Após ameaça, GM nega saída do País, diz negociar próximo investimento

Empresa vai apresentar propostas diferentes para cada fábrica

Ganhou corpo a teoria de que a ameaça da GM de deixar País não passou de estratégia para forçar e facilitar negociações de cortes de custos com trabalhadores e fornecedores, além de obter benefícios do Estado. O tom foi bastante amenizado em reunião na manhã da terça-feira, 22, com representantes de sindicatos e prefeitos de São Caetano do Sul e São José dos Campos, onde ficam as duas plantas de produção de veículos da empresa no Estado de São Paulo. O presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, negou o fechamento de fábricas na região e disse que a empresa quer negociar o próximo ciclo de investimentos em suas diversas unidades no Brasil, segundo relataram participantes do encontro de fora da GM, pois a empresa se nega a dar qualquer informação oficial. 

A reunião aconteceu na fábrica de São José dos Campos (que ficou de fora da maior parte dos investimentos da GM nos últimos anos), sob o clima pesado causado pela informação, até então não desmentida, de um e-mail enviado por Zarlenga na sexta-feira, 18, aos funcionários (com clara intenção de vazar o conteúdo à imprensa) relatando altos prejuízos no Brasil e Argentina que precisavam ser estancados este ano, sob pena de a empresa sair da região – como já aconteceu na Europa, onde a empresa em 2017 vendeu a Opel à PSA, além dos recentes anúncios de fechamentos de fábricas, uma na Coreia do Sul, quatro nos Estados Unidos, uma no Canadá e a promessa de encerrar atividades em outras duas fora da América do Norte. 


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O executivo confirmou o duro processo em curso de reestruturação global da companhia, mas disse aos prefeitos e sindicalistas que está mantido o plano atual, anunciado em 2015, com o investimento de R$ 13 bilhões (não comprovados) de 2014 a 2019, para a produção no Brasil de recentes nova família de carros que começa a ser lançada este ano(novos Onix, Prisma e Tracker), com a consequente modernização das fábricas de São Caetano e Gravataí (RS), onde estes modelos serão produzidos, e a introdução de novos motores fabricados em Joinville (SC). 

Com o natural alívio causado por essa explicação, Zarlenga foi adiante com sua estratégia, ficou então à vontade para pedir mais, tirou um problema da sala para introduzir outro: disse que o problema está no próximo ciclo de investimentos, para além de 2020 até 2023, que necessariamente precisará seguir a mais recente orientação da matriz nos Estados Unidos, de produzir mais com menos, de investir só em regiões e produtos rentáveis. Para isso, informou o executivo, a empresa busca negociar com funcionários, fornecedores, governo e distribuidores programas de redução de custos em todos os níveis. 

“Foi uma conversa franca e clara. O momento que a GM passa é delicado. Acompanhamos os últimos movimentos da GM global, com fechamento de fábricas. No Brasil, existe a oportunidade de investimento, mas São José dos Campos, São Caetano e o Brasil têm que fazer a lição de casa”, afirmou à Folha de S.Paulo o prefeito de São José, Felício Ramuth, após sair da reunião. 

Já o prefeito de São Caetano, José Auricchio Jr., disse à Folha que o novo programa de investimento da GM no Brasil poderia ser iniciado na fábrica de São Caetano entre 2021 e 2022, e entre 2022 e 2023 na unidade de São José, “desde que exista êxito nesse novo estudo de investimentos”, afirmou. Seria, segundo o prefeito, um ciclo mais curto, focado em produtos consolidados. 

Cortes e benefícios

Os concessionários Chevrolet parecem terem sido os primeiros a sofrer cortes: confirmaram que já perderam um ponto porcentual da comissão de venda, que teria caído da média de 5% para 4%. Fornecedores também estão esperando por pedidos de redução de custos. 

Na frente governamental, Zarlenga já esteve com o governador de São Paulo, João Dória, em busca de alívios fiscais no Estado, fato confirmado pelo ex-ministro da Fazenda e atual secretário da Fazenda do Estado, Henrique Meirelles – que foi contra o programa de incentivos federal para a indústria automotiva, o Rota 2030, aprovado no fim de 2018. Meirelles disse ao jornal Valor Econômico que descontos e simplificações tributárias estão em negociação com a GM e outras medidas serão discutidas no âmbito do Confaz, por afetar políticas industriais e tributárias de outros estados. 

Agora começam as negociações com cada unidade. A reunião com representantes sindicais de São José foi feita na própria terça-feira à tarde. Já está marcado encontro com o sindicato de São Caetano às 9h da quarta-feira, 23. E na próxima semana a GM já marcou o mesmo tipo de conversa em Gravataí. 

De acordo com informações preliminares, a meta da montadora é cortar custos de produção e tentar trazer um novo carro para ser produzido em São José dos Campos, mas a empresa teria dito serem inviáveis os custos da planta para a produção de um modelo popular. Após impasse em negociações sempre conflituosas com o sindicato local, a fábrica ficou de fora dos investimentos de R$ 13 bilhões. Atualmente, emprega cerca de 4,8 mil pessoas e produz a picape S10, o SUV Trailblazer, além de motores e transmissões em fim de ciclo de vida. 

O sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos afirmou que as propostas apresentadas pela empresa serão submetidas em assembleia com os empregados da fábrica na entrada do primeiro turno da quarta-feira, 23, por volta das 5h30. Em nota, a entidade informa que “posicionou-se contra qualquer plano que envolva demissões e flexibilização de direitos”. Segundo o vice-presidente do sindicato, Renato Almeida, uma das reivindicações já colocadas sobre a mesa na reunião com Zarlenga foi a garantia de estabilidade no emprego para todos na fábrica. 

“Somos contra a reestruturação e não aceitaremos que os trabalhadores paguem esta conta com seus empregos. A GM é líder de mercado e não há qualquer motivo que justifique o fechamento de fábricas, como vem sendo anunciado”, afirmou Renato Almeida, do sindicato de São José dos Campos.

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