BC vê mais inflação em 2016 e reafirma que não há espaço para cortar juros

O Banco Central piorou seu cenário de inflação para 2016, diante de maior pressão de alimentos, mas melhorou sua perspectiva para 2017 ainda que não esteja no centro da meta oficial, segundo Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta terça-feira, pelo qual reafirmou que não há condições de reduzir a taxa básica de juros ainda.

Pelo documento, o BC passou a ver que o IPCA subirá 6,9 por cento em 2016, acima da conta anterior de 6,6 por cento, mas que a alta perderá força e fechará 2017 em 4,7 por cento, 0,2 ponto percentual a menos do que a projeção anterior. O BC também apontou o IPCA em 4,2 por cento no segundo trimestre de 2018, tudo pelo cenário de referência.

Os cenários colocados pelo BC foram considerados, de modo geral, mais duros e levaram parte dos especialistas e o mercado financeiro a verem início de afrouxamento dos juros mais tarde.

O documento, o primeiro sob a gestão do atual presidente do BC, Ilan Goldfajn, ressaltou o compromisso do Comitê de Política Monetária (Copom) com a inflação no centro da meta em 2017 - de 4,5 por cento, com margem de 1,5 ponto percentual - e que buscará deixá-la dentro da margem de tolerância neste ano, de dois pontos. Até então, Ilan não mencionava prazos.

O cenário de referência considera a manutenção do dólar em 3,45 reais e da Selic atual, de 14,25 por cento ao ano, no horizonte de previsão.

O mercado aguardava o relatório com ansiedade em busca de pistas mais concretas da política monetária orquestrada por Ilan, principalmente quanto ao início do ciclo de afrouxamento da Selic, que segue inalterada desde julho do ano passado.

Em suas últimas comunicações, tanto o ex-presidente do BC Alexandre Tombini quanto diretores da autarquia enfatizaram não haver espaço para flexibilização da política monetária, frase também presente no atual relatório.


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"O Comitê buscará circunscrever a inflação aos limites estabelecidos pelo CMN em 2016 e adotará as medidas necessárias de forma a assegurar a convergência da inflação para a meta de 4,5 por cento, em 2017", trouxe o documento. "Dessa forma, o cenário central não permite trabalhar com a hipótese de flexibilização das condições monetárias", complementou.

Apesar de ter reconhecido avanços no combate à inflação, o BC sublinhou no relatório que "sua continuidade depende de ajustes - principalmente fiscais - na economia brasileira". Também chamou a atenção para os problemas climáticos que afetaram a produção mundial de alimentos, em especial o de grãos, e os efeitos sobre os preços domésticos.

Para o BC, a inércia do processo de realinhamento de preços relativos e incertezas sobre a economia mundial também têm afetado o combate à inflação.

Com os sinais dados pelo BC, os juros futuros mais curtos tinham em forte alta nesta manhã, com a curva mostrando chances majoritárias de que o ciclo de redução da Selic deve começar em outubro, praticamente enterrando a probabilidade disso ocorrer em agosto.

"Pelas projeções, o BC mostra que não tem espaço para cortar juros. Com isso, eu acho que reduziu bastante esse espaço para este ano", disse o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, que preliminarmente ajustou sua projeção de início de corte para outubro, e não mais em agosto. Também passou a enxergar redução de 1 ponto percentual até o fim do ano, sobre 1,25 ponto antes.

As expectativas para o avanço de preços este ano vêm piorando nas últimas semanas e distanciando-se ainda mais do teto da meta do governo. Pesquisa Focus mais recente mostrou que, pela mediana das perspectivas, a inflação fechará 2016 a 7,29 por cento, caindo para 5,50 por cento em 2017.

Cena externa

O BC assinalou que a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia (UE), somada a fatores como eleições nos Estados Unidos, "aumentaram as incertezas em relação ao cenário econômico e financeiro global, com desdobramentos sobre a volatilidade nos mercados financeiros".

Com a dinâmica da recuperação da economia global ainda frágil, o BC apontou "o aprofundamento do caráter acomodatício das políticas monetárias" de importantes economias, com perspectiva de manutenção de taxas de juros negativas.

"Como você tem ainda para acrescentar um cenário de câmbio mais favorável e a perspectiva de juros negativos lá fora continuar por muito tempo, acho que tem aí um sinal de que é possível em agosto começar a redução dos juros (no Brasil)", disse o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima, mas ressaltando que ainda é "um pouco cedo para cravar".

O BC melhorou um pouco sua projeção para o Produto Interno bruto (PIB) do Brasil neste ano, passando a ver contração de 3,3 por cento, contra 3,5 por cento antes.


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