Com menos dias úteis, analistas projetam recuo da produção industrial em junho

A Copa do Mundo e a consequente redução do número de dias úteis gerou um quadro ainda mais fraco para a produção industrial em junho, que já vinha sendo afetada pelo desaquecimento da demanda, pelo aumento de estoques em diversos setores e pelo baixo nível da confiança dos empresários. Para economistas, a indústria será a principal influência negativa sobre o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, e os primeiros indicativos mostram que não houve reação do setor em julho.

Após ter cedido 0,6% em maio, a média de 21 instituições financeiras e consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data aponta que a produção encolheu 2,4% em junho, sempre na comparação com o mês anterior, feitos os ajustes sazonais. As estimativas para a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), a ser divulgada nesta sexta-feira (1) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vão de queda de 1,3% até retração de 4%. Se confirmada a expectativa dos analistas, essa será a quarta taxa negativa seguida na passagem mensal.

Segundo Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, os dados da Anfavea, entidade que reúne as montadoras instaladas no país, mostram que a produção de veículos teve comportamento muito ruim no período, mas vários outros indicadores antecedentes também reforçam a projeção de recuo de 1,3% para a atividade industrial no mês passado. No cálculo dessazonalizado pela Tendências, a produção do setor automotivo caiu 17,7% em relação a maio.

Na mesma comparação, o fluxo pedagiado de veículos pesados, medido pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) em parceria com a consultoria, ficou 4,3% menor, e o consumo industrial de energia e a expedição de papelão ondulado caíram 1,5% e 2,7%, respectivamente, considerando o ajuste da Tendências. "Houve um efeito do menor número de dias úteis sobre a produção, mas há uma série de outros fatores, além da Copa, que também pesaram nesses índices", diz Bacciotti.


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Para o economista, a fraqueza da demanda doméstica segue como principal entrave a uma melhora do desempenho da indústria. Segundo ele, o esfriamento do mercado de trabalho e das concessões de crédito indicam que o consumo continuará em ritmo mais modesto. Ao mesmo tempo, afirma, a indefinição nas regras do acordo automotivo com a Argentina e a recessão econômica no país vizinho prejudicaram o segmento de veículos, situação que pode ser agravada, caso o parceiro no Mercosul dê um calote.

"A Copa do Mundo provavelmente teve impacto negativo sobre a produção, mas o ritmo fraco da produção industrial também é resultado da confiança empresarial declinante e da desaceleração da demanda", comenta, em relatório, a equipe econômica do Itaú Unibanco, que trabalha com retração de 3,5% para a indústria em junho. Segundo o banco, a estimativa corrobora o cenário de que houve recuo da atividade no segundo trimestre. O Itaú calcula que o PIB encolheu 0,3% no período.

Leandro Padulla, da MCM Consultores, projeta que o PIB cresceu 0,2% sobre o primeiro trimestre, sustentado por maior dinamismo do setor agropecuário e dos serviços, mas esse número pode ser revisado após a divulgação da PIM de junho. Nos cálculos de Padulla, a produção diminuiu 3,1% ante maio. Para o economista, a indústria teria comportamento negativo no período mesmo sem os efeitos da Copa do Mundo, já que os estoques continuam em nível elevado em quase todos os segmentos industriais.

De acordo com a Sondagem da Indústria de Transformação, da Fundação Getulio Vargas (FGV), um dos setores superestocados é o do bens intermediários, que representa cerca de metade da produção manufatureira e, na opinião do economista da MCM, também é responsável pelo atual quadro de deterioração na indústria. "A queda da participação do setor intermediário dentro da produção industrial também está pesando", afirmou.

Bacciotti, da Tendências, aponta que a redução na produção de bens de consumo duráveis também acabou puxando para baixo a atividade do segmento de insumos industriais, que já enfrenta forte concorrência de produtos importados. Nesse sentido, ele diz que a taxa de câmbio mais próxima de R$ 2,20 do que R$ 2,40, nível observado nos primeiros meses do ano, é outro fator que pode ter piorado as perspectivas da indústria para 2014. Em suas estimativas, a produção vai recuar 2% no ano. Já Padulla, da MCM, espera retração de 3% da indústria no período.

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