PSI puxa investimento, mas tem efeito restrito

Cada R$ 1 de desembolso do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) gerou R$ 1,18 de investimento em 2009. No ano seguinte, cada R$ 1 gerou R$ 0,58 em investimento. Os dados fazem parte de um estudo recém-concluído por pesquisadores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e obtido com exclusividade pelo Valor. O resultado demonstra que, embora o programa tenha sido positivo nos dois primeiros anos para o investimento, houve uma redução do seu impacto no segundo ano.

A pesquisa é polêmica porque alguns economistas têm criticado nos últimos anos a atuação do BNDES e questionado o efeito de suas políticas anticíclicas, como o PSI. Alguns economistas entendem que existe uma "hipertrofia" do BNDES. Isto significaria, na visão dos críticos, que os desembolsos aumentaram muito e não necessariamente esse aumento se transformou em melhora significativa dos investimentos na economia. Pelo contrário, a economia estaria com baixo crescimento porque o investimento não "destravou".

Criado em julho de 2009, o PSI nasceu em um contexto de queda significativa da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida do investimento no país, após a crise mundial de 2008. De lá para cá, o programa, usado para financiamento de máquinas, ônibus e caminhões, foi renovado anualmente e há sinalizações de que isso ocorrerá também em 2014. A pesquisa, no entanto, se restringe aos anos de 2009 e 2010 por limitações estatísticas e metodológicas.

Quatro economistas do BNDES assinam o estudo - Luciano Machado, Daniel Grimaldi, Breno Albuquerque e Leonardo Santos. Grimaldi diz que o debate e a crítica são pertinentes, uma vez que o programa é grande e tem um custo fiscal para o país. Mas ressalva que o debate vinha sendo feito em "bases técnicas inadequadas", por isso houve a proposição de um estudo diferente. Segundo ele, a discussão em geral estava sendo feita num foco macroeconômico. Basicamente, colocava-se a série de investimentos da economia e a série de desembolsos do BNDES e mostrava-se assim que o desembolso estava subindo bastante e o investimento subindo menos (ou até ficando no mesmo patamar).


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"O problema com isso é que você não sabe o que teria ocorrido com o investimento se não tivesse subido o desembolso do BNDES", afirma Grimaldi. Por conta disso, os pesquisadores acharam necessário uma análise contrafactual. "E a forma de conseguir essa análise contrafactual é a abordagem microeconômica", diz Grimaldi.

O estudo analisou especificamente o âmbito da firma industrial. De forma resumida, olharam individualmente as empresas que receberam o PSI e seu volume médio de investimentos. De outro lado, foi estimado o quanto cada firma em média teria investido se não tivesse recebido o PSI.

Para chegar a esses valores, a pesquisa se valeu de uma ampla base de dados de empresas com mais de 30 funcionários. Os economistas do BNDES basearam-se em informações sigilosas da "Sala de Acesso" do BNDES (cujo acesso é restrito) para elaborar a pesquisa, com detalhes sobre investimento e faturamento de várias firmas, pesquisando desde aquelas que receberam o PSI quanto empresas similares que não receberam o programa, a fim de fazer a comparação.

Também foram usados os microdados da Pesquisa Industrial Anual (PIA), do IBGE, disponível na "Sala de Acesso", cuja base se limitava até 2010, quando da conclusão da estatística, no fim de 2013.

Maurício Cañedo Pinheiro, pesquisador do Ibre-FGV, tem feito críticas ao papel do banco e se contrapõe à ideia de efeitos positivos de políticas como o PSI. Ele acha que o BNDES, na verdade, estaria ocupando o espaço que seria dos bancos privados, provocando um efeito de "crowding out" (deslocamento). Segundo Pinheiro, o investimento de uma firma, em diversas ocasiões, sairia independentemente de haver o programa do BNDES ou não.

"Obviamente, se tem uma fonte de financiamento mais barata, por que uma empresa não vai usá-la? Mas isso não gerou investimento novo, ela só trocou a fonte de financiamento. É difícil demonstrar isso, mas o fato de a taxa de investimento ter ficado parada nos últimos anos, a despeito do aumento dos desembolsos do BNDES, é uma indicação de que isso pode estar ocorrendo", disse.

O estudo do BNDES mostrou que, em 2009, a firma que recebeu o programa gerou em média R$ 1,23 milhão em investimento. Sem o PSI, ela teria gerado R$ 876,5 mil. O PSI, portanto, "criou" um investimento médio de R$ 352,47 mil por firma, 40% a mais do que teria ocorrido na ausência do programa. Em 2010, o investimento médio com o PSI foi de R$ 1,26 milhão, e o estimado sem o PSI foi de R$ 989,7 mil, tendo o programa "criado" um investimento menor, de R$ 272 mil por firma. Por meio desses cálculos, chegaram aos valores de "adicionalidade" do programa, de R$ 1,18 (2009) e de R$ 0,58 (2010) para cada R$ 1 de PSI.

Grimaldi, do BNDES, diz que ficou "positivamente impressionado" com o resultado porque significa que o PSI teve "impacto relevante para destravar decisões de investimento", sobretudo em 2009.

Uma das explicações para um menor efeito positivo do PSI em 2010 pode ter sido a mudança macroeconômica. "O ano de 2010 foi completamente diferente de 2009", ressaltou Machado, do BNDES, explicando que em 2009 havia um contexto em que as condições de crédito privado estavam muito contraídas, havendo maior efeito do programa sobre o investimento. Em 2010, com algumas fontes de crédito privado voltando a ser ofertadas, o programa pode ter sido menos importante para afetar a decisão de investimento, impactando mais a decisão de funding, ou seja, sobre o tipo de financiamento que a empresa opta por utilizar.

De acordo com Pinheiro, do Ibre, na crise de 2008 fazia sentido o uso de políticas anticíclicas para sustentar o investimento na economia porque havia retração grande de crédito. "Mas não mais. Depois disso, os desembolsos continuaram crescendo a um ritmo bem razoável", disse. "Claro que o mundo ainda não se recuperou completamente da crise, mas não estamos mais naquela época, quando ninguém sabia o que ia ocorrer", diz.

Para o pesquisador do Ibre/FGV, com o atual problema fiscal da economia brasileira - que, na sua avaliação, "chegou para valer" - "a pergunta agora, independentemente se você concorda com a política do BNDES ou não, se ajudou o investimento ou não, é de onde vai vir o dinheiro para sustentá-la nos níveis observados nos últimos anos", ressalta. "Não dá para manter os desembolsos nesses níveis, estamos com déficit nominal", destacou.

No argumento dos críticos, está o fato de a taxa de investimentos da economia ter oscilado entre 18% e 19% do PIB nos últimos anos, não tendo ultrapassado os 20%, patamar que nos últimos anos ela só atingiu em 1994.

De acordo com os dados do IBGE, em 2009, a taxa de investimentos caiu 6,7%. Em 2010, ela cresceu 21,3%. Em 2011, cresceu 4,7% e em 2012, caiu 4%. Em 2013, ela subiu 5,2%.

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