Brasil exporta gerente e importa técnico para ‘chão de fábrica’

Pesquisa cruzou dados de 170 multinacionais presentes no Brasil.

De cada dez brasileiros enviados por suas empresas para trabalhar no exterior, seis são especialistas em gestão, atuando como gerentes, diretores ou presidentes em suas companhias. Já em sentindo inverso, com relação aos estrangeiros transferidos para o Brasil, a maioria (62% dos casos) é formada por técnicos ou por mão de obra em funções operacionais.

Essa movimentação, que coloca o Brasil como exportador de mão de obra altamente qualificada e importador de postos de “chão de fábrica”, é o principal e mais surpreendente resultado de uma ampla pesquisa realizada pela Global Line, empresa de consultoria e treinamento especializada em expatriados. 

Batizada de Mobility Brasil 2014, o estudo cruzou dados de 170 multinacionais presentes no Brasil (cerca de 80% delas estrangeiras), que movimentam um contingente de 6.336 expatriados. Deles, 53% (3.358) são brasileiros no exterior. O restante, formado por 2.978 profissionais, são estrangeiros instalados no País.

Para Marcelo Ribeiro, sócio da Global Line e responsável pelo levantamento, essa discrepância entre o perfil da mão de obra importada e exportada pode, em um primeiro momento, ir contra o que se imagina, de que o brasileiro no exterior está, salva raras exceções, fadado ao subemprego, dado a formação deficitária de nosso profissional. Esse é um julgamento apressado, ele diz, que esconde um problema maior.


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“O Brasil envia gerentes e traz técnicos justamente por conta de nossas deficiências técnicas em relação à Europa e aos Estados Unidos. O gerente vai para o exterior para adquirir expertise de gestão, para conhecer o que esses países já aplicam nesse campo e, futuramente, poder voltar para ocupar posições seniores”, conta o especialista. “Já o técnico vem para cá, em maior número, para treinar a equipe operacional das empresas e, feito isso, ele regressa para seu país de origem”, afirma.

Um exemplo dessa dependência é que, enquanto existem poucos estrangeiros alocados em cargos de gerência no Brasil, um em cada cinco presidentes, vice-presidentes ou diretores de multinacionais locais são expatriados.

“É muito interessante perceber que 19% dos expatriados vindos para o Brasil ocupam posições de altíssima gestão. É um número muito alto quando a gente leva em consideração que esses cargos representam apenas 1% das posições dentro das empresas”, conta Marcelo Ribeiro.

“Isso é natural”, continua o sócio da Global Line, “porque o número de multinacionais com headquarters (sedes) no exterior é muito mais significativo do que as ‘multis’ de bandeira nacional. E é lá fora, nesses headquarters, onde está instalada toda a inteligência dessas empresas.”

Ranking

Em outubro último, como faz todos os anos, o HSBC compilou uma lista sobre os melhores destinos do mundo para trabalhar fora de seu país de origem.

O banco entrevistou 9 mil profissionais expatriados e elaborou o ranking com base na situação econômica, experiência global e condição de familiar oferecido pelos mercados analisados.

A lista com 100 países foi encabeçada pela Suíça, seguida por Cingapura e pela China. O Brasil apareceu em 32º lugar, atrás de México, Vietnã, Catar e África do Sul.




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