Montadoras têm perda bilionária no Brasil e mercados vizinhos

Resultados financeiros na região revelam estrago da crise na rentabilidade do setor.

De herói, na crise financeira internacional de 2008/2009, a vilão, no contexto atual, o Brasil jogou contra os resultados financeiros divulgados nos últimos dias pelos grandes grupos automobilísticos globais. A América do Sul, onde o país é protagonista, tingiu de vermelho os balanços das montadoras americanas General Motors (GM) e Ford, bem como os resultados da italiana Fiat e da alemã MAN, que fabrica os caminhões da marca Volkswagen.

A forte queda nas vendas ­ de dois dígitos, na maioria dos casos ­ e as despesas com a reestruturação dos negócios na região são as principais forças por trás dos números negativos, junto com o avanço dos custos de produção e o efeito cambial negativo.

A GM jogou a toalha na meta de melhorar a rentabilidade na América do Sul em 2015, após acumular, entre janeiro e setembro, prejuízo antes das despesas com dívidas e impostos de US$ 575 milhões na região, mais do que o dobro em relação às perdas de US$ 269 milhões de um ano atrás.

A Ford também continua no vermelho no continente, com perdas, antes de impostos, de US$ 537 milhões ­ nesse caso, contudo, melhor do que o prejuízo de US$ 975 milhões dos três primeiros trimestres de 2014.

Líder no mercado brasileiro, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA), em igual período, reverteu o lucro de € 169 milhões de um ano atrás e amargou prejuízo operacional de € 116 milhões com a operação na América Latina, que exclui o México. A queda de 32,3% das vendas e o aumento dos custos de produção, somados à pressão sobre preços por uma concorrência mais acirrada, anularam os ganhos com o lançamento bem­sucedido do utilitário esportivo Renegade, da Jeep.


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Da mesma forma, os resultados operacionais da MAN no Brasil e nos mercados vizinhos foram invertidos: do ganho de € 76 milhões para um prejuízo de € 45 milhões. Em resumo, apenas na soma das quatro montadoras que separaram geograficamente os resultados financeiros em cada um de seus maiores mercados, as perdas na região onde os negócios são comandados pelo Brasil chegam a US$ 1,29 bilhão.

"Alguns eventos em mercados vizinhos, como a depreciação do bolívar venezuelano, influenciaram no desempenho. Mas a maior parte do prejuízo vem do Brasil, sobretudo em virtude da queda brutal nas vendas e do impacto cambial", diz Martin Bodewig, da consultoria Roland Berger.

Grande parte das montadoras não detalha quanto lucra ou perde por região, mas muitas delas dedicaram alguma nota negativa ao Brasil nos relatórios que acompanharam os balanços financeiros. Entre elas, a Volkswagen citou a recessão econômica e as condições de crédito mais restritivas ao justificar a queda de 31% das vendas no país.

A francesa Renault, por sua vez, relatou impacto negativo da desvalorização do real, ao passo que a Daimler, dona da marca Mercedes­Benz, divulgou despesas de € 10 milhões com ajustes de mão de obra no Brasil e na Alemanha. A montadora de caminhões ofereceu, por diversas vezes, incentivos a demissões para reduzir o excesso de mão de obra no parque industrial de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Para a MAN, maior concorrente da Mercedes­Benz, o clima de negócios no Brasil piorou além das projeções mais pessimistas para 2015.

Para a sorte das montadoras, a recuperação dos mercados nos Estados Unidos e na Europa Ocidental vem compensando o desempenho frustrante em países emergentes. Até a gigante China, onde mais se consome carros no mundo, começou a trazer impacto negativo nos balanços.

A deterioração da rentabilidade dos negócios no Brasil já vinha sendo retratada pelo menor fluxo de remessas de lucro das montadoras e grandes fornecedores instalados no país às matrizes no exterior. Desde janeiro, essas empresas já cortaram em 79%, para US$ 154 milhões, as transferências de ganhos, que caminham para a cifra mais baixa em doze
anos.

Nenhuma montadora cancelou até agora os investimentos prometidos, embora a Honda tenha adiado a inauguração de sua segunda fábrica de carros no interior paulista. As empresas, porém, passaram a depender mais dos controladores para financiar desde os grandes projetos aos compromissos de curto prazo. Na comparação com 2014, as captações na indústria automobilística nacional por empréstimos corporativos mais do que dobram, chegando a US$ 3,73 bilhões de janeiro a setembro, já no maior fluxo desde que o Banco Central (BC) começou a divulgar o dado, em 2002.




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