Fabricantes de CAD tentam minimizar rombo da pirataria

Fonte: Valor OnLine - 30/08/07

Carne seca, arroz, feijão, queijo coalho, couve, farofa e banana frita. No que se refere à gastronomia, o americano Jay Bahtt quer mostrar que está realmente interessado em conhecer as coisas do Brasil.

Aprova o almoço. Empolgado em sua primeira visita ao país, Bahtt aproveita a vista privilegiada do restaurante em São Paulo para observar a região verde do parque do Ibirapuera. Aponta os espigões em construção na região do Itaim Bibi, Brooklin. Entre uma garfada e outra, enaltece a exuberância que vive o setor de construção civil do país. "O ritmo de crescimento da construção que vemos hoje no Brasil é praticamente único em todo o mundo."

Este executivo tem especial interesse no assunto. É ele o segundo homem na hierarquia da Autodesk, uma das maiores empresas do mundo voltada a sistemas usados em projetos gráficos, como o AutoCad, provavelmente o produto muito popular entre arquitetos e engenheiros.

Há um tema, porém, que o senhor Bahtt não costuma digerir muito bem quando visita países em desenvolvimento, como o Brasil: a pirataria de software, prática que há anos assola a venda de seus sistemas e que ultrapassa facilmente a faixa dos 80% de seu mercado no país. Ele beberica um cafezinho. "Essa é uma situação complicada. Em pirataria só perdemos mesmo para a Microsoft."

Bahtt não exagera. A dificuldade encarada por empresas concorrentes como Autodesk, Solid Works e Parametric Technology Corporation (PTC) reside na fragilidade de proteção de seus produtos. Basicamente, as mesmas barreiras usadas para proteger, por exemplo, uma simples licença de anti-vírus - um produto que custa em torno de R$ 90 - são adotadas para cuidar da propriedade intelectual de um software de CAD (sigla para Computer Aided Design, ou desenho auxiliado por computador). A questão é que este produto, que tem finalidades estritamente profissionais, não sai da prateleira por menos de R$ 8 mil por usuário. Em média, cada licença de CAD chega facilmente à casa dos R$ 12 mil, R$ 15 mil.

Segundo o diretor da PTC para América Latina, Hélio Samora, é como proteger um castelo de cristal com a mesma cerca de uma choupana. "Nos preocupamos muito com esse problema, mas hoje não há muito o que se fazer."

Sem uma solução realmente eficaz para o problema, essas empresas têm adotado paliativos para minimizar os estragos da ilegalidade. A entrada no meio acadêmico é uma das principais apostas. Cada licença da Autodesk, que trafega entre seus R$ 11 mil e R$ 15 mil, pode ser comprada por uma faculdade de engenharia com desconto de 95%. A PTC, que segue a mesma estratégia, oferece a universidades e escolas técnicas licenças ao preço de R$ 25, o mesmo produto que suas revendas ofertam por R$ 10 mil. "Nos próximos dias, vamos instalar 500 licenças de CAD no Senai", diz Samora.

Os acordos têm avançado. Segundo o presidente da Autodesk no Brasil, Acir Cesar Marteleto, os sistemas da empresa já estão presentes em cerca de 80% das faculdades de engenharia e arquitetura do país. "Agora fazemos acordos similares com as escolas técnicas."

As ações também procuram atingir os alunos. A Autodesk dá acesso gratuito a versões originais de seus sistemas enquanto o aluno estiver estudando. Saiu da faculdade, tem que comprar o software. Na PTC, o aluno também tem acesso livre a uma "licença emprestada" enquanto cursa a faculdade. Ele também pode comprar, por US$ 200, uma versão "student edition", um pacote completo do produto sem prazo de validade, mas limitado a práticas escolares.

Fora do ambiente acadêmico, os fabricantes de sistemas tentam remodelar a forma com que vendem seus produtos. Em vez de oferecer simples licenças de software - por meio de uma mídia como CD ou DVD -, vendem uma assinatura, na qual o usuário que adquire a licença conta com serviços adicionais. "O cliente deixa de comprar só software, para ter também serviços diferenciados", diz o diretor geral da Solid Works no Brasil, Oscar Siqueira. Na Autodesk, quem troca a licença básica por uma assinatura tem acesso prévio a novidades dos sistemas da empresa.

Isso é inovador? "Bom, são medidas até interessantes, mas na realidade todo mundo continua vendendo as mesmas licenças de software", admite o diretor da PTC, Hélio Samora.

A PTC decidiu adotar uma postura mais drástica. Recentemente, fechou acordo com a BSA (sigla em inglês para Aliança de Empresas de Software) para identificar e negociar com empresas que estão utilizando cópias ilegais de seus produtos. Cerca de 70 empresas serão visitadas nos próximos meses. Por enquanto, uma carta tem sido enviada a cada companhia informando sobre uma futura visita para regularizar a situação. "A idéia não é multar ninguém, queremos propor uma forma de regularizar a situação", comenta o executivo da PTC. A carta, porém, também leva um recado muito claro: a pena para o presidente da empresa que for flagrada com software pirata pode ser a prisão. Sim, há fiança. A multa pode chegar a nada menos que 300 vezes o valor do software. Nada que uns R$ 3 milhões por cópia ilegal não resolva.
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