos humanos – ainda que muito tenha se aprendido com as novas rotinas de trabalho. “Estaríamos mais preparados [em caso hipotético de um novo abalo do setor provocado por cenários exteriores]. Hoje estamos muito mais interconectados com o mundo, mas ainda há muitos desafios adiante para a indústria nacional e mundial, relacionados as sequelas geradas pela pandemia”, conclui. 




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