Para chegar ao carro elétrico, Brasil precisará apostar no etanol

Célula de combustível é oportunidade histórica para o País, diz consultor.

A lentidão do Brasil em desenvolver espaço no mercado interno para os carros elétricos pode ser compensada por um já conhecido herói nacional: o etanol. Os carros movidos a célula de hidrogênio extraído do combustível têm potencial para ocupar papel relevante no cenário global. Esta é a opinião de Ricardo Bacellar, líder da área automotiva na KPMG, que defende esta como uma “solução limpa e altamente eficiente”. Ele admite, no entanto, que a tecnologia não está pronta e ainda precisa de desenvolvimento para que sua produção industrial se comprove viável. Para que isso aconteça, aponta, “o governo brasileiro precisa deixar claro qual é o seu apetite para fazer desta uma solução mundial.”

O consultor é categórico ao afirmar que o Brasil está diante de oportunidade histórica com a tecnologia que, para ganhar espaço, exigiria alianças com outros países e incentivos locais ao seu desenvolvimento. Por enquanto, a única fabricante de carros que anunciou estar trabalhando em carros movidos a célula de combustível por etanol é a Nissan. O sistema da marca foi criado no Japão, mas já passou por testes no Brasil com resultados promissores. Segundo a companhia, um modelo comercial do gênero ofereceria custo de apenas R$ 0,10 por quilômetro rodado. Quase igual ao de um elétrico plug-in, que tem valor estimado em R$ 0,09/km. 


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O Brasil diante do avanço global do carro elétrico

“O carro flex seria inviável globalmente porque não há etanol o bastante. Já esta nova solução teria mais espaço porque demandaria volume bem menor do combustível”, avalia Bacellar. Segundo ele, este é o momento para discutir e avançar com o assunto, já que diversos mercados importantes impõem prazos para acabar com o motor a combustão. A Alemanha determinou que a produção de automóveis com o sistema será proibida a partir de 2030 e o Reino Unido determinou prazo mais conservador, em 2040. 

O consultor lembra que, embora sem data-limite, o Japão também dá sinais claros de quer seguir o caminho da eletrificação. “O governo investiu na instalação de 40 mil postos de recarga”, conta. A China aposta em modelos zero emissão para evitar o agravamento de seu problema ambiental. “A questão não é mais se o carro elétrico vai chegar, isso já está definido. Agora estamos no debate sobre quais serão as tecnologias mais usadas. Estudos indicam que, em alguns países, já a partir de 2018 o custo de propriedade de um automóvel elétrico vai se equiparar ao de um veículo a gasolina. Este é um sinal de que esta mudança já está em curso”, diz. 

Apesar do bom potencial, posicionar o Brasil entre as peças centrais no mundo em relação ao carro elétrico exige empenho e investimentos que, ao menos por enquanto, não estão em discussão. O País define as regras de sua nova política automotiva, a Rota 2030. Até agora não há qualquer sinalização de medidas de grande impacto para incentivar produção e mercado de modelos zero emissão localmente. Se seguir desta forma, no longo prazo o Brasil pode ficar isolado do mercado global por não oferecer carros elétricos para exportação. 

Bacellar, no entanto, garante que ainda é cedo para assumir que o País está fora do jogo. “Este risco existe sim para o futuro, mas apenas se nada for feito para impedir, o que não me parece ser o que vai acontecer. As pessoas envolvidas na elaboração do Rota 2030 estão cientes da necessidade de o País desenhar medidas para carros elétricos”, defende.




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