Indústria monitora crise energética na Argentina

Fonte: Valor Online - 16/07/07

Com a memória ainda recente do "apagão" no Brasil em 2001, as empresas estão monitorando com atenção a crise energética na Argentina. Os efeitos ainda não apareceram, mas, se a crise perdurar pode ter efeito de mão-dupla: ela pode reduzir as exportações de manufaturados e também afetar o fornecimento de peças para o Brasil, prejudicando a produção industrial. Por enquanto, as companhias mantém seus planos de vendas e investimentos na Argentina, apostando que a falta de energia será passageira.

Para as montadoras de veículos e os fabricantes de autopeças, a luz amarela já acendeu, porque o setor é o mais integrado das economias dos dois países. Fábricas instaladas no Brasil são abastecidas parcialmente com peças adquiridas na Argentina.

A CNH, fabricante de tratores e colheitadeiras, adquire na Argentina entre 10% e 15% das peças que utiliza na fábrica de Curitiba. "O fornecimento está normal, mas estamos acompanhando com preocupação", diz Milton Rego, diretor de relações externas e de comunicação. A Argentina também é um mercado importante para a CNH, respondendo por 15% das vendas.

Também é comum as montadoras no Brasil e na Argentina trabalharem de forma integrada para abastecer a América do Sul. É o caso da Ford, que produz a Ranger e o Focus na Argentina e o restante da linha no Brasil. Segundo Rogelio Golfarb, diretor de relações institucionais, a Ford investiu US$ 5,7 milhões na Argentina, expandindo a capacidade para 380 veículos/dia.

"Estamos investindo na Argentina, porque o mercado latino-americano cresceu significativamente", diz Golfarb, acrescentando que as vendas de veículos vão bater recordes no Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia em 2007. A Ford tomou precauções para não ser surpreendida pelo "apagão". A fábrica na Argentina trabalha apenas no primeiro turno, já que no segundo é mais comum o corte de energia, por conta do aumento do consumo nas residências. A empresa também possui geradores de energia próprios para utilizar em caso de emergência. "Não acreditamos que a crise na Argentina vai perdurar", diz Golfarb.

Na avaliação de Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), ainda não está claro a extensão da crise no país vizinho. Se o problema for grave, a tendência é reduzir a produção, gerando um aumento dos preços porque a demanda ainda está forte no país. "Tudo vai depender da resposta do governo argentino na política econômica", diz.

Se o consumo seguir forte, as importações da Argentina devem aumentar, favorecendo os bens de consumo duráveis e não duráveis do Brasil. "Pode ter um efeito no curto prazo, mas não é sustentável", diz Ribeiro. Ele explica que, com a queda da produção local, o desemprego aumenta, afetando também a renda. Se a Argentina crescer menos, as exportações brasileiras vão sofrer no médio prazo, principalmente de produtos manufaturados. O Brasil destina 13,5% das exportações de produtos industrializados para o sócio do Mercosul.

"Uma crise na Argentina seria muito ruim para a exportação, porque temos a vantagem de não pagar tarifa de importação no país, o que é cada vez mais importante com o atual patamar do câmbio", avalia Domingos Dragone, diretor industrial da Black & Decker. A empresa destina 30% das exportações de ferramentas elétricas para a Argentina. Ele diz que, por enquanto, o consumo está normal, mas que a filial na Argentina está preocupada.

Para o presidente da Embraco, Ernesto Heinzelmann, "uma crise na Argentina será muito ruim para o Brasil". Ele avalia que o consumidor argentino tende a reduzir a compra de geladeiras se houver um apagão, que é um produto que gasta energia. A Embraco é um dos maiores fabricantes mundiais de compressores para geladeiras.

Há, contudo, pelo menos um setor lucrando com a situação. A gaúcha Stemac, fabricante de geradores, recebeu só na última semana mais de 50 pedidos de cotações de equipamentos por empresas argentinas. O volume equivale a cerca de um ano de vendas normais para o mercado daquele país, disse a coordenadora de exportações da companhia, Jéssica Lacorte.

"Por enquanto ainda não houve vendas efetivas, mas esperamos que elas se confirmem", comentou a coordenadora. Segundo ela, as consultas partem de empresas de diversos setores, "algumas que nunca haviam ouvido falar em grupo gerador", à procura de equipamentos de todos os portes.
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